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POR – OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
No cenário urgente da crise climática global, é crucial não apenas reconhecer, mas também priorizar as vozes das comunidades historicamente marginalizadas. Mulheres, indígenas, pessoas negras e outros grupos vulneráveis enfrentam de maneira desproporcional os impactos devastadores das mudanças climáticas, uma realidade muitas vezes negligenciada nos debates internacionais.
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Neste contexto, o Grupo de Engajamento do G20, W20, desempenha um papel essencial ao promover a equidade de gênero e o empoderamento econômico feminino. Como um fórum independente, o W20 não apenas articula demandas por justiça social, mas também propõe soluções inovadoras que transcendem fronteiras e desigualdades.
Para explorar essas questões cruciais, entrevistamos Kamila Camilo, uma voz proeminente capaz de iluminar perspectivas muitas vezes negligenciadas. Kamila não apenas compartilha histórias profundas e experiências pessoais sobre a interseção entre justiça climática e equidade, mas também conecta diretamente as agendas do W20 com o G20, demonstrando como políticas inclusivas e sustentáveis podem ser efetivamente implementadas.
Junte-se a nós nesta jornada para entender como a justiça climática não é apenas uma questão ambiental, mas também um imperativo moral e social que exige ação imediata e colaboração global. Explore conosco as soluções transformadoras que podem moldar um futuro mais justo e resiliente para todos.
Neo Mondo – Como você percebe que as mudanças climáticas afetam de forma desproporcional mulheres, indígenas e pessoas negras?
A questão de gênero e raça estão muito conectadas. Quando pensamos em uma mulher, mãe solo negra ou indígena, ela é a pessoa mais afetada pela crise climática. Elas frequentemente residem em áreas mais vulneráveis a desastres naturais, como encostas ou bairros sujeitos a alagamentos. Elas vivem comumente em lugares com baixíssimo conforto térmico, conforme o calor aumenta e a qualidade do ar diminui, mais os serviços de saúde se tornam sobrecarregados, tão pouco as escolas estão se adaptando à nova realidade.
Outro fator é que após os desastres naturais as mulheres e crianças estão ainda mais vulneráveis a abusos sexuais, como vimos recentemente no Rio Grande do Sul.
Quais são algumas das principais questões enfrentadas por esses grupos historicamente marginalizados em relação à justiça climática?
Se pensarmos em comunidades indígenas que vivem no campo, elas são diretamente dependentes da terra e dos recursos naturais, o que os torna particularmente vulneráveis às mudanças nos ecossistemas causadas pelas mudanças climáticas. A perda de território, agravada pela expansão agrícola e industrial, ameaça a agricultura familiar e destrói culturas e conhecimentos tradicionais. Além disso, a invisibilidade política desses povos muitas vezes os exclui dos processos de tomada de decisão, dificultando a implementação de políticas eficazes de mitigação e adaptação climática que respeitem seus direitos e tradições.
De que maneira as políticas atuais falham em abordar as necessidades específicas desses grupos em termos de adaptação e mitigação das mudanças climáticas?
A política brasileira vem falhando há 500 anos conosco, povos pretos e indígenas e também com as mulheres. Seguimos insistindo na produção de petróleo, nossas cidades seguem olhando para uma infraestrutura do passado, não estamos conseguindo frear o desmatamento em todos os biomas, é importante destacar que precisamos salvar a Amazônia, mas também a Mata Atlântica, o Pantanal, a Caatinga. O garimpo ilegal e a produção ilegal de madeira também seguem o mais rápido possível e as consequências serão sofridas por todos nós.
O Estado tem falhado de maneira sistêmica e essa não é uma novidade, mas precisamos de auxílio emergencial para as famílias vítimas de calamidades climáticas, de políticas de demarcação de terras indígenas e quilombolas e proteção desses povos que são guardiões da natureza e tem sido vítimas de violência por grileiros e coronéis.
Quais são os exemplos mais impactantes que você pode compartilhar sobre como as comunidades lideradas por mulheres, indígenas e pessoas negras estão enfrentando e se adaptando aos desafios climáticos?
– Wanda Witoto e a luta das comunidades indígenas no parque das tribos em Manaus por acesso à saúde, educação de qualidade.
– Kaianaku Kamaiurá – coordenadora da rede de jovens comunicadores da COIAB – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira que tem mobilizado jovens indígenas para serem a voz das suas histórias, desde contar as boas histórias, mas também denunciar os crimes e a violência.
– É preciso honrar a história de mãe Bernadete, que foi violentamente assassinada por denunciar grileiros e tentar proteger terras quilombolas.
Como podemos garantir que essas comunidades sejam incluídas e tenham voz nas decisões, políticas e estratégias de enfrentamento das mudanças climáticas?
Minha militância na pauta climática é exatamente sobre democratização, infelizmente o assunto “meio ambiente” foi visto com um tema para salas de reuniões e universidades, então temos dezenas de eventos que é o nicho falando consigo mesmo, mas precisamos estar em todos os lugares, nas igrejas, nos bares, nos festivais de música.
Mas também precisamos garantir que todas as pessoas tenham um lugar na mesa desses eventos que citei antes, e isso significa repensar ou ajustar os processos de como fazemos multilateralismo e de como pensamos diplomacia, qual linguagem usamos. Precisamos simplificar os termos técnicos, o cientificismo e o juridiquês nos trouxeram até aqui e não é um bom lugar.
No contexto do W20 estamos indo onde às mulheres estão, criamos uma agenda nacional de diálogos, que passou por todas as regiões do Brasil discutindo nossas áreas temáticas.
Qual é o papel das mulheres, indígenas e pessoas negras na liderança e na formulação de soluções para a crise climática?
Costumo dizer que o primeiro passo é nos lembrarmos que somos natureza e para isso precisamos ouvir quem nunca esqueceu. Os povos tradicionais nos ensinam que não somos nós contra o mar ou contra o rio que sobe, nós precisamos fazer as pazes com o nosso meio ambiente. É absurda a alienação do consumo que nós estamos inseridos e é dessa armadilha que precisamos sair.
Precisamos respeitar os povos da floresta, os povos do mar, precisamos ouvi-los e precisamos deixá-los viver.
Quais são algumas iniciativas ou projetos que você considera exemplares na promoção da justiça climática e no empoderamento das comunidades marginalizadas?
– Centro Brasileiro de Justiça Climática
– Palmares Lab
– COP das Baixadas
– Instituto Mapinguari
– PerifaConnections com Lab Clima