A invasão das onças-pintadas resultou na morte de 172 dos 176 flamingos que viviam no recinto do Parque das Aves – Foto: Parque das Aves/Acervo
POR – DUDA MENEGASSI do ((O))ECO / NEO MONDO
As duas onças-pintadas, uma mãe e seu filhote, entraram para caçar no recinto dos flamingos na madrugada desta terça-feira (09). Parte das aves morreu devido ao estresse. Apenas 4 flamingos sobreviveram
Na madrugada desta terça-feira (09), duas onças-pintadas, a fêmea Indiara e seu filhote de apenas um ano, Aritana, – que está aprendendo com a mãe a caçar – conseguiram entrar no recinto dos flamingos, no Parque das Aves, em Foz do Iguaçu, no Paraná. A invasão dos felinos, registrada pelas câmeras de segurança, resultou na morte de 172 flamingos. Parte das aves sucumbiu pelo encontro direto com o felino, mas outras morreram indiretamente, devido ao estresse da situação. Apenas quatro flamingos sobreviveram. É a primeira vez que ocorre um incidente deste tipo no Parque das Aves, que existe há 27 anos, e é vizinho ao Parque Nacional do Iguaçu. A instituição decretou luto e suspendeu a visitação por três dias.
“Enquanto essa fêmea ensinava o seu filhote a caçar, vieram a óbito 172 dos 176 flamingos que tínhamos nesse recinto. Importante falar que nem todos os animais morreram em decorrência desse encontro direto com a onça-pintada. Nos flamingos e em algumas outras aves existe um fenômeno que a gente chama de miopatia de captura, quando os animais, diante da presença de um predador ou de um estresse, vêm à óbito por parada cardíaca. Então a nossa equipe veterinária ainda está fazendo a autópsia para tentar entender a causa mortis de cada indivíduo”, esclarece a diretora de engajamento e sensibilidade do Parque das Aves, Luciana Leite.
Na região, a população de onças-pintadas (Panthera onca), espécie ameaçada de extinção, é monitorada pelo programa Onças do Iguaçu. De acordo com a coordenadora-executiva do programa, Yara Barros, eles estão trabalhando junto com o Parque das Aves para reforçar as medidas de segurança, “que sempre tiveram, nunca teve nenhum registro parecido no local. E a gente vai fazer junto com o Parque das Aves um monitoramento de longo prazo”, complementa a bióloga que lidera a iniciativa de conservação.
O recinto dos flamingos é aberto, cercado apenas por uma pequena mureta. Para afastar as onças e outros possíveis predadores, o Parque usa um sistema de luzes piscantes, também usado em fazendas ao redor do Parque Nacional do Iguaçu para proteger o gado e outros animais de criação. O sistema tinha sido efetivo em manter os felinos afastados até então e a equipe do Parque das Aves ainda está investigando o motivo pelo qual, desta vez, a estratégia não foi suficiente para evitar a entrada de Indiara e Aritana no recinto.
“Pelo histórico do Parque das Aves no manejo destes animais há mais de 25 anos, não tínhamos razões para acreditar que um evento como este seria possível. Somos uma instituição baseada em ciência e, em parceria com o projeto Onças do Iguaçu, já havíamos instalado, além da cerca que está em todo arredor do Parque, outros instrumentos desenvolvidos para repelir a presença destes animais no entorno do recinto dos flamingos. São utilizadas luzes pulsantes, medida reconhecida como eficaz para manter felinos afastados. Além disso, o recinto é monitorado por câmeras de segurança e também por armadilhas fotográficas”, explica Paloma Bosso, diretora técnica do Parque das Aves.
Em comunicado oficial, o programa Onças do Iguaçu lamentou a fatalidade, mas lembrou que onças são animais selvagens, carnívoros e predadores, que portanto caçam e se alimentam de outros animais. “Não são cruéis, são onças”, reforçam.
A nota também foi enfática em desmentir o boato de que haveria um suposto “surto” de onças-pintadas na região. “Esclarecemos que não temos um surto de onças. Temos uma população ameaçada, estimada em 28 animais espalhados pelos 185 mil hectares do Parque Nacional do Iguaçu. Essa é uma quantidade, aliás, pequena para a área em questão. Em toda a Mata Atlântica existem cerca de 250 onças-pintadas apenas. Temos uma população criticamente ameaçada de extinção que quase se extinguiu na década de 90 e que, com muito esforço e dedicação de muita gente, conservacionistas e lindeiros, vem se recuperando. Aos poucos, mas sempre inspirando cuidados. E precisamos do apoio de todos para continuar. Nossa equipe se solidariza e compartilha o sofrimento da equipe do Parque das Aves pela perda de animais tão especiais. Ainda assim, continuamos firmes no nosso propósito de proteger e conservar as nossas onças”.