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ARTIGO
POR – MÁRCIO JAPPE*, PARA NEO MONDO
Afirmar que prosperidade é algo desejável para qualquer sociedade soa como obviedade. Ainda assim, há muitas diferenças no entendimento do que significa prosperidade, como medi-la e quais podem ser os meios para alcançá-la. E por estas razões, afirmar que a inovação é uma ferramenta para a promoção da prosperidade já não soa tão óbvio assim.
Tende-se a conectar a palavra prosperidade unicamente à riqueza material, mais facilmente mensurável em valor monetário. No entanto, décadas de trabalho de pessoas tais como Clayton Christensen e Amartya Sen, entre outros, têm ajudado a entendê-la de forma mais ampla, adicionando à riqueza material aspectos imateriais, aproximando a prosperidade da ideia de bem-estar. Mensurar este conceito ampliado é muito mais desafiador, mas sua busca passa a fazer muito mais sentido.
Mas como a inovação ajuda a promover a prosperidade? Antes de fazer a conexão explícita, é necessário trazer luz ao próprio conceito de inovação. Muitas vezes confundida com produzir ou aplicar tecnologia ou, mais especificamente, tecnologia da informação, pode-se sintetizar inovar como o ato de resolver problemas reais e relevantes, com soluções de mercado, em contextos com altos níveis de incerteza.
Que se pontue aqui que múltiplos problemas reais e relevantes são resolvidos por iniciativas e organizações não inovadoras, o que segue sendo importante e não diminui a importância da inovação.
Entendido o conceito, sintético e ainda assim amplo, de inovação torna-se necessário olhar para qual é a inovação que pode contribuir de forma mais significativa para a prosperidade. E sempre será aquela que mira na solução dos problemas mais relevantes, que geram valor compartilhado, que valorizam a vida e que são geradoras de mercado, ou seja, que são capazes de promover o surgimento de cadeias complexas de outros negócios e soluções ao seu redor. Riqueza material e imaterial acabam se tornando consequências naturais do processo deste tipo de inovação, tal como detalhado por Clayton Christensen, Efosa Ojomo e Karen Dillon em seu livro “O Paradoxo da Prosperidade”.
Incentivar a inovação significa, ao mesmo tempo, dar mais liberdade para que pessoas inovadoras possam fazê-lo, desenvolver mais competências para que organizações consolidadas possam fazê-lo e gerar valor compartilhado e, não menos importante, realizar intervenções amplas para que ecossistemas de inovação mais prósperos possam existir, o que envolverá atores que não necessariamente precisam inovar. Amartya Sen, Nobel de Economia, trabalhou por décadas os conceitos de desenvolvimento e justiça, os entrelaçando fortemente à liberdade. Por meio de sua obra é possível entender que liberdade é ao mesmo tempo meio e fim de um processo de desenvolvimento, e que só pode se designar alguém como livre para fazer algo se esta pessoa tiver acesso aos recursos necessários, possuir a capabilidade (competências e não impedimentos), exercitar a funcionalidade (fazê-lo) e houver uma utilidade (há valor e razões para se valorizar). No caso de andar de bicicleta, o recurso é a bicicleta, a capabilidade é saber andar de bicicleta e não haver nenhum impedimento de fazê-lo no trajeto desejado, a funcionalidade é efetivamente andar de bicicleta e a utilidade é ter um lugar para ir ou ter prazer em fazê-lo ou qualquer outro motivo relevante.
Dá para derivar o que se quer dizer ao dar mais liberdade às pessoas que inovam: acesso a recursos (dinheiro, tecnologia, infraestrutura) para inovar, competências para saber fazê-lo e poucos impedimentos, mais inovações acontecendo e mais propósito e valor compartilhado como resultado das inovações realizadas. Em organizações, além das liberdades individuais para inovar dentro dela, é importante construir uma visão compartilhada e processos estruturados para sustentar a inovação ao longo do tempo.
Ecossistemas de inovação mais prósperos envolvem liberdades individuais para inovar, envolvem organizações inovando e gerando valor compartilhado, além de envolver outros atores com papéis importantes, tais como governos, legisladores, instituições de ensino, financiadores e assim por diante. Aqui a densidade das interações é muito importante, pois de nada adianta a ação desconexa e solitária de cada ator.
Tudo isto posto, agora sim soa óbvio que é possível (e necessário) se promover prosperidade por meio da inovação, onde pessoas tem liberdade para inovar, organizações inovam e geram valor compartilhado, e múltiplos atores contribuem com o processo, gerando um ecossistema de inovação denso e efetivamente próspero.
*Márcio Jappe é Sócio-fundador da Semente Negócios, mestre em Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade pela UFRGS.