Arara-azul-de-lear – Foto/João Marcos Rosa
POR – ICMBio / NEO MONDO
Foi a primeira vez que o levantamento foi realizado nos cinco dormitórios utilizados pela espécie na região do Raso da Catarina, na Bahia
Pesquisadores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (Cemave, Esec Raso da Catarina, Resex Canavieiras e APA Chapada do Araripe), da Fundação Biodiversitas, do INEMA e da Qualis Ambiental, além de 15 voluntários, realizaram o censo simultâneo anual da arara-azul-de-lear, na região do Raso da Catarina, Bahia. Essa união de esforços possibilitou, pela primeira vez, a realização do censo nos cinco dormitórios atualmente utilizados pela espécie: Serra Branca (localizada no sul da Esec Raso da Catarina), Estação Biológica de Canudos, Fazenda Barreiras, Baixa do Chico (Terra indígena dos Pankararés) e Barra do Tanque. “Isso possibilitou chegarmos a uma estimativa mais aproximada do tamanho real da população de araras-azuis-de-lear na natureza”, comemora Emanuel Barreto, analista ambiental do Cemave. A espécie é endêmica da caatinga.
O censo seguiu a metodologia padrão estabelecida pelo Cemave, com seis contagens a partir de um ponto fixo, sendo três ao amanhecer (quando as araras saem dos dormitórios para as áreas de alimentação) e três ao entardecer (quando elas retornam aos dormitórios) e totalizou um número médio de 1694 araras-azuis-de-lear. Para a Bióloga Tania Maria Alves da Silva, da Fundação Biodiversitas, “participar do censo é sempre uma mistura de emoção e expectativa na esperança de que o número de indivíduos esteja aumentando, o que felizmente é constatado a cada ano”.
Voluntários que trabalharam no censo. (Foto/Osmar Borges)
Em todos os pontos de contagem estabelecidos havia pelo menos dois recenseadores munidos de binóculos, máquinas fotográficas e rádios de comunicação. De acordo com o analista ambiental Osmar Borges, da ESEC Raso da Catarina, “a comunicação entre os recenseadores é importante para evitar duplicidade de contagem, especialmente nos locais com grande concentração de araras”.
De acordo com o Biólogo Thiago Filadelfo, da Qualis Ambiental, uma decisão importante neste censo foi a inclusão do dormitório situado na Barra do Tanque, em Euclides da Cunha, pois ele possui característica diferente dos demais dormitórios. “É o único dormitório onde as araras dormem em árvores, um hábito comportamental desconhecido para a arara-azul-de-lear até pouco tempo”.
Marianna Pinho, especialista em Meio Ambiente e Recursos Hídricos, destacou a participação do INEMA no censo. “Para a Diretoria de Biodiversidade do INEMA, que participa do censo pelo segundo ano consecutivo, esta foi uma excelente oportunidade de envolvimento direto com a conservação da arara-azul-de-lear, considerando que a espécie é endêmica do estado da Bahia. A parceria com o ICMBio na execução desta atividade permite conhecer melhor a biologia da espécie, ter contato com representantes das instituições envolvidas e assim contribuir de maneira mais efetiva na conservação da espécie”.
O envolvimento de outras unidades de conservação do ICMBio, além da própria Esec Raso da Catarina, foi importante para fortalecer a parceria com o Cemave e outras instituições. Para Flávia Domingos, analista ambiental da APA Chapada do Araripe “participar do censo foi uma experiência enriquecedora e gratificante, tanto profissional quanto pessoal. Fiquei muito feliz por poder participar desse importante esforço para a conservação da espécie. Contribuiu ainda para o fortalecimento da relação entre o Cemave e a unidade de conservação proporcionando ambiente de aprendizado, troca e parceria”.
O censo também foi uma oportunidade de treinamento para voluntários cadastrados no Programa de Voluntariado do ICMBio. Para o estudante de Ciências Biológicas Ellie Pereira “o censo foi uma excelente oportunidade e o aprendizado será muito útil para minha carreira de Biólogo”. Para Patrick Avelino, estudante de Engenharia de Pesca, “quando recebi o convite para participar como voluntário não tive como recusar, pois, embora não seja minha área de atuação profissional, é um privilégio conhecer a arara-azul-de-lear e o ambiente onde ela vive”. Um dos voluntários mais antigos, Alex Frank, é um dos mais empolgados com o projeto de conservação da arara-azul-de-lear. “Já participei de vários censos e é muito gratificante participar desse trabalho e estar em contato com a natureza. Sou grato ao ICMBio por dar oportunidade a outras pessoas. Meu filho Israel participou no ano passado e este ano meu pai, que tem 70 anos, participou pela primeira vez”.
Endêmica da Caatinga
A arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari) é uma espécie endêmica da caatinga, com ocorrência nas regiões do Raso da Catarina e do Boqueirão da Onça, no Bahia. Embora descrita em 1856, só foi descoberta na natureza no ano de 1978. Utiliza cavidades em paredões de arenito para pernoite e nidificação, partindo diariamente, ao amanhecer, para as áreas de alimentação. No final da tarde, os bandos retornam aos seus abrigos, chegando logo após o pôr do sol ou ainda mais tarde. Seu principal alimento é o coco da palmeira licuri (Syagrus coronata), mas também se alimenta de outros frutos e sementes da caatinga e de milho. A espécie é categorizada como Em Perigo de extinção e está contemplada no Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves da Caatinga.