Jovem Juruna Yudja na aldeia Miratu, localizada na Terra Indígena Paquiçamba, Volta Grande do Xingu – Foto: Marcelo Soubhia/ISA
ARTIGO
POR – THAIS MANTOVANELLI (ASSESSORA DO ISA) / NEO MONDO
A Terra, planeta, está perguntando-nos se somos capazes de conseguir entender o que ela nos diz. É uma chamada de atenção e um grito de urgência.
Com esse grito ressoando nos amplificadores da questão de permanência da humanidade como espécie, organizo o exercício de convocar questões e provocar respostas sobre o mundo, esse futuro de agora.
Para composição de meu exercício, recorro então a partes de meu material de trabalho etnográfico para forjar um diálogo imaginado que, apesar disso, existe. Inspiro-me no que fez o filósofo francês François Julien, no livro chamado Fundar a Moral. Para fazer uma potente crítica ao modo de produção predatória e capitalista do conhecimento ele forja um diálogo entre Confúcio e a filosofia ocidental.
Pergunto. E se superássemos a dicotomia natureza e cultura que fundamenta nossas práticas de exploração econômica e transforma todas as formas de vida, existência e paisagem em recurso a ser confiscado, vendido, apropriado e transformado em lucro para os bolsos dos homens, que se consideram os donos do relógio da velocidade do mundo?
Em 2020, os caciques Mẽbengôkre-Xikrin reunidos com seus guerreiros na aldeia Krimex solicitaram que eu registrasse suas declarações a respeito das invasões, desmatamento e queimada de suas terras, intensificadas desde 2018, com a eleição de Bolsonaro. Os Mẽbengôkre-Xikrin empenhavam-se, como fizeram tantas outras vezes, em “mostrar seu pensamento” para os brancos. Os guerreiros índios com suas bordunas, exibindo suas pinturas corporais e adornos cerimoniais entoaram seu canto-dança de guerra. Bepydjy, avô de muitas crianças anunciou:
Foto: Divulgação
Nossa terra só é essa
Não queremos ver a nossa floresta derrubada
Nossa terra é uma só
Antigamente quando eu ainda não era adulto
Eu via essa terra e eu via seu pensamento bom e forte
Eu comia os animais, jabutis que eu caçava
Era isso que eu comia com meus parentes
Eu gostava muito disso
Eu fazia os braceletes para as festas
Os enfeites
Mas agora chegou o dia de hoje
Esse dia chegou, não é mesmo?
Nós pessoas humanas só temos essa terra
Essa é nossa terra verdadeira
Essa é nossa terra primeiro, nossa primeira terra
Precisamos conseguir ficar aqui onde estamos
Vamos manter a floresta assim com seus jabutis vivos
Eu vi essa terra boa e bonita
Eu matei porcões
Eu pintei meu rosto e meu corpo de preto
Eu gosto da floresta
Não mexa nas terras dos Mẽbengôkre
Não roubem nossa madeira para vendê-las
Eu gosto da floresta
Eu sou feliz na floresta
Eu já estou adulto
Eu já sou avô
Nós falamos uma fala só
Nós falamos a mesma fala que falam os nossos velhos
Nós falamos a mesma fala que falam os chefes antigos
Nossa terra é única
Nossa fala é uma só
Nós somos o seu verdadeiro dono
Não são duas
Nossa terra é única
Minha resposta a essa convocação para defesa dos territórios indígenas e ribeirinhos é realizar uma ampliação do alerta e fazer com que esse reclame se espalhe e possa influenciar nas ações de fiscalização desses territórios, cujas instituições responsáveis sofrem sabidamente desmantelos governamentais.
A solução não é complicada, ao contrário. Trata-se de justiça epistêmica frente ao conhecimento de povos que estão conectados com os rios, as matas, as chuvas, os ventos, as roças. Trata-se de considerar com seriedade as preocupações juruna com o fim do sossego dos peixes depois que o Xingu passou a ser controlado por máquinas para o roubo de suas águas. De levar às últimas consequências relações de conexão e pertencimento: “o Xingu é nosso pai e nossa mãe, ele pulsa em nós”, “nós temos canoas no lugar dos pés”.
Precisamos, se quisermos continuar existindo, aprender a respeitar a terra-planeta, essa que nos é única. Para os Mẽbengôkre-Xikrin essa ideia passa pelo conceito pi’am e implica numa ação de envergonhar-se diante de. Assim como os meninos envergonham-se diante de seus avôs e tios maternos.
É hora de ouvirmos o chamado da terra no rádio amador, e nos envergonhar, mudar o rumo de nossas ações da predação capitalista e egoísta. Gamá? Fomos capazes de entender o que nos está sendo dito?
Foto – Gerd Altmann por Pixabay