Imagem – Pixabay
POR – ROSANE SERRO, PARA ALTER CONTEÚDO
Ontem, em entrevista ao jornal O Globo acerca da incompetência das autoridades para encontrar o paradeiro do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, o escritor e líder indígena Ailton Krenak dissertou a respeito da virulência e da parcialidade da opinião pública atual: “Precisamos não cultivar a mentira e não nos associarmos a versões fajutas da realidade. Estamos globalmente ficando burros.” Poderíamos passar a semana discutindo as causas e os métodos deste fenômeno, mas prefiro me deter aos resultados dessa tendência no universo ESG.
Semana passada, a consultoria OnStrategy divulgou a lista de empresas cujos compromissos sociais, ambientais e de governança são melhor percebidos pelos portugueses: Delta Cafés, IKEA e Nestlé, nesta ordem. Já no Brasil, o Índice GPS – Global Positioning On Sustainability aplicou, em dezembro de 2021, o mesmo tipo de pesquisa com os consumidores brasileiros e as empresas Natura, Ypê, Nestlé, Ambev e Itaú lideraram o ranking. Tal credibilidade, porém, não resiste a uma pesquisa ligeira.
A IKEA tem um rastro de denúncias de compra de madeira oriunda de extração ilegal na Ucrânia e na Romênia, onde uma máfia ligada às madeireiras atenta contra quem ousa investigá-los. Além de acumular acusações de precarização e demissão em massa em alguns países, fabricação de móveis inseguros que causaram a morte de vários bebês nos EUA e na Europa e de uso de mão de obra infantil na sua linha de fornecedores.
A Nestlé, tão cotada pelos consumidores, há quatro dias, foi notificada pelo governo brasileiro por propaganda enganosa: seu biscoito de aveia com mel… não contém mel. Há dois anos, uma investigação descobriu que o café utilizado pela empresa para a fabricação do Nespresso era oriundo de fazendas na Guatemala que utilizavam trabalho escravo infantil. O exemplo se repete na África Ocidental, onde usam crianças no cultivo do cacau para seus chocolates.
A empresa também é uma das três maiores produtoras de lixo plástico no mundo, de acordo com o Greenpeace (as outras são a Coca-Cola e a PepsiCo) e, no Brasil, compra óleo de palma oriundo de grilagem, violência contra quilombolas e indígenas e de trabalho infantil, no estado do Pará. E não podemos esquecer o seu lobby pela privatização dos rios e mananciais no Brasil e o conflito com os moradores do Sul de Minas Gerais que incriminam a Nestlé pela superexploração das águas subterrâneas, o que já comprometeu os poços minerais, atividade econômica da região há mais de um século.
A Natura tem, por sua vez, há três anos, um pedido de condenação feito pelo Ministério Público do Pará por dano ambiental provocado no município de Benevides. Segundo o MP, a Natura possuía uma planta industrial na cidade e teria utilizado os recursos hídricos da região de forma irregular. A empresa negou, mas o MP lembrou que ela já havia sido notificada e multada pelo mesmo motivo, em 2017. Entretanto, desde o início dos anos 2000, a Natura era investigada pelo MP do Pará, a OAB e o Ministério Público Federal. Desta vez, por biopirataria e uso indevido de conhecimentos tradicionais locais.
Já a Ambev foi processada pelo Ministério Público do Trabalho de Alagoas (MPT) em R$ 1 milhão pela prática de assédio moral na unidade de Maceió. Segundo o MPT, funcionários da empresa denunciaram, em audiência, que estavam sendo subordinados de forma grosseira e que eram cobrados com rigor excessivo, o que acarretou transtornos psicológicos entre eles. Ainda de acordo com a denúncia, o tratamento humilhante era feito na presença dos demais empregados, em reuniões realizadas diariamente. A Ambev também foi autuada, em 2021, após 23 imigrantes venezuelanos terem sido encontrados em condições análogas à escravidão em uma transportadora por ela terceirizada.
Se essas empresas, com posturas tão condenáveis criam uma percepção tão positiva em seus consumidores é porque, além dos milhões gastos em uma eficiente estratégia de marketing, eles estão consumindo a versão fajuta da realidade, como apontou Krenak. Neste caso, só há um remédio para encerrar tal ensaio sobre a cegueira: praticar a cidadania. Não ser conivente. Consumir de forma consciente e responsável. Ou seja, de mãos limpas.
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