A jornalista Eleni Gritzapis e o convidado Mathieu Piccin gravando para o greenTalks – Imagem: Divulgação
Por – Eleni Gritzapis, especial para Neo Mondo
Como a tecnologia pode acelerar a transição para energias renováveis? Como a digitalização pode melhorar a eficiência na coleta de dados ambientais e, consequentemente, impulsionar práticas mais sustentáveis? Estas são algumas das dúvidas respondidas neste bate-papo descontraído com Mathieu Piccin, diretor do Sustainability Business da Schneider Electric para América Latina, um francês que está há mais de uma década no Brasil, com português fluente e um grande foco em aliar negócios com impacto sustentável.
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Mathieu é formado em Engenharia Aeroespacial, com especialização em tecnologias e geopolítica de energia, com 12 anos de experiência no mercado de energia.
O greenTaks é uma iniciativa pioneira entre a green4T e NEO MONDO para discutir o papel fundamental da tecnologia na promoção de um futuro mais sustentável.
Confira os principais trechos da entrevista e assista a íntegra abaixo:
Como a Schneider Electric enxerga o papel da tecnologia na promoção de um futuro sustentável, especialmente considerando as demandas e desafios da América Latina?
A Schneider Eletric hoje se posiciona como um Industrial Tech Leader (líder industrial tecnológico) e a nossa missão é resolver o desafio climático sem deixar de lado o progresso para todo mundo, uma transição para um mundo mais sustentável por meio de uma jornada inclusiva.
E, para isso, a tecnologia é fundamental, ela é a ferramenta que permite que todos os elementos da sustentabilidade, da descarbonização sejam vistos de maneira transparente pela sociedade; ela é um pilar-chave e o futuro sustentável não existiria com tanta gente no planeta sem tecnologia.
Uma das grandes preocupações para a sustentabilidade é a transição para energias renováveis. Como a tecnologia pode facilitar e acelerar essa transição, e quais são os principais obstáculos que vocês identificam nesse processo?
O Brasil é um país abençoado em termos de energia renovável. Felizmente, a matriz energética brasileira já é bastante limpa em relação a outros lugares do mundo. O País tem emissões per capita de duas toneladas por pessoa, um pouco mais, o que é muito inferior à maioria dos países, é um exemplo a ser seguido. A gente encontra energia hidrelétrica renovável, solar, eólica; também nos combustíveis de carros e transporte temos o etanol.
Hoje existem mais de 70 mil empresas e comércios de pequeno porte ou médio porte que, desde janeiro de 2024, têm acesso ao chamado mercado livre de energia varejista. Imagina uma padaria que comprava energia da sua concessionária do grid brasileiro, uma energia relativamente limpa em comparação a outros países, porém não totalmente renovável. Hoje, ela já tem o direito e a opção de escolher um fornecedor de energia limpa, renovável e, ao mesmo tempo, reduzir até 40% sua conta de energia. Desta forma, essa abertura regulatória, de repente, abriu um mercado e uma oportunidade para que todas as pequenas e médias empresas capturem essa oportunidade.
E se você pensa do ponto de vista de grandes empresas, que vinham trabalhando muito bem seus escopos 1 e 2 de emissões, elas precisavam desta nova abertura para trabalhar com seus fornecedores de pequeno e médio portes para que eles consumam energia renovável. Então esse é um exemplo de oportunidades que existem e permitem acelerar a transição para energias renováveis para cada vez mais consumidores.
Quando olhamos para a América Latina, quais seriam os principais obstáculos para a transição energética?
Existem diversos países na região que fazem uso intensivo do gás natural e do carvão e mudar isso requer uma política clara, requer investimento para que a energia renovável seja mais disseminada. O Brasil tomou essa decisão muito tempo atrás, o que liberou know-how e investimentos.
A Argentina, em 2016, liberou um novo programa de incentivo do governo e a taxa de energia renovável passou de 0% a 15% em seis anos. Então, vemos como algumas decisões nos outros países podem acelerar e fazer que eles alcancem ou reduzam o gap com o Brasil.
A digitalização tem se mostrado uma ferramenta crucial para a coleta e análise de dados ambientais. Como a Schneider Electric está utilizando tecnologia para melhorar a eficiência na coleta desses dados e, consequentemente, impulsionar práticas mais sustentáveis?
Primeiro, a energia não consumida é a mais limpa. Quando falamos de transição energética, acho que o mais razoável é considerar que antes de investir em energia renovável, o importante é reduzir o consumo e aumentar o que chamamos de eficiência energética de todos os consumidores.
Enxergamos uma preocupação universal por digitalizar as operações para melhor conhecer como está o consumo energético e tomar melhores decisões e investir em eficiência energética. Um exemplo disso é a rede de hospital Rede D’or, por exemplo, que utiliza um sistema de informação de sustentabilidade da Schneider Electric, que, por meio da coleta e análise de diversos dados, permite aumentar a eficiência energética de seus ativos.
Um outro exemplo é uma rede bancária muito importante do País, que, tendo toda a sua informação de energia hospedada em um único lugar, é capaz de muito rapidamente entender, com alguns cliques, onde investir em energia renovável para maximizar o retorno do investimento e chegar a 100% de energia renovável no seu mix energético.
A informação é chave para tomar decisões e para reportar o progresso para a sociedade, que está cobrando esse tipo de informação e de transparência.
Quais são as lições aprendidas nesse processo de eficiência energética e transição renovável?
Aprendemos muito todo dia. Eu diria que no centro, no cerne de tudo isso, tem o ser humano. Acho que tecnologia já existe em abundância, mas a capacidade do ser humano de financiar, organizar, escalar tudo isso é um limitante. Ou podemos ver do outro lado, que também é o fator acelerador.
Então, gosto de dizer que acho que o aprendizado é o do ser humano em encarar um desafio secular e se organizar, fomentar ações e mudanças. E isso se vê nas empresas, nas instituições de governo, nas instituições públicas.
O maior aprendizado é o ser humano traçar uma mudança tão grande que todo o sistema energético sobre o qual a nossa sociedade está mude rapidamente. Estar aberto para a mudança, para experimentar o novo é a grande lição e desafio.
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