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ARTIGO
Por – Melina Amoni, Gerente de Risco Climático e Adaptação na WayCarbon, especial para Neo Mondo
O Brasil está acostumado com uma cultura de resposta. Ela deve se transformar em uma cultura de preparo
No futuro, o Carnaval brasileiro de 2023 não será lembrado pelos desfiles ou bloquinhos, mas por uma tragédia sem precedentes. Em apenas 15 horas, a cidade de São Sebastião, no Litoral Norte de São Paulo, recebeu mais de 600 mm de chuvas. Como efeito de comparação, é mais do que o volume registrado nos meses de janeiro e fevereiro de 2022 somados. Foram mais de 40 mortes. Encostas desabaram, bairros inteiros foram soterrados pela lama que descia dos morros e a rodovia Rio-Santos, principal ligação da região com o restante do Estado, teve trechos totalmente destruídos. Mais de 30 dias depois do desastre, muitas pessoas ainda estão desabrigadas e o trabalho de retirada dos detritos continua. Além das mortes, o prejuízo material é incalculável. Além dos problemas em São Sebastião, vimos a região metropolitana de São Paulo enfrentar enchentes quase diariamente no mês de Março.
Os cientistas utilizam modelos numéricos que simulam o comportamento futuro da atmosfera a partir de um conjunto de variáveis aplicadas a equações matemáticas e físicas para realizar as previsões de tempo e clima. Tais modelos já indicavam chuva de valores extremamente altos para a região do litoral norte paulista naquele período. No entanto, nenhuma cidade brasileira, com os padrões de planejamento urbano como os que temos aqui, está preparada para um alto volume de chuva como o que aconteceu.
A cada verão, vemos no Brasil alguma (ou algumas) regiões sofrendo estragos causados pelas chuvas extremas – embora ainda não tivéssemos visto o que aconteceu em São Sebastião no Carnaval. E na estação sem chuvas, as secas aumentam, causando prejuízos nas safras e matando animais. A temperatura global se elevou em 1,2 grau Celsius, e estamos próximos ao limite de aumento de 1,5 grau Celsius estabelecido pelo Acordo de Paris em 2015. O que isso quer dizer? Que eventos como os de São Sebastião não são mais casos extremos. Ao contrário, eles passaram a ser normais. E as sociedades devem se preparar para lidar com eles.
Esse é exatamente um dos grandes problemas no Brasil no que toca a questões de resiliência climática. Não temos uma cultura de preparo, mas de resposta. A cada ano, com a chegada da temporada seca, parecemos nos esquecer das tragédias causadas pelas chuvas no verão. E na próxima temporada chuvosa, temos novamente tragédias. O mesmo acontece com a seca dos meses de outono e inverno, que é esquecida com a chegada das chuvas. É a “Síndrome do Céu Azul”.
Solução ou enfrentamento?
É possível passar ileso pelos efeitos de uma chuva de 600 mm de volume em 15 horas? Talvez não. Mas com toda a certeza, podemos evitar as mortes e a maior parte dos danos materiais. Para isso, no entanto, precisamos de uma nova perspectiva de planejamento urbano, que envolva estudos técnicos para a formulação de políticas públicas.
Vamos analisar o desastre de São Sebastião. Seria muito difícil não haver nenhum tipo de dano, mas as consequências seriam reduzidas se não houvesse ocupação de encostas. É uma combinação de moradias precárias, de um tipo de solo sem fixação e do volume extremo de chuva. Tratava-se de uma tragédia anunciada, uma vez que as autoridades haviam sido avisadas pelo Ministério Público que essas áreas não poderiam ser ocupadas. Ou ainda, se houvesse uma simples e velha conhecida medida de redução de riscos: uma sirene de alerta aos moradores, os quais devem passar por um processo de treinamento e capacitação, para que sejam instruídos sobre o que fazer em casos de alerta.
A saída é considerar o planejamento ambiental como política estratégica e que deve ser integrada ao planejamento urbano. Nos planos climáticos que desenvolvemos para municípios, por exemplo, fazemos projeções para 10, 20, 30 ou 40 anos, tentando entender os principais riscos que causam vulnerabilidade naquela determinada região. Com esses dados, somados às projeções sobre o cenários de aquecimento, fazemos recomendações para o aumento da resiliência climática naquela cidade. Elas podem envolver ações a serem tomadas para impedir deslizamentos de encostas, inundações, proteção contra o aumento do nível médio do mar e contra a disseminação de doenças, entre outras. A combinação dessas estratégias leva à diminuição da vulnerabilidade do município alvo do plano. É uma mudança de paradigma da “cultura da resposta” para a “cultura do preparo”.
Para que o plano funcione, o engajamento da população é fundamental. Todos, da criança em idade escolar ao líder comunitário, devem discutir as propostas do plano. Desse modo, essa população passa a ser sensibilizada sobre a importância de ações como o descarte correto do lixo e a preservação de áreas de encosta. Nossos planos de ação climáticas abordam como essa discussão é trazida para o dia a dia das pessoas. Mesmo que um evento extremo não aconteça de imediato, a implantação das medidas de adaptação climática gera ganhos, uma vez que ajuda a reduzir a vulnerabilidade social da população. Todos saem ganhando. Por que, por exemplo, a cidade de Miami não sofre os mesmos efeitos de um furacão, em comparação a ilhas próximas no Caribe? Porque ela conta com políticas sólidas. É a “cultura do preparo”. E esta deve ser a orientação que deve começar a ser seguida pelas autoridades e sociedade brasileiras. Ou continuaremos a ter tragédias como a do último Carnaval a cada estação chuvosa.