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A economia circular ganha força, globalmente, trazendo modelos de negócios que evitam a extração de recursos naturais e diminuem o descarte de insumos, resultando em benefícios ambientais e socioeconômicos ao mercado. Mais do que uma forte tendência, essa hoje é uma necessidade para assegurar um futuro realmente sustentável não só para essa, mas também para as próximas gerações.
É por essa razão que o modelo linear (no qual tudo tem começo, meio e fim) já está com os dias contados. O conceito circular – que já não é mais tão novo – traz a ideia de que a produção em qualquer setor pode ser planejada de formas diferentes para alcançar contribuições significativas e ações realmente sustentáveis.
Dados da pesquisa mais recente realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelam que 76% das empresas já desenvolvem iniciativas voltadas para a economia circular no país. Além disto, o estudo mostra também que 88% dos empresários consideram as práticas de extrema importância para a indústria brasileira. Entre as principais iniciativas são citadas ações como a reciclagem de materiais, reuso de água, e logística reversa, por exemplo.
Mesmo que essa já seja uma realidade conhecida, uma outra pesquisa (The Global Circularity Gap) alerta para a diminuição do aproveitamento de recursos nos últimos anos. De 2018 até 2022, houve uma queda de 9% para 7,2% da circularidade em todo o mundo.
Atentas a essa mudança, grandes empresas brasileiras de inúmeros setores passaram a adotar práticas circulares, a fim de contribuir para um desenvolvimento sustentável. Confira alguns cases de sucesso em setores como a indústria de equipamentos médicos, a mineração, a indústria química e a cultura, além de instituições sociais.
SIEMENS HEALTHINEERS (INDÚSTRIA MÉDICA)
Estudos apontam que o modelo de negócios circulares na indústria de dispositivos médicos é um caminho viável para garantir um setor mais sustentável. A Siemens Healthineers, empresa líder em tecnologia médica, tem seu comprometimento com um conjunto de iniciativas que seguem os objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Por isso, a companhia tem implantado em território brasileiro a linha de sustentáveis ecoline. Nessa nova modalidade estão os equipamentos utilizados na área de Hemodinâmica, que podem diagnosticar e ajudar no tratamento de doenças cardíacas, endovasculares e neurológicas por meio de procedimentos minimamente invasivos.
Em vez do descarte, esses equipamentos passam por uma criteriosa revisão, com substituição e atualização dos componentes. A transformação acontece diretamente na Alemanha: o equipamento é enviado para a Europa e entra novamente na linha de produção, sendo totalmente renovado. Depois do processo fabril, volta a operar com a mesma qualidade, eficiência e durabilidade de antes.
Desta forma, a linha ecoline é submetida a um processo de qualidade em cinco etapas, sendo certificados, individualmente, de acordo com o padrão necessário para dispositivos médicos, segundo a ISO 134851 e a IEC PAS 63077, sendo eles: a seleção de sistemas e componentes utilizados para garantir a entrega de um equipamento ecoline com perfeição; a desinstalação profissional com segurança, antes que os equipamentos sejam enviados à fábrica da Siemens Healthineers na Alemanha; o refurbishment (processo de reforma), passo no qual todos os componentes passam por limpeza, verificação, substituição de peças desgastadas, atualização de softwares, configuração individual (alinhada com as necessidades dos clientes) e checagem de segurança; e, por fim, a instalação, que garante o rendimento do equipamento, quando comparado com os novos.
Além de evitar o descarte desnecessário de aparelhos médicos, há também uma contribuição para um ecossistema da saúde de forma sustentável: a linha ecoline representa uma economia de mais de 30% para os hospitais. Os equipamentos sustentáveis têm autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para serem comercializados no Brasil por meio da RDC 579/2021, que aprova a importação, comercialização e doação de dispositivos médicos recondicionados. Nos Estados Unidos e na Europa, eles integram um cenário em ascensão.
