Imagem: Freepik
Eventos climáticos extremos afetam a dinâmica ambiental
Por – Ingrid Felizardo Chaves Cicca
É comum vermos empresas associando o ODS 3 (Saúde e bem-estar) com práticas de saúde e segurança ocupacional ou a benefícios que forneçam subsídios em estabelecimentos de práticas desportivas ou recreativas para que os funcionários cuidem de sua saúde de forma objetiva. Mas, quando nos referimos ao ODS 3 estamos falando de problemas globais de saúde como, por exemplo, o combate às doenças infecciosas e investimento para suportar problemas de saúde pública que possam causar impacto direto na sociedade como causou a epidemia de COVID 19, a qual aumentando as taxas de mortalidade, morbidade e os custos com o tratamento.
Há muito tempo os cientistas nos alertam sobre o quanto os eventos climáticos extremos introduzem uma forte perturbação sobre os ciclos reprodutivos dos vetores, podendo afetar a dinâmica ambiental. O aumento da precipitação de chuvas tem o potencial para aumentar a qualidade dos locais de reprodução dos vetores tais como mosquitos, carrapatos e caramujos. Com cenários climáticos cada vez mais inconstantes, as doenças transmitidas por vetores são apontadas pela Organização Mundial de Saúde como um dos principais problemas de saúde pública que podem decorrer do aquecimento global.
De acordo com o VII Relatório Luz da Sociedade Civil da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável Brasil é possível observar, considerando os indicadores do ODS 3, o quão distante estamos de atingir o objetivo global desse referido ODS 3 e assegurar uma vida saudável, promovendo a melhora do bem-estar para todas as pessoas e em todas as idades. No Brasil, das 13 metas ligadas diretamente ao ODS 3, 39% não avançaram. Pelo contrário. Retrocederam da seguinte forma: 15% apresentaram resultados insuficientes; 31% estão com risco de não serem atingidas; e 15% estão estagnadas.
É oportuno trazer mais explicações e informações sobre alguns dos indicadores brasileiros para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Um deles refere-se à taxa de mortalidade materna. A meta global é de que até 2030 possa haver uma redução da taxa de mortalidade materna para menos de 70 mortes por 100.000 nascidos vivos. Em 2022, o Brasil registou um índice de 57,7 mortes para cada 100 mil nascidos vivos, representando uma redução de 51% comparado com o ano anterior. No entanto, quando se avalia o resultado por estado, vimos que este tema ainda é um grande desafio em muitas delas. A exemplo: em Roraima (160/100mil); Piauí (108,9/100mil); Tocantis (102/100 mil); Sergipe (98,2/100 mil) e Amazonas (82,7/100 mil). Outro indicador com piora nos resultados é a proporção de mortes de menores de 5 anos de idade. Em 2022 o desempenho desses indicadores brasileiros para os ODS registrou um aumentou 6,9% em relação ao ano anterior. O Brasil, também, continua estagnado em relação a taxa de mortalidade atribuída às fontes de água inseguras, saneamento inseguro e falta de higiene. A taxa de óbitos para cada 100 mil habitantes decorrente de água e saneamento inadequados aumentou 7,32%. Saiu de 4,1 em 2020 e 2021 para 4,4 em 2022.
Outro agravante para o alcance dos indicadores ligados ao ODS 3 é a crise climática, que, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), não está dissociada de uma crise de saúde. Segundo dados da OMS a poluição do ar mata cerca de 7 milhões de pessoas todos os anos e a mudança climática causa desastres naturais sem precedentes, a exemplo da recém tragédia no Rio Grande do Sul.
O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), em suas publicações anuais, vem alertando sobre o quanto as mudanças climáticas impactam direta e indiretamente a saúde humana, sejam eles impactos imediatos como óbitos, afogamentos, soterramentos e ferimentos traumáticos, ou impactos mediatos devido à ingestão ou contato com água e alimentos contaminados, a exemplo da cólera, hepatite A e leptospirose. Há, ainda, os impactos de longo prazo, tais como depressão, insegurança alimentar e falta de água. E o pior: os impactos destes eventos climáticos extremos podem perdurar por longos períodos de acordo com a capacidade de resposta das populações atingidas e a aplicação de políticas para restabelecimento da situação de saúde dessa população.
Ampliando um pouco mais o olhar sobre o ODS 3 e correlacionando com dados do IBGE de 2022, observamos que 1,18 milhão de habitantes no Brasil não possuem banheiro em sua casa. Em pesquisa nacional realizada pelo Instituto Informa em março/2024, o regionalismo e a renda familiar se mostraram explicadores da percepção de bem-estar que, de acordo com conceito definido pela OMS, é o estado de bem-estar físico, mental e social. Outro agravante social relacionado diretamente à saúde e o bem-estar é o de que, segundo o Relatório “Pobreza Menstrual no Brasil: desigualdade e violações de direitos” do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), uma em cada quatro adolescentes brasileiras não tem um absorvente à mão quando menstruam, assim como tem sido violados seus direitos à escola de qualidade, segurança alimentar, moradia digna, saúde, incluindo sexual e reprodutiva, não sendo garantidos seus direitos à água, saneamento e higiene nos espaços em que convivem e passam boa parte de suas vidas. Dados do Banco Mundial, apontam que este é um problema em vários países do mundo e é associado à iniquidade e à vulnerabilidade social: pelo menos 500 milhões de mulheres ou meninas que menstruam em todo o mundo carecem de condições adequadas para sua higiene menstrual, como instalações e fornecimento regular de água, rede de saneamento e coleta de lixo.
Como vimos são muitos os riscos e os desafios inerentes às metas do ODS 3. Dessa forma, encarar o tema com responsabilidade e compromisso vai muito além do simples cumprimento de obrigações legais. Requer abraçarmos e nos engajarmos com ações que visam efetivamente gerar impactos positivos na sociedade e no meio ambiente.
Ingrid Felizardo Chaves Cicca – Jornalista com pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ, MBE em gestão de negócios sustentáveis pela UFF e mestrado em Práticas de Desenvolvimento Sustentável pela UFRRJ
**As opiniões expressas no artigo não necessariamente expressam a posição de NEO MONDO.