POR – ONU / NEO MONDO
Durante a abertura da conferência sobre mudança climática COP 24, que ocorre em Katowice, na Polônia, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse na segunda-feira (3) para mais de 150 líderes mundiais que “nós estamos em apuros”, e pediu foco em intensificar as ações climáticas, seguindo um plano sólido, com mais financiamento e investimento inteligente no futuro do planeta
A 24ª conferência das partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) tecnicamente começou no domingo (2), mas teve sua abertura na segunda-feira. A conferência de duas semanas marca o prazo final para as 197 partes signatárias adotarem as diretrizes para implementação do histórico Acordo de Paris, de 2015.
Na capital francesa, há três anos, países concordaram coletivamente em manter o aumento da temperatura global em até 2°C acima dos níveis pré-industriais, e, se possível, limitá-los a 1,5°C. Agora, na Polônia, eles precisam concordar sobre formas de alcançar esse objetivo comum. “Não podemos falhar em Katowice”, disse Guterres.
Dando início ao evento, junto a outros representantes de alto nível, ele destacou as quatro mensagens essenciais para os milhares de representantes de países, organizações sem fins lucrativos, agências da ONU e companhias do setor privado reunidos em Katowice.
1. “Precisamos de mais ação e mais ambição”
O secretário-geral da ONU começou destacando que as mudanças climáticas já são “uma questão de vida e morte” para muitas pessoas, nações e países do mundo e que a ciência está nos dizendo que precisamos nos mover mais rápido.
Citando diversos relatórios alarmantes da ONU – incluindo um sobre aumento global de emissões de CO2 e outro sobre aumento de concentrações de gases causadores do efeito estufa na atmosfera – Guterres pediu para nações prestarem atenção à ciência e aumentarem o ritmo, assim como suas ambições.
“Mesmo enquanto testemunhamos impactos climáticos devastadores causando destruição no mundo todo, ainda não estamos fazendo o suficiente, ou nos mexendo rápido o suficiente, para prevenir problemas climáticos irreversíveis e catastróficos.”
No ano passado, visitei Barbuda e Dominica, que foram devastadas por furacões. A destruição e o sofrimento que vi eram de partir o coração”, explicou, destacando que “estas emergências são evitáveis”.
Ele pediu que a comunidade internacional trabalhe para garantir que emissões caiam 45% até 2030 em relação aos níveis de 2010 e sejam zero até 2050, e que a energia renovável forneça de metade a dois terços da energia primária do mundo até 2050, com uma redução correspondente em combustíveis fósseis.
“Se fracassarmos, o Ártico e a Antártida irão continuar derretendo, corais irão branquear e depois morrer, os oceanos irão crescer, mais pessoas irão morrer pela poluição do ar, escassez de água será uma praga para uma proporção significativa da humanidade e o custo de desastres irá decolar”, alertou aos presentares antes das negociações.
2. Diretrizes para implementação são essenciais para aumentar confiança entre países
Afirmando que “não temos tempo para negociações ilimitadas”, o secretário-geral insistiu sobre a necessidade de operacionalizar o Acordo de Paris e lembrou Estados-membros de que 2018 é o prazo estabelecido por eles mesmos para finalizar as diretrizes de implementação.
“Precisamos de uma visão unificada para implementação, que estabeleça regras claras, inspire ações e promova ambição, com base no princípio de equidade e do comum, mas com responsabilidades diferenciadas, à luz das diferentes circunstâncias nacionais”, disse o chefe da ONU.
“Alcançamos sucesso em Paris porque negociadores estavam trabalhando em direção a um objetivo comum”, acrescentou, ao pedir para os delegados manterem o mesmo espírito de colaboração urgente para “garantir que os laços de confiança estabelecidos em Paris durem”.
3. Financiamento adequado para ações climáticas será “central”
“Precisamos de mobilização orquestrada de recursos e investimentos para combater com sucesso as mudanças climáticas”, disse o secretário-geral da ONU aos delegados que participaram da grande abertura da COP 24, destacando que três quartos da infraestrutura necessária até 2050 para ações climáticas ainda precisam ser construídos.
