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POR – REDAÇÃO NEO MONDO
Em dois volumes, coletânea de textos assinados por nomes expressivos do Brasil e do exterior analisa a crise sanitária mundial e reflete ideias e sentimentos que vieram à tona diante dessa catástrofe social, política e civilizacional
Desde meados de março de 2020, com o anúncio oficial da pandemia de Covid-19 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a descoberta do primeiro caso no Brasil, bem como a paralisação de muitas atividades e o início do confinamento, a editora N-1 criou uma plataforma online destinada exclusivamente à circulação de textos vinculados à pandemia. Nesse sentido, análises, relatos, registros e as mais variadas informações sobre o assunto foram reunidas e distribuídas em dois livros que chegam ao mercado em uma coedição com as Edições Sesc São Paulo: Pandemia Crítica outono 2020 e Pandemia Crítica inverno 2020.
Com organização de Peter Pál Pelbart, os títulos refletem parte das ideias e sentimentos que a pandemia despertou no mundo e também no país. De acordo com Pelbart, a intenção foi captar o que se pensou e sentiu no calor dos acontecimentos. “Tratava-se de explorar, ainda que intuitivamente, como esse evento mundial nos chegava, perturbava, atordoava e abria brechas”, diz ele. “Sabemos que uma crise é também uma oportunidade. Abre uma rachadura em uma situação e desperta sonhos e monstros, individuais e coletivos. Portanto, serve não apenas para diagnosticar nossos males, mas, também, para perceber nossas possibilidades de transformação”, complementa.
Os textos que recheiam os dois livros podem ser divididos em alguns tipos principais: análises das causas imediatas ou remotas da pandemia, observações sobre o que ela revelou por meio dos efeitos que suscitou, como a mortandade e a vulnerabilidade muito maior diante do vírus pelas classes subalternas, das populações negras, indígenas e quilombolas – evidenciando a desigualdade de condições de vida, saúde e alimentação na sociedade brasileira – e avaliações sobre as relações de poder entre governantes e governados em distintas regiões do mundo nesse momento de crise, com ênfase no descaso observado em alguns países (caso do Brasil e dos Estados Unidos sob a administração Trump) e na conduta da crie sanitária por regimes totalitaristas (China e Hungria).
De acordo com o organizador, os textos seguem a ordem cronológica em que apareceram na plataforma virtual da n-1 edições e foram distribuídos em dois volumes. O primeiro deles, Outono de 2020, reúne publicações de março a junho do ano passado; já o segundo tomo, Inverno de 2020, os produzidos posteriormente. Tendo a pandemia como fio condutor, o material reunido reflete os paradoxos do isolamento, a angústia, o medo e a solidão, assim como as iniciativas de solidariedade em comunidades, bairros e instituições. Sobre os autores (brasileiros e estrangeiros), Pelbart diz que convidou alguns nomes específicos para escreverem especialmente para a plataforma, como André Lepecki, Vladimir Safatle, Moacir dos Anjos e Durval Muniz de Albuquerque. “Boa parte dos artigos, porém, foi identificada em sites e integradas à coletânea, como os assinados, por exemplo, por Zé Celso, Achille Mbembe e Jean-Luc Nancy, entre outros. Também incluímos, mediante autorização dos autores, textos de Eduardo Viveiros de Castro, Déborah Danowski e Jerôme Bachet, para citar alguns”, afirma.
Como assinala Pelbart, o conjunto não pretende ser um registro objetivo, como um afresco monumental de uma das maiores crises enfrentadas pela humanidade, mas, sim, um mergulho na mente coletiva, quase no inconsciente da população e do planeta, naquele momento em que o vírus se disseminou e em seus múltiplos prolongamentos. “Pandemia Crítica nasceu em uma noite de breu na história. O que foi se revelando não era apenas o retrato de uma calamidade sanitária, mas de um mundo em colapso. Tornou-se visível à luz do dia o que estava debaixo do nosso nariz, mas não enxergávamos: uma catástrofe não só sanitária, social e política, mas civilizacional”, avalia o organizador.