Imagem: Divulgação
ARTIGO
Os artigos e informes publicitários não representam necessariamente a posição de NEO MONDO e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo sem prévia autorização
Por – Camila Chabar, especial para Neo Mondo
O tema está literalmente quente! Especialmente nos últimos cinco anos, não é mais surpresa ouvirmos notícias de que batemos recordes de ano e mês mais quente da história. No nosso calor do dia a dia, estamos como cidadã(o)s vivenciando a mudança climática.
Leia também: Aquecimento global faz surgir primeira zona árida no Brasil
Leia também: Aquecimento global ameaça volume das geleiras do Himalaia
A velocidade com que a mudança do clima vem ocorrendo é claramente um desequilíbrio de um processo natural do planeta. Mais ainda, de acordo com o IPCC AR6, relatório que reúne cientistas do mundo todo e que traz fatos e previsões sobre o tema, as ações humanas, em especial a queima de combustíveis fósseis, é a principal causa.
Os países têm debatido como combater as alterações climáticas desde a década de 1970, mais fortemente a partir da década de 1990. Estas negociações produziram vários acordos importantes, incluindo o Protocolo de Quioto e o famoso Acordo de Paris, quando as ‘partes’ concordaram em limitar o aquecimento global em até máximo 2oC e empreender esforços para que esse aumento seja menor do que 1,5oC. Cientistas do IPCC consideram que, atualmente, a temperatura média da terra já aumentou1,1oC., e as consequências já são significativas.
Pelo Acordo de Paris, as partes ou nações apresentaram suas metas climáticas, as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (CND) – ou NDC em inglês. Empresas estão incluídas nos territórios desses países e são grandes emissoras de gases de efeito estufa (GEE). Portanto, também devem fazer parte do processo de descarbonização do planeta que são contabilizadas nas NDCs.
Essa participação de empresas no combate à mudança do clima não tem apenas relação com ser ambientalmente responsável, mas com custos e riscos. Ou seja, além de reduzir suas emissões de GEE, as empresas agora precisam se adaptar às consequências do clima que já estão presentes e que vêm afetando os negócios. Em suma, o custo com os impactos do clima é uma realidade atual no mundo corporativo e deve entrar na matriz de risco.
O Fórum Econômico Mundial estima que o custo global dos danos causados seja entre 1,7 e 3,1 trilhões de dólares por ano até 2050. Isto inclui danos em infraestruturas, propriedades, agricultura e também na saúde humana. Prevê-se ainda que este custo aumente ao longo do tempo, à medida que os impactos se tornam mais graves.
Considerando a urgência do assunto, desde a COP 26, a Conferência das Partes para o Clima, que foi realizada em 2021, vimos um aumento de empresas se comprometendo a serem ‘Net Zero’. Mas porquê? A lógica é a seguinte: segundo a ciência, sabemos que o aquecimento global acontece pelo aumento intensivo das emissões de gases de efeito estufa (GEE). Assim, para frear o evento, parece razoável diminuir ou mitigar essas emissões. Com este racional é que os movimentos Net Zero surgiram. Net Zero, no simplificado e de acordo com o Science Based Targets (SBTi), é diminuir até 90% de suas emissões de GEE e compensar as restantes. A conta final deve ser zero. Desta forma, a ação humana não mais emite e o planeta não aquece mais, evitando a piora do cenário atual e dando-nos tempo para nos adaptar aos impactos que não retornammais ao natural. Bonito na teoria, difícil na realidade.
A cada cinco anos, os países devem avaliar o seu progresso na implementação do Acordo de Paris por meio de um processo conhecido como balanço global ou global stocktake em inglês. O primeiro destes relatórios foi divulgado em setembro de 2023 e alertou que “o mundo não está no caminho certo para cumprir os objetivos de longo prazo do Acordo de Paris”. E não precisaria de cientistas nos contando isso, pois sentimos diariamente que algo não está OK com o clima. Em um cenário de emergência, governos ao redor do mundo iniciaram um reforço para que as empresas cumpram com seu papel na descarbonização por meio de regulamentações cada vez mais exigentes. O conhecido Green Deal europeu, que inclui a taxação de carbono para empresas que exportam para a Europa, ou mesmo o aumento de mercados regulados de carbono em países como China, Coreia e Colômbia, mostram que os países estão correndo atrás do prejuízo.
No Brasil, apesar de ainda estarmos no debate legislativo para um mercado regulado oficial, já temos normas que exigem que empresas reportem, monitorem e expliquem, ou seja, uma regulamentação proativa que quer de fato entender não só números, mas a gestão do tema. A Comissão de Valor imobiliários (CVM), o Banco Central (BACEN) e a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) já possuem normas obrigando suas instituições de influência a não só reportarem suas emissões e riscos climáticos, mas explicar seu planejamento climático e como está inserido na governança corporativa.
Entendendo, então, que o setor produtivo é parte do problema, mas que também sofre com os impactos. A mudança climática precisa estar na estratégia corporativa, seja para evitar maiores danos ao planeta, e em consequência ao próprio negócio, seja para gerenciar futuros riscos ou os já presentes. Contudo, esta de fato não é uma tarefa simples. É preciso compreensão e entendimento técnico para não afetar a reputação da empresa e nem cair na malha fina da ‘maquiagem verde’ ou em inglês, o greenwashing.
Como, então, considerar e incluir questões climáticas no processo de uma empresa? Capacitar equipe ou ainda ter um acompanhamento de especialistas é essencial para o efetivo gerenciamento do assunto. É preciso também ter algumas definições importantes como o objetivo principal da empresa: ser Net Zero? Responder a legislações? Responder a frameworks e reports para o mercado? Alinhar expectativas de investidores? Essa clareza é decisiva para os próximos passos. O diagnóstico climático apoia nessas decisões, trazendo em análises objetivas como a empresa está sendo afetada pelo clima, como poderá ser impactada no futuro e como ela pode suportara redução do aquecimento globalmente. Toda ação local, tem efeito global, já que o clima é planetário.
Mas nada disso é tão importante quanto ter o assunto como prioritário na mesa do C-level. A mudança do clima, como vimos, não é um assunto apenas de áreas de sustentabilidade. É um tema de gerenciamento de riscos, de compliance, de estratégia. Portanto, se a alta liderança não tem o assunto dentro de sua matriz de prioritários, muito dificilmente a empresa conseguirá lidar com o clima de forma eficiente e eficaz. E isso investidores farejam com facilidade.
Assim como o ESG, clima deve ser tratado de forma transversal e tática nos negócios, pelo bem da empresa, do planeta e da sociedade.
Camila Chabar é coordenadora do curso Estratégia Climática para Negócios da Trevisan Escola de Negócios, especialista em clima e apoia a descarbonização de governos e empresas há mais de 15 anos.