Ele insistiu sobre a necessidade de focar esforços em cinco áreas econômicas essenciais: energia, cidades, uso de terras, água e indústrias.
“Governos e investidores precisam apostar na economia verde, não na cinza”, explicou, ressaltando a necessidade de adotar precificação de carbono (cobrar emissores de CO2 por suas emissões), eliminar subsídios prejudiciais de combustíveis fósseis e investir em tecnologias limpas.
“Isto também significa fornecer uma transição justa para trabalhadores em setores tradicionais que enfrentam problemas, incluindo através de treinamentos e redes de seguridade social”, destacou, acrescentando que “também temos uma responsabilidade coletiva de auxiliar as comunidades e os países mais vulneráveis – como pequenas nações insulares e os países menos desenvolvidos – ao apoiar adaptação e resiliência”.
Em 2015, um total de 18 países de alta renda se comprometeu a doar 100 bilhões de dólares ao ano, até 2020, para nações de baixa renda apoiarem suas ações climáticas. Guterres pediu que os países cumpram o prometido.
Ele também pediu para Estados-membros “implementarem rapidamente o reabastecimento do Fundo Verde para o Clima”. “É um investimento em um futuro mais seguro e mais barato”.
4. “Ação climática faz sentido social e econômico”
“Muito frequentemente, ações climáticas são vistas como um fardo”, disse o secretário-geral da ONU, ao explicar que “ações climáticas decisivas hoje são nossa chance de endireitar nosso navio e definir um rumo para um futuro melhor para todos”.
O chefe da ONU elogiou cidades, regiões e comunidades empresariais ao redor do mundo por seguirem em frente. “O que precisamos é de liderança política com mais vontade e prudência. Este é o desafio pelo qual líderes desta geração serão julgados”.
De acordo com o relatório recente New Climate Economy, “ações climáticas ambiciosas podem produzir 65 milhões de empregos e um ganho econômico direto de 26 trilhões de dólares ao longo dos próximos 12 anos”.
O chefe da ONU destacou a necessidade de garantir que esta transformação econômica seja liderada com um comprometimento com a igualdade de gênero e a inclusão da juventude. “Precisamos começar a construir hoje o amanhã que queremos”, afirmou Guterres.
“Audácia” e “cinco vezes mais ambição” são necessários!
Ecoando as afirmações do secretário-geral, o primeiro-ministro de Fiji, Frank Bainimarama, que presidiu a COP 23, pediu para o mundo entregar “cinco vezes mais ambição, cinco vezes mais ação” e evitar “se tornar a geração que traiu a humanidade”.
A presidente da Assembleia Geral da ONU, Maria Fernanda Espinosa, pediu “audácia” em ações climáticas e destacou que multilateralismo é a única maneira de reverter os efeitos negativos do aquecimento global.
Já o presidente desta COP, Michal Kurtyka, se referindo ao passado minerador de Katowice, convidou os delegados a “buscar um caminho de transição profunda, mas justa” quando levarem o Acordo de Paris à vida. Mais cedo, o presidente da Polônia, Andrzej Duda, apresentou uma “Declaração para uma Transição Justa”.
Durante a abertura, a diretora-executiva do Banco Mundial, Kristalina Georgieva, também anunciou que a organização irá dobrar seus investimentos atuais de cinco anos para apoio às iniciativas sobre mudanças climáticas ao alocar 200 bilhões de dólares a partir de 2020.
O valor irá incluir 100 bilhões de dólares diretamente do Banco Mundial, dos quais metade será alocada para iniciativas de mitigação e construção de resiliência, e outros 100 bilhões de dólares de dois membros do grupo do Banco Mundial – a Corporação Financeira Internacional e a Agência Multilateral de Garantia de Investimentos – e capital privado.