Chapada das Mesas, Cerrado – Foto: André Dib
POR – REDAÇÃO NEO MONDO
Um deles prevê a criação de uma plataforma para monitorar as iniciativas de restauração nesse bioma, que perdeu vegetação nativa em 11 de seus 13 estados na última década
Cada vez que a torneira seca na região Sudeste, que concentra aproximadamente 42% da população nacional, os olhos se voltam para a Amazônia e o Cerrado – biomas que concentram a maior quantidade das águas do país.
O Brasil tem pouco mais de 10% da reserva de água doce do mundo, mas a divisão pelo território nacional é extremamente desigual. O Sudeste, por exemplo, detém 6%, enquanto 70% estão na Amazônia, segundo dados da Agência Nacional de Águas (ANA).
O Cerrado, por sua vez, funciona como uma enorme caixa d’água, que irriga importantes bacias hidrográficas, dada sua alta concentração de águas, com nascentes, rios e reservas subterrâneas. Por essa razão, tem importância fundamental. Em algumas regiões desse bioma está ainda a maior parte da produção do agronegócio brasileiro e, infelizmente, também alguns dos tristes recordes de desmatamento.
Enquanto o país observa atônito dados como os do MapBiomas, que constatou a perda de quase 6 milhões de hectares de vegetação nativa entre 2010 e 2020, sendo que de 13 estados que integram o Cerrado 11 deles tiveram a destruição mais significativa, o movimento multissetorial Araticum (Articulação para a Restauração do Cerrado), que visa recuperar em larga escala o bioma, tem trabalhado para mapear as iniciativas de restauração em curso no Cerrado, tornando-as visíveis para todos.
A Araticum, que olha com atenção para as áreas de savanas e campos desse bioma, visando a sua restauração ecológica, tem atuado para fortalecer as organizações locais que precisam de apoio técnico e incentivado metodologias mais eficazes para a restauração do Cerrado. No momento, desenvolve uma plataforma de monitoramento que será um espaço digital de divulgação dos projetos de restauração do bioma, apresentando sua localização na paisagem e acompanhando a efetividade do restauro.
A ideia é que a plataforma de monitoramento entre em funcionamento até o fim deste ano. Na etapa de desenvolvimento atual, está sendo feita a busca ativa para identificar os atores que fazem restauração e alimentar o sistema com essas informações georreferenciadas.
Desenvolvida pelo Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig), da Universidade Federal de Goiás, a plataforma estará conectada ao sistema nacional de monitoramento e restauração, que é o Observatório da Restauração e Reflorestamento, liderado pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.
Soja – Foto: Pixabay
Essa iniciativa do Grupo de Trabalho de Inteligência Territorial da Araticum, que conta com o WWF-Brasil, Lapig, o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IIEB), o Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), entre outros atores, vai fornecer dados específicos sobre a restauração do Cerrado que, inegavelmente, é um bioma estratégico nas perspectivas hídrica e econômica, por se tratar de um ponto focal do agronegócio, da água e dos alimentos no Brasil.
Segundo Thiago Belote, especialista em restauração do WWF-Brasil, a Araticum é um movimento multissetorial que tem a ambição de dar escala e visibilidade aos projetos de restauração no bioma. “A plataforma será muito importante porque vai dar transparência ao que já está sendo feito no Cerrado em termos de restauração”, explica.
Além disso, será uma importante ferramenta para induzir a criação de políticas públicas e arranjos institucionais para estimular mais projetos. Outras plataformas, seguindo o mesmo modelo, estão sendo criadas também na Mata Atlântica, Amazônia e, em breve, em outros biomas do país.
Para pensar modelos de regeneração das funções ecológicas com geração de renda no campo, segurança alimentar e nutricional especialmente para o Cerrado, a Araticum também faz parte da iniciativa Sistemas Agrocerratenses, conhecida como SACIs, que também é realizada pela Rede de Pesquisa e Extensão do Cerrado da RIDE DF (Rede PequisAção) e Ação RIDE SAN DF+. O objetivo é trabalhar arranjos para restauração dos ecossistemas degradados em que otimizam o uso da terra, alinhando a produção de alimentos com a preservação do meio ambiente.
“Essas articulações promovem visibilidade e conhecimentos sobre restauração para o bioma e a sua implementação em unidades demonstrativas neste momento e poderá, no futuro, ganhar escala”, comenta o Analista de Conservação do WWF-Brasil e membro das três redes da iniciativa SACIs, Vinícius Barbosa Pereira.
Mais projetos – O segundo projeto em curso nesse bioma é o Ceres (Cerrado Resiliente). Além de levar apoio técnico, atua junto às comunidades e aos pequenos proprietários rurais, divulgando técnicas de recuperação desse bioma que, posteriormente, possam ser replicadas em outras regiões. Um dos focos do projeto é a valorização das cadeias produtivas e sustentáveis da região.
Por último, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) desenvolveu uma campanha de financiamento coletivo para alertar sobre a urgência de socorrer o Cerrado. São cinco metas de arrecadação e quem apoiar pode receber recompensas, como ecobags, acessórios etc. Lançada no Dia Nacional do Cerrado, em 11 de setembro, a campanha Salve uma Nascente está na plataforma Benfeitoria. A primeira meta foi completada.
Segundo levantamento feito pela CPT, a cada ano dez pequenos rios morrem no bioma. A ideia então é recuperar cinco nascentes que, em risco de desaparecer, estão localizadas em comunidades no Maranhão, Piauí, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Segundo Carolina Siqueira, Coordenadora de Conservação do WWF-Brasil, as iniciativas são extremamente importantes porque fazem um trabalho de conscientização das comunidades locais e também alertam o Brasil e o mundo para o que silenciosamente tem acontecido no Cerrado: a degradação causada pelo uso intensivo do solo e o comprometimento das bacias hidrográficas, quando não se considera a importância de promover uma produção sustentável e ecologicamente correta.