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ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Ver o mundo sempre foi um desafio, porque estamos no mundo, mas não somos o mundo. Ele está fora de nós. Por isso usamos nossos sentidos, nossa razão, nossa imaginação e, depois disso tudo, a linguagem, para dar forma e significado para ele. É um esforço tremendo e sempre incompleto. O que resta desse esforço, o intraduzível, como diz Lacan, é o Real, o que fica sem nome e é o motivo de nossa angústia, daquilo que aperta o peito “sem motivo”. É o mundo.
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Apesar dessas imensas dificuldades, vamos construindo nossa existência comum em torno da ideia de que algumas coisas podem ser compartilhadas e reconhecidas. A elas damos o nome de “verdade”. A verdade é, portanto, mais uma crença do que propriamente um fato. Mas uma crença compartilhada por tanto tempo vai se naturalizando e, tacitamente , vamos concordando com ela até nem pensar mais nisso. É verdade porque aceitamos que seja assim. E pronto.
Esse arranjo social tem funcionado ao longo dos tempos. Lógico, é preciso reiterar, que não é um funcionamento perfeito, mas como não há nada perfeito no mundo, então tá tudo certo. O importante é que , para efeito geral, aceite-se a verdade como a referência a ser seguida e a mentira como aquilo que deve ser evitado. A primeira mantém o grupo coeso, agregado. A segunda instila a desconfiança e é a mãe da desunião, a mestre das chagas da violência.
As mentiras memoráveis tornaram-se monumentos da defesa da verdade como regra de bom funcionamento social. Os grandes vilões da História – real ou imaginada – são sempre mentirosos contumazes. Desde Judas e seu beijo traidor, passando pelos grandes tiranos do mundo e suas falsas promessas, até o Gollum do J.R.R. Tolkien, a mentira é devastadora, fabricante de desertos. Ela representa o Mal. A verdade, a chance do Bem.
Nos últimos anos, porém, as dificuldades que cercam os que afirmam a verdade no mundo começaram a ser percebidas pelos mentirosos como uma chance de virar a mesa de sua condição de vilania permanente. E se o mentiroso passasse a usar as inconstâncias da verdade para espalhar que uma mentira não é uma mentira, mas apenas uma outra forma de dizer uma verdade? Se não é possível conquistar o poder como um mentiroso confesso, por que não confundir a cabeça dos súditos com um mentiroso “moderado”? Se não há uma verdade absoluta, logo, é possível afirmar que não há verdade nenhuma, e tudo não passa de saber qual versão das coisas é aceita pela maioria das pessoas.
Aos poucos, as afirmações mais estapafúrdias foram sendo testadas na arena da opinião pública. A Terra é plana? Ora, e por que não? “Eu acredito que é”; muita gente acredita também; então, pra toda essa gente , é. O remédio para lúpus cura doença respiratória provocada por vírus? “Eu tomei e não morri”; muita gente que eu conheço também tomou e não teve nada. Logo, não há como negar esse “fato”. Ele é “verdadeiro”, porque eu acho que é.
Tudo isso vem ocorrendo porque levamos muito tempo para entender o aviso do semiólogo Umberto Eco: a internet dá voz a todo mundo, incluindo as pessoas idiotas. As pessoas idiotas, no mundo analógico, eram ouvidas com condescendência e logo deixadas pra lá. Na internet, essas vozes ressentidas contra os que dispunham das versões verídicas do mundo, juntaram-se com outros muitos idiotas e formaram uma legião de idiotas. É para elas que os contadores de mentiras dirigem suas atenções. E elas, agradecidas, tornaram os mentirosos seus líderes. Líderes “de verdade”. Quando os guardiões da verdade perceberam, já não guardavam nada, porque a verdade havia se esvanecido na praça apinhada de gente. O paradigma havia mudado. Agora a mentira é a nova verdade. Basta que seja acolhido pela maioria como tal. A maioria é a nova guardiã. Recentemente a Mentira virou lei e foi comemorada como uma vitória da Liberdade. E os que votaram em favor dela, riram e abraçaram-se e saíram a comemorar, cientes de que um novo tempo está começando.
E o pior: isso é Verdade.
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros