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Ultraprocessados reescrevem o DNA — e passam para os filhos

Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 9 de junho de 2026

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Ultraprocessados e seus efeitos podem ir além de uma geração. Estudos em epigenética indicam que a alimentação atual pode deixar marcas biológicas capazes de influenciar a saúde dos descendentes - Foto: Ilustrativa/Magnific

POR - DRA. MARCELA BARALDI*

Há uma ideia confortável que atravessa a cultura alimentar moderna: aquilo que comemos afeta apenas nós mesmos.

É uma crença conveniente. Se a consequência termina no próprio prato, o problema parece individual. Uma escolha privada. Um excesso aqui, um descuido ali.

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A ciência está começando a mostrar algo menos confortável.

Em alguns casos, aquilo que uma geração come pode deixar marcas biológicas detectáveis na geração seguinte.

Não estamos falando de mutações genéticas. O DNA continua sendo o mesmo. O que muda é a forma como determinados genes são ativados ou silenciados. É o campo da epigenética — uma das áreas mais fascinantes da biologia contemporânea.

Durante décadas, aprendemos que herdávamos dos pais um conjunto relativamente fixo de informações genéticas. Hoje sabemos que existe uma camada adicional de instruções químicas funcionando como um sistema de marcações sobre esse material genético.

Imagine um livro. O texto permanece igual. Mas alguém pode destacar trechos, colocar marcadores, dobrar páginas ou colar observações nas margens. O conteúdo original não muda, mas a forma como ele será lido muda profundamente.

É isso que a epigenética faz.

E a alimentação ocupa um lugar central nesse processo.

Os ultraprocessados — produtos formulados industrialmente com combinações de açúcares refinados, gorduras modificadas, aditivos, aromatizantes, estabilizantes e realçadores de sabor — não alteram apenas indicadores clássicos como peso corporal ou colesterol.

Estudos acumulados nas últimas duas décadas sugerem que padrões alimentares dominados por esses produtos podem modificar mecanismos epigenéticos associados à inflamação, resistência à insulina, metabolismo energético e regulação hormonal.

O dado mais perturbador é que algumas dessas alterações parecem atravessar gerações.

Em modelos experimentais, filhos e netos de indivíduos expostos a dietas altamente processadas apresentaram alterações metabólicas mesmo quando eles próprios não foram submetidos à mesma alimentação.

Entre humanos, a história é mais complexa, mas os sinais seguem na mesma direção.

Pesquisadores que acompanham populações ao longo de décadas observaram que períodos de abundância extrema ou de privação alimentar podem deixar rastros biológicos detectáveis nos descendentes. O ambiente nutricional vivido por uma geração parece influenciar a biologia das próximas.

Isso muda a forma como entendemos responsabilidade alimentar.

Não porque transforma o indivíduo em culpado pelo futuro dos filhos. Essa seria uma interpretação simplista e injusta.

Mas porque revela algo que a indústria alimentar raramente menciona: a alimentação não é apenas combustível. Ela é informação biológica.

Cada refeição conversa com sistemas hormonais, imunológicos e metabólicos. Cada padrão alimentar envia sinais que o organismo interpreta como instruções sobre o ambiente em que vive.

Durante milhões de anos, esses sinais ajudaram nossos ancestrais a sobreviver a períodos de escassez, abundância, frio, calor e migração.

O problema é que os sistemas biológicos que evoluíram para responder a mudanças lentas agora enfrentam um ambiente alimentar radicalmente novo.

Em poucas décadas, passamos de alimentos minimamente processados para produtos desenvolvidos por equipes de engenheiros, químicos, neurocientistas e especialistas em comportamento do consumidor.

O objetivo não é apenas alimentar.

É maximizar consumo.

A indústria descobriu algo que a evolução nunca precisou prever: é possível criar alimentos mais estimulantes do que aqueles encontrados naturalmente.

O resultado é um fenômeno conhecido por alguns pesquisadores como "hiperpalatabilidade". Produtos formulados para gerar respostas de prazer que ultrapassam os mecanismos normais de saciedade.

O corpo continua operando com ferramentas biológicas ancestrais.

O mercado já não.

Talvez seja por isso que discussões sobre alimentação frequentemente fracassem. Elas costumam ser apresentadas como questões de disciplina pessoal quando, na realidade, envolvem biologia, economia, comportamento, publicidade e engenharia alimentar.

A narrativa da força de vontade é sedutora porque é simples.

A ciência raramente é.

Quando observamos o crescimento global das doenças metabólicas, da obesidade, do diabetes tipo 2 e das condições inflamatórias crônicas, fica cada vez mais difícil sustentar a ideia de que estamos diante apenas de decisões individuais equivocadas.

Estamos diante de um experimento alimentar em escala planetária.

E, pela primeira vez na história, talvez estejamos descobrindo que seus efeitos não terminam necessariamente na geração que o iniciou.

O que a epigenética está revelando não é um destino inevitável nem uma sentença biológica.

É algo mais desconfortável.

A possibilidade de que o corpo esteja registrando muito mais sobre o mundo que construímos do que imaginávamos.

E de que parte desse registro continue falando quando já não estivermos aqui.

*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

foto da dra marcela baraldi, autora do artigo Ultraprocessados reescrevem o DNA — e passam para os filhos
Dra. Marcela Baraldi, autora do artigo "Ultraprocessados reescrevem o DNA — e passam para os filhos" - Foto: Arquivo pessoal

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