Presidente Jair Bolsonaro – Foto: Divulgação
POR – GREENPEACE BRASIL / NEO MONDO
Em discurso previsível, o presidente brasileiro descreve um país fictício e minimiza as graves crises que o país enfrenta no meio ambiente e na saúde
O discurso do presidente Jair Bolsonaro na 75ª Assembleia Geral da ONU aconteceu enquanto o país arde em chamas e testemunha a destruição de seus biomas e suas riquezas naturais. As imagens da Amazônia, Pantanal e Cerrado queimando estão há meses chocando o Brasil e o mundo sem que haja planos, metas ou orçamento capazes de proteger esses biomas de forma concreta e eficaz.
Mesmo com a proibição imposta pela moratória do fogo desde 16 de julho, a Amazônia e o Pantanal registraram recordes de queimadas. Até o dia 21 de setembro, o Pantanal registrou 5.966 focos de calor, um aumento de 107% em relação a todo mês de do ano passado. Já a Amazônia registrou 27.660 focos entre os dias 1º e 21 de setembro, um aumento de 38% em relação ao mês de setembro de 2019.
A política antiambiental do atual governo está derretendo a imagem do Brasil lá fora e prejudicando a economia nacional. O país que antes já foi visto como liderança na questão ambiental foi o que mais destruiu suas florestas no mundo todo, em 2019, segundo dados da Global Forest Watch. Em 2020 os dados mostram que a situação só se agravou.
“Negar ou minimizar o drama ambiental que o Brasil vive neste momento, resultado da política do governo Bolsonaro, agrava a difícil situação que o país enfrenta. Lamentavelmente, já estamos habituados a ouvir o presidente faltar com a verdade, desqualificar a ciência e buscar culpabilizar terceiros em vez de assumir a responsabilidade constitucional que possui. Entretanto, quando o faz na Assembleia Geral da ONU, diante de centenas de líderes de países, de investidores e do mundo todo, o presidente piora ainda mais a imagem do Brasil e agrava as sérias crises que enfrentamos”, comenta Mariana Mota, coordenadora de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil.
Queimada na Reserva Extrativista Jaci-Paraná, em Porto Velho (RO), em agosto de 2020, um mês após a publicação do decreto presidencial que proíbe as queimadas na Amazônia e no Pantanal. © Christian Braga / Greenpeace
Ao contrário do que foi afirmado pelo presidente, os incêndios na floresta amazônica são fruto da ação humana, sendo uma das principais ferramentas utilizadas para o desmatamento, especialmente por grileiros e agricultores, que o utilizam para limpar áreas para a agropecuária ou especulação.
“Ao invés de negar a realidade, em meio à destruição recorde dos biomas brasileiros, o governo deveria cumprir seus deveres constitucionais em prol da proteção ambiental e apresentar um plano eficiente para enfrentar os incêndios que consomem o Brasil”, completa Mota.
A crise do clima no STF
Não é apenas a pressão internacional sobre o meio ambiente que questiona a política antiambiental do atual governo. Ontem, dia 21 de setembro, um dia antes do discurso de Bolsonaro na ONU, teve início uma audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a situação ambiental no país e a utilização dos recursos do Fundo Nacional sobre Mudança Climática. A audiência contou com representantes do governo e de organizações da sociedade civil, entre elas o Greenpeace Brasil, e prossegue hoje, 22, com a participação de especialistas e empresas.
Entre os participantes estavam também cientistas, como Carlos Nobre, Ricardo Abramovay e Thelma Krug, além de representantes de institutos e organizações que puderam explicar, com base em dados, o desmonte das políticas de contenção do desmatamento e o não uso do orçamento destinado ao meio ambiente. Todos os dados foram entregues à Corte. A ex-ministra do meio ambiente, Izabella Teixeira, afirmou em sua intervenção que hoje em dia não se passa a boiada, se rastreia a boiada.
Fabiana Alves, coordenadora de Clima e Justiça do Greenpeace, ao terminar sua fala ao Supremo afirmou: “Temos que cuidar do nosso país em vez de fazermos comparações com outras nações que nos levam a um denominador comum que remete à devastação humana e ambiental, e a um desenvolvimento econômico que já se provou insustentável em todo o mundo”.
O desmonte de nossas políticas ambientais vai na contramão da soberania defendida pelo presidente. Ser soberano é ser capaz de agir com governança e eficiência para lidar com um país em chamas, além de defender as florestas e o meio ambiente, patrimônios do povo brasileiro.