Foto – WWF-Brasil/Araquém Alcântara
POR – AVIV COMUNICAÇÃO, PARA NEO MONDO
Série de imagens obtidas pelo WWF-Brasil representa o processo de apropriação de terras
A Amazônia ainda está queimando. Em 2019, considerando o período entre 1º de janeiro e 30 de setembro, o número de queimadas (66.750) aumentou 42% na Amazônia em comparação com o mesmo período de 2018, quando foram detectados 46.968 focos.
Em alguns estados, a situação de queimada foi especialmente grave entre janeiro e setembro. Comparados ao mesmo período de 2018, Amazonas, Mato Grosso e Roraima tiveram aumentos de 24%, 78% e 132%, respectivamente.
Na semana passada, uma equipe do WWF-Brasil sobrevoou a região sul do Pará e norte do Mato Grosso entre as cidades de Itaituba, Novo Progresso, São Félix do Xingu e Guarantã do Norte. Para se ter uma ideia, entre as cidades de Guarantã e Itaituba, em um período de 3 horas, foram observados 18 pontos de fumaça.
QUEIMADAS E TERRA
O fogo é amplamente utilizado para limpar terras desmatadas. E, uma situação muito comum na região é a apropriação de terras – quando criminosos cortam a floresta para sinalizar ocupação e depois reivindicam direitos à terra com base em documentação falsificada.
Nesse caso, como pode ser visto na figura 1, nota-se que a queima foi realizada de maneira controlada, uma indicação da ação dos grileiros. O caminho que aparece na foto, com uma cerca construída no meio, não é uma estrada, mas um incêndio – uma faixa de espaço aberto instalada na floresta como um obstáculo à propagação do fogo.
Foto – WWF-Brasil/Araquém Alcântara
Note-se também que os grileiros estão preocupados em não remover todas as árvores do solo, para que espaços abertos não gerem alertas de desmatamento nas imagens de satélite. “Por causa do calor, as árvores restantes morrerão, mas ainda permanecerão, enganando a medição do desmatamento”, diz Ricardo Mello, gerente do Programa Amazônia do WWF-Brasil. “É um processo lento de degradação para não chamar atenção”.
A foto foi tirada entre 23 e 24 de setembro, na região sul da cidade de Itaituba. “É uma situação que se assemelha à ocupação típica de terras”, diz Mello. O desmatamento, ele disse, requer um alto investimento. “O fato de ter uma cerca de arame indica que a pessoa responsável pelo incêndio tem os recursos para construí-lo. Não se parece com a queima típica de comunidades tradicionais ou indígenas”.
Essa situação geral não mudou: o governo federal vem agindo para enfraquecer os sistemas de proteção ambiental. Houve alguns contratempos legais no Congresso (Código Florestal, Projeto de Licença Ambiental, por exemplo) e até a crise internacional o governo federal diminuiu o número de multas e censurou seus funcionários a trabalhar como de costume por causa de uma suposta “indústria de multas” – uma frase usada por Bolsonaro indicando que o monitoramento deve ser relaxado.
“É necessária uma ação mais forte do governo, que afrouxou os mecanismos de fiscalização e sinalizou o desmatamento e a apropriação de terras não seriam punidos. O desmatamento continua a aumentar, apesar do discurso do governo. Se os reveses promovidos por esse governo não forem revertidos, poderemos ter um situação semelhante – ou pior – no próximo ano “, explica Raul Valle, diretor de Justiça Socioambiental do WWF-Brasil.
Foto – WWF-Brasil/Araquém Alcântara
QUEIMADAS EM SETEMBRO
Em setembro de 2019, o número de focos de incêndio na Amazônia (19.925 incêndios) caiu 19%, em comparação com o mesmo mês de 2018 (24.803 incêndios). Após meados de setembro, o número de incêndios na Amazônia geralmente cai com a chegada da estação das chuvas.
Outro aspecto importante é que, embora o número de incêndios na Amazônia tenha diminuído em setembro, em comparação com o mesmo mês do ano passado, os alertas de desmatamento aumentaram. Isso significa que essas áreas provavelmente serão queimadas no final deste ano ou até na próxima estação seca. Historicamente, na Amazônia, o desmatamento vem em primeiro lugar e é seguido por queimadas.
DESMATAMENTO
O governo brasileiro está usando amplamente os dados de setembro para afirmar que a situação já está sob controle. No entanto, existem várias indicações de que a Amazônia ainda está queimando, pois os fatores que levaram às queimadas não controlados em 2019 ainda estão em vigor.
Até os primeiros 19 dias de setembro de 2019, a área total de pontos de desmatamento na Amazônia brasileira, em 2019, cobriu 7.580 km2. Um crescimento significativo, de 153% e de 79%, quando comparado à média dos últimos 10 anos e três anos, respectivamente
Também é importante lembrar que essa queda de queimadas em setembro ocorreu após um mês particularmente devastador de agosto.
Em agosto de 2019, 30.901 focos de queimadas foram detectados na Amazônia. Houve um aumento de 196% em relação a agosto de 2018, quando 10.421 focos de incêndio foram detectados no bioma. Segundo o INPE, a área queimada no Brasil de janeiro a agosto deste ano é de 131.327 km2, um pouco maior que a da Inglaterra. Na Amazônia, 43.573 km2 foram queimados nos oito primeiros meses do ano – mais da metade desse total foi queimado apenas em agosto: 24.944 km2 uma área maior que o país de Gales.
Foto – WWF-Brasil/Araquém Alcântara
ALÉM DA AMAZÔNIA
Embora o maior número de incêndios ocorrido neste ano tenha ocorrido na Amazônia (66.750), devido à sua grande extensão, a situação no Cerrado e, principalmente no Pantanal, foi ainda pior nos primeiros nove meses do ano, com o aumento de focos de incêndio 60% e 336%, respectivamente, em comparação com 2018.
Números atualizados
SETEMBRO (1/9 a 30/9)
⦁ Amazônia – 19.925 incêndios
– 19% abaixo do mesmo período de 2018.
⦁ Pantanal – 2.887 incêndios
– 268% em relação ao mesmo período de 2018.
⦁ Cerrado – 22.989 incêndios
– 100% em relação ao mesmo período de 2018.
De Janeiro a Setembro (1/1 a 30/9) | |||
2019 Jan a Set | 2018 Jan a Set | % | |
Amazônia | 66.750 | 46.968 | 42% |
Cerrado | 50.524 | 31.477 | 60% |
Pantanal | 6.052 | 1.388 | 336% |
2019 em TOTAL – (1 de janeiro a 30 de setembro)
⦁ Amazônia – 66.750 incêndios
– 24% acima da média dos últimos 10 anos.
– 15% acima da média dos últimos 3 anos.
⦁ Amazonas – 11.393 incêndios
– 50% acima da média dos últimos 10 anos.
– 24% acima da média dos últimos 3 anos.
– 24% em relação ao mesmo período de 2018.
⦁ Mato Grosso – 27.553 incêndios
– 27% acima da média dos últimos 10 anos.
– 28% acima da média dos últimos 3 anos.
– 78% em relação ao mesmo período de 2018.
⦁ Roraima – 4.637 incêndios
– 201% acima da média dos últimos 10 anos.
– 124% acima da média dos últimos 3 anos.
– 132% em relação ao mesmo período de 2018.
Foto – WWF-Brasil/Araquém Alcântara