NEXA (INDÚSTRIA DE MINERAÇÃO)
A Nexa Resources, empresa global de mineração e metalurgia, que teve origem na fundação da Companhia Mineira de Metais (CMM) em 1956, cresceu e se reinventou, consolidando-se como uma das principais produtoras de zinco do mundo. Atualmente, a empresa conta com 74% de participação de energias renováveis na matriz energética. A intensidade de emissões no ano de 2022 foi de 0,36 por tonelada de zinco e óxido de zinco vendida.
A fim de colaborar com o meio ambiente, promovendo formas mais sustentáveis de mineração, a empresa apostou na inovação com algumas iniciativas, sendo elas:
- Unidade Recicladora de Pilhas – Iniciamos a operação em 2013, que nos colocou na posição de maior recicladora de pilhas do Brasil. Com a reciclagem, reaproveitamos o zinco a partir de pilhas, pó de aciaria elétrica e outras matérias primas ricas em zinco nas nossas operações. Em 2022 foram recicladas 154 toneladas de pilhas e baterias, equivalendo a 30 toneladas de zinco.
- Pó Calcário Agrícola – Transformamos todos os rejeitos gerados na operação de Morro Agudo em produto secundário, que dá origem ao Zincal 200, usado na agricultura para reduzir a acidez do solo e aumentar a produtividade. Em 2022, ultrapassamos a marca de 1 milhão de toneladas de calcário vendido.
- Vazantes Mineiras – O Vazantes Mineiras é pioneiro no setor mineral do Brasil. Trata-se de um projeto que nasce para ir além do plano tradicional de descomissionamento previsto pela Nexa, seguindo todas as diretrizes legais previstas pelos órgãos ambientais. Desta forma, o Vazantes Mineiras surge como um projeto conectado e alinhado aos compromissos ESG (ambiental, social e de governança) da Nexa, visando integrar questões ambientais, sociais e econômicas, além de conservar e ampliar o patrimônio natural, cultural e histórico para integração de roteiros turísticos. São 3 mil hectares de áreas rurais, dentro da propriedade da Nexa, onde será aplicado o conceito de usos múltiplos da terra, ou seja, dar diversas finalidades para áreas que anteriormente estavam sem uso.
BASF (INDÚSTRIA QUÍMICA E AGRONEGÓCIO)
Os produtos da BASF, indústria química que também tem foco no agronegócio,estão envolvidos em inúmeras formas de tecnologia para proteção climática, que permitem eficiência energética e proteção do clima em diversos setores, como construção e moradia, mobilidade, energia, saúde e agricultura. Para isso, a empresa busca envolver suas áreas de negócios e de serviços, além das fábricas, para assumir o compromisso de sustentabilidade em toda cadeia de valor, como: comprar com responsabilidade; produzir com segurança e eficiência para as pessoas e o meio ambiente; desenvolver soluções cada vez mais sustentáveis; respeitando os indivíduos.
Um ponto levado em consideração com as mudanças climáticas é a possibilidade de trabalhar os produtos pela lógica da economia circular. A empresa tem atuado em três áreas: matérias-primas circulares, novos ciclos de materiais e novos modelos de negócios. Como meta global, pretende vender 17 bilhões de euros até 2030 em soluções para a economia circular. Até 2025, deve processar 250 mil toneladas de matérias-primas circulares globalmente, apostando principalmente nas seguintes iniciativas:
Cosméticos
Um dos apelos do clean beauty é o uso de ingredientes naturais. Como esse tipo de matéria-prima é findável, acredito que a valorização dos resíduos pelo upcycling é o futuro dos ingredientes vegetais ativos. O upcycling é a utilização de resíduos que seriam descartados e entram na produção de ingredientes nobres. Com base nesse conceito de beleza circular, a BASF recentemente lançou o KerasyliumTM, alternativa à queratina animal baseada em plantas, feito a partir do resíduo da semente da planta Sylybum marianum da qual comumente se produz um óleo com atividadeantioxidante. Os cientistas da companhia estudaram este resíduo e produziram um ingrediente ativo rico em peptídeos e compostos fenólicos que é capaz de reparar os cabelos danificados por ter uma ação semelhante à queratina. Ele também protege a fibra capilar dos danos diários, podendo ser utilizado em linhas de detox que devolvem à saúde e beleza aos cabelos. E tudo isso a partir de um resíduo que até então seria descartado.
