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O voto passa. As consequências ambientais permanecem

Escrito por Neo Mondo | 16 de outubro de 2026

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Voto define quem decide sobre florestas, rios e políticas ambientais, com consequências que atravessam gerações - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

ARTIGO

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Por - Claudia Guadagnin* e Clóvis Borges*, especial para o Neo Mondo

Mais do que afinidades ou rejeições pessoais, a escolha nas urnas exige avaliar o histórico e as propostas dos candidatos para proteger a natureza e as condições que sustentam a vida e a economia

Não é preciso admirar um candidato para reconhecer as consequências de sua possível eleição. Tampouco é necessário concordar com todas as suas posições para avaliar que um projeto de governo oferece melhores condições de proteger o interesse público. Em uma eleição presidencial, essa distinção importa: o voto define quem terá poder para tomar decisões que afetarão a vida de toda a sociedade.

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Cada eleitor chega às urnas com suas convicções, experiências e frustrações. Há razões para críticas e cobranças. Mas a rejeição a um candidato não pode dispensar o exame das propostas de seu adversário. Quando a aversão substitui a avaliação, corremos o risco de apoiar medidas cujas consequências nós mesmos teremos de enfrentar.

No campo ambiental, essa responsabilidade é particularmente concreta. A conservação da natureza está relacionada à disponibilidade de água, à produção de alimentos, à saúde e à segurança das cidades. Uma área natural protegida, uma bacia hidrográfica conservada ou uma ocupação territorial bem planejada têm valor para pessoas de todas as preferências políticas. O mesmo vale para os prejuízos decorrentes de sua destruição.

foto de claudia guadagnim, autora do artigo O voto passa. As consequências ambientais permanecem
Claudia Guadagnin - Foto: Divulgação

Não é necessário se identificar com a defesa do meio ambiente para depender dessas condições. A água que chega à torneira, os alimentos disponíveis no mercado e a segurança de uma casa diante de chuvas intensas também fazem parte dessa discussão. A política ambiental alcança, todos os dias, pessoas que raramente pensam nela.

O histórico também está na disputa

Avaliar uma candidatura exige mais do que ouvir suas promessas. É necessário considerar o histórico de quem a representa, os interesses que a sustentam e as medidas que pretende adotar.

A experiência anterior dos candidatos e seus partidos também precisa integrar esse exame. As decisões quanto a temáticas como fiscalização, atuação dos órgãos ambientais e proteção das áreas naturais devem ser discutidas a partir de seus resultados. Precisam servir de referência para avaliar quais caminhos as candidaturas atuais pretendem manter, corrigir ou retomar.

Compromissos ambientais precisam se traduzir em orçamento, capacidade técnica, fiscalização e coerência entre as diferentes áreas do governo. Uma promessa de conservação perde força quando decisões sobre infraestrutura, energia ou uso do território seguem na direção contrária.

Reconhecer responsabilidades distintas não significa conceder um cheque em branco a ninguém. Significa abandonar a ideia de que todas as propostas são equivalentes apenas porque nenhum candidato atende integralmente às nossas expectativas.

A natureza sustenta a economia

O debate eleitoral frequentemente apresenta a proteção ambiental como um obstáculo ao desenvolvimento. Essa visão desconsidera que a própria economia depende das condições que a natureza oferece.

A agricultura precisa de água, solo e estabilidade climática. As cidades dependem de mananciais e de um planejamento que considere os riscos de ocupação. Empresas precisam avaliar a continuidade de suas operações e a segurança de seus investimentos. As famílias precisam de condições para viver, trabalhar e construir seu futuro.

Por isso, enfraquecer a proteção ambiental não elimina custos. Pode transferi-los para a população, para o poder público e para as próximas gerações. Esses custos aparecem na perda de safras, na interrupção do abastecimento, nos danos à infraestrutura e nas despesas de reconstrução. O ganho imediato de uma atividade precisa ser confrontado com os prejuízos que ela pode impor ao conjunto da sociedade.

Uma política de desenvolvimento responsável deve considerar essa conta. A qualidade de um projeto de governo também se mede por sua capacidade de reconhecer limites, prevenir perdas e proteger as condições que sustentam a prosperidade no longo prazo.

Escolher exige discernimento

Nesta eleição, precisamos fazer perguntas objetivas. Como cada candidatura se posiciona diante das mudanças climáticas? Como pretende enfrentar o desmatamento? Que condições oferecerá aos órgãos responsáveis pela fiscalização? Como tratará o conhecimento científico? Que compromissos assume com a proteção das áreas naturais e com a prevenção de desastres?

As respostas precisam ser examinadas em conjunto com o histórico dos candidatos. Também é necessário distinguir propostas viáveis de declarações que simplificam problemas complexos ou prometem benefícios sem explicitar seus custos.

Para quem ainda está indeciso, existem iniciativas que reúnem indicadores e permitem consultar suas fontes. Uma delas é o portal Indecisos, que apresenta comparações entre os atuais candidatos. O site pode ser consultado como ponto de partida.

É possível manter críticas a um candidato e reconhecer que suas propostas oferecem melhores condições para enfrentar esses desafios. É igualmente possível ter afinidade com outro e concluir que determinadas medidas que ele defende ameaçam interesses essenciais da sociedade. Esse exercício exige independência de julgamento.

O discernimento começa quando aceitamos submeter nossas preferências ao exame dos fatos. Uma escolha responsável considera o que desejamos e o que cada candidatura poderá efetivamente produzir.

Nenhum governo deve estar acima da cobrança pública. Depois da eleição, será necessário acompanhar decisões, exigir o cumprimento de compromissos e contestar retrocessos. Mas essa fiscalização futura não diminui a responsabilidade da escolha presente.

foto de clóvis borges, autor do artigo O voto passa. As consequências ambientais permanecem
Clóvis Borges - Foto: Divulgação

A eleição passa. As decisões sobre florestas, rios, territórios e instituições deixam consequências que podem durar décadas. Algumas perdas são irreversíveis. Votar com responsabilidade é considerar quem estará exposto a elas — inclusive quem ainda não pode participar dessa escolha.

Continuaremos precisando de um copo de água. E precisamos preservar as condições para oferecê-lo a quem vier depois de nós.

Artigo escrito por Clóvis Borges e Claudia Guadagnin, que atuam na defesa da conservação da biodiversidade no Brasil. Escrevem o texto em caráter pessoal.

*Claudia Guadagnin é jornalista, pós-graduada em Antropologia Cultural e mestra em Direitos Humanos e Políticas Públicas.

*Clóvis Borges é diretor-executivo da SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental).

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