Sistemas de prevenção a incêndios no Pantanal precisam ser fortalecidos no Brasil, Bolívia e Paraguai – Foto: Juliana Arini / WWF-Brasil
Por – WWF-Brasil, Bolívia e Paraguai / Neo Mondo
No Dia do Pantanal, WWF convoca tomadores de decisão para prevenir incêndios e restaurar uma das áreas mais afetadas pela estiagem
Hoje (12/11) Dia do Pantanal, o WWF exorta governos e tomadores de decisão de diferentes setores a fortalecer e aumentar as ações e desenvolver políticas públicas de prevenção de incêndios florestais e restauração de áreas afetadas pelo fogo nessa paisagem. As mudanças climáticas e suas potenciais consequências, como inundações e secas, colocam em risco constantemente as pessoas locais que vivem em vulnerabilidade.
A temporada de incêndios de 2021 deixou cerca de 2 milhões de hectares afetados por florestas e outras formas de plantas na região do Pantanal, a maior área úmida do mundo. As atividades antrópicas (realizadas pelo ser humano, como a conversão do solo em pastagem, caça, desmatamento) levaram a fortes secas e as altas temperaturas registradas são algumas das causas que elevam a ocorrência de incêndios no Pantanal, bioma compartilhado pelo Brasil, Bolívia e Paraguai.
O fogo, nas dimensões e frequências que têm sido vistos nos últimos anos, causam um grande desequilíbrio na biodiversidade pantaneira. Esta é uma perda alarmante. Milhares de animais são mortos ou feridos pelo contato direto com a fumaça e as chamas, ou sofrem destruição generalizada de seu habitat, aumentando a falta de água e comida. Segundo levantamentos realizados por pesquisadores da região, o bioma possui 2.000 tipos de plantas e abriga diversas espécies de aves (582), mamíferos (132), répteis (113) e anfíbios (41).
As pessoas também estão em risco, especialmente os povos indígenas e as comunidades locais. A destruição de florestas e pastagens, a contaminação das fontes de água e a diminuição do acesso a alimentos devido aos incêndios colocam em risco seus meios de subsistência. A essas fatalidades ainda são adicionadas doenças respiratórias e estomacais devido à poluição da água e há a necessidade de retirada de famílias para áreas mais seguras.
“Os incêndios registrados nos últimos anos, somados aos impactos cada vez mais visíveis das mudanças climáticas, têm nos mostrado a importância de tomar ações oportunas não apenas para parar suas consequências, mas também para preveni-las e gerar capacidades diante dessa emergência, que está colocando a natureza e as pessoas em risco”, disse Roberto Troya, diretor regional para América Latina e Caribe do WWF.
As causas que originam incêndios estão associadas a diferentes fatores, entre eles, um modelo econômico que transforma áreas naturais, reduzindo sua capacidade de resistir ao fogo e utiliza, em muitos casos, a queima intencional de resíduos que permanecem do desmatamento para limpar espaços para culturas ou pastagens. Isso, por sua vez, tem sua origem em políticas públicas inadequadas ou mal implementadas, a falta de conhecimento e acesso à tecnologia para o manejo de incêndios, a ausência de ações preventivas antes da temporada de queimadas e fatores climáticos exacerbados pelas mudanças climáticas.
A isso se somam incêndios transfronteiriços originários do Brasil, Bolívia ou Paraguai, que passam facilmente de um país para outro, demonstrando que essa emergência não tem fronteiras e é um desafio trinacional.
A perda da biodiversidade é uma das consequências dos incêndios e das mudanças climáticas no Pantanal – Foto: Juliana Arini / WWF-Brasil
Diante desse problema, o WWF insta os governos da região a avançar em direção a um modelo produtivo com menor impacto ambiental, bem como a gerar e aplicar políticas que reduzam as taxas de desmatamento, implementem mecanismos eficientes de controle e busquem a resiliência das comunidades às mudanças climáticas. Também pede o fortalecimento do gerenciamento de riscos em áreas protegidas, incorporando sistemas de resposta a desastres, proibindo a transformação definitiva das áreas afetadas pelos incêndios e iniciando a restauração das áreas impactadas imediatamente.
“É importante que os países encontrem espaços de diálogo para coordenar ações transfronteiriças em paisagens compartilhadas, como o Pantanal, onde o fogo não tem fronteiras e requer atenção conjunta. Os países devem garantir a proteção e a atenção às necessidades das comunidades indígenas afetadas pelos incêndios, que estão em áreas de risco e motivar a criação e o fortalecimento de parcerias público-privadas que permitam aumentar os esforços de prevenção, resposta e recuperação de desastres”, afirma Jordi Surkin, coordenador do gabinete de Conservação do WWF para América Latina.
“Na atual conjuntura, em que os países planejam modelos de reativação econômica, temos a oportunidade de considerar uma transição verde e justa, com maior investimento em modelos de desenvolvimento sustentáveis e resilientes”, acrescentou.
Brasil reduz número de áreas afetadas após recorde em 2020
Embora os incêndios tenham sido de grande magnitude, o Pantanal brasileiro registrou queda em relação a 2020, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). De janeiro a setembro de 2021, 9,08% (1,3 milhão de hectares) da região foram queimados, enquanto em 2020 o número ultrapassou 3,2 milhões de hectares, o equivalente a 22% – o recorde.
No entanto, o mês de setembro deste ano atingiu um pico de queimadas no bioma, superando em 161% a área queimada em agosto (835,4 mil hectares registrados em setembro deste ano contra 319,6 mil em agosto de 2021).
Na Bolívia, áreas protegidas mais afetadas estão no Pantanal
A Bolívia registra este ano mais de 3,4 milhões de hectares afetados pelos incêndios. A Área Natural de Gestão Integrada de San Matías, que abriga o paraba azul e a segunda maior área do país, registrou mais de 900 mil hectares queimados pelo fogo. Nesta área protegida, localizada no Departamento de Santa Cruz, na fronteira com o Brasil, foram registrados incêndios por mais de três meses. Por outro lado, no Parque Nacional de Otuquis e Área Natural de Gestão Integrada, que faza fronteira com o Brasil e o Paraguai e onde 120 mil hectares foram afetados, o fogo se move de um país para outro, sem reconhecer fronteiras.
Paraguai dobra o número de focos de incêndio
Áreas de alto valor de conservação, paisagens produtivas e áreas povoadas foram afetadas pelo fogo principalmente devido às ondas de calor e ao contingenciamento climático, hidrológico e agrícola. Somente em julho, as fontes de calor registradas neste mês dobraram, em comparação com a média dos últimos 10 anos anteriores.
O Departamento do Alto Paraguai na Reserva da Biosfera do Chaco e a área de influência da Área Selvagem Protegida de Cerro Chovoreca foram os mais impactados pelos incêndios, causados por incêndios transfronteiriços, como os que entraram na região de Santa Cruz, na Bolívia. Também foram registrados focos de calor na Área de Reserva do Parque Nacional do Rio Negro, próximo à Bahia Negra. Na região leste, a Reserva para o Parque San Rafael, no Departamento de Itapúa, também conhecido como Tekoha Guasu do Povo Mbyá Guarani, e a Reserva Guyra Retã da Guiana Paraguai, foram o centro de um incêndio florestal de grande magnitude.