Embalagens
Blockchain – O universo das criptomoedas já pode contribuir para a economia circular de embalagens. Uma rede empresarial, liderada pela BASF, forma a plataforma colaborativa batizada de reciChainTM. Com base na tecnologia blockchain, a iniciativa já começa a emitir os primeiros tokens digitais vinculados ao investimento em uma nova planta de triagem de resíduos pós-consumo da Solví Essencis, na Grande São Paulo. Essa nova infraestrutura vai recuperar materiais recicláveis que seriam descartados e gerar o equivalente em tokens de logística reversa. Cada 1 token é um gêmeo digital de 1 tonelada de material processado e representa evidências auditadas para atender requisitos legais de logística reversa para as empresas. Além de implementar soluções de reciclagem de resíduos plásticos de forma rastreável e em ambiente seguro e transparente, a plataforma tem o propósito de incentivar projetos que tenham impacto social positivo, gerando inclusão e renda a trabalhadores.
Reciclagem – A BASF também apoia a circularidade dos plásticos de embalagens com um portfólio robusto, B-Cycle, que resolve desafios da reciclagem mecânica: desde a triagem, passando pela lavagem, até a extrusão e conversão. A separação dos tipos de plásticos é uma etapa que tem ficado cada vez mais complexa, por causa da variedade enorme de materiais utilizados. Com o uso da tecnologia trinamiX NIR, um dispositivo portátil de espectroscopia de infravermelho próximo, é possível identificar com precisão composição dos plásticos, o que tem efeito favorável na qualidade do reciclado, além de reduzir de forma importante materiais que iriam para o rejeito por não terem a identificação possível. A linha B-Cycle, inclui também produtos que promovem a limpeza adequada com ação antiodor e aditivos que evitam degradação e preservam as propriedades do material reciclado. Assim, ele pode voltar para a economia com qualidade, fechando a sua circularidade.
UNIBES (BAZAR, INSTITUIÇÃO SOCIAL E CULTURA)
No social, o engajamento não seria diferente. A Unibes (União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social), uma instituição que cuida de crianças, jovens, idosos e famílias e mantém o Unibes Bazar, com sete lojas físicas em São Paulo e um e-commerce para todo o Brasil, chega a receber mais de 1 milhão de doações por ano.
Por meio do Unibes Bazar, a instituição contribui com a diminuição do descarte incorreto na cidade e levanta fundos para o desenvolvimento de projetos sociais e de educação da instituição, oferecendo ainda uma solução para a questão do descarte impróprio de objetos. Tudo isso acontece com a prática do upcycling, técnica que propõe o reaproveitamento de materiais que normalmente não seriam aproveitados e reutilizados. A utilização dessa ferramenta tem sido cada vez mais recorrente devido à urgência de diminuir o consumo e minimizar impactos ambientais.
Outra diferença da Unibes é o seu programa de logística, que conta com 12 caminhões próprios que chegam a rodar mais de 140 mil km por ano e que fazem gratuitamente a retirada de doações em toda a cidade de São Paulo – elas podem ser agendadas por telefone ou whatsapp. A instituição não só recebe e distribui a doação, mas também realiza os processos necessários para que os objetos sejam entregues em bom estado.
Mais do que o compromisso com a causa social, o Unibes Bazar ainda promove a consciência ambiental ao permitir que peças ganhem uma vida extra: é o caminho certo para um mundo sustentável e solidário.