A maior urgência do mundo é o ar que respiramos – Imagem: Freepik
ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Como indivíduos, o que é o mais urgente no mundo? Uma resposta padrão a esta indagação de cunho filosófico seria: aquilo que é necessário e que não possuo.
Porém, entendendo que necessário é aquilo que, sem o qual, o resto não é possível de ocorrer ou de existir, o que pode ser necessário e ao mesmo tempo não possuirmos?
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Está pergunta foi feita, provavelmente, por Diógenes, quando resolveu viver somente com o necessário, próximo ao porto do Pireu, na decadente Atenas antiga. Sem roupa e praticamente sem utensílios – com exceção de um manto, um cajado e uma tijela -, dormia em um barril abandonado. Comia o que havia, fazia suas necessidades em qualquer lugar, pregava aos transeuntes como veio ao mundo. E perguntava: o que realmente precisa um homem para viver?
Diz a lenda que um dia esse excêntrico filósofo chamou a atenção do poderoso imperador Alexandre que foi então visita-lo em uma linda manhã de sol. Chegou lá, cercado por uma multidão de curiosos, e, batendo no barril, disse, cheio de autoridade: Diógenes, sou o imperador Alexandre e vim conhece-lo e saber se você precisa de alguma coisa. Venha aqui fora e diga o que queres de mim.
O silêncio que se seguiu – por alguns segundos que tenha sido- foi de cortar com a faca. Alexandre não era homem de esperar . Quando a situação estava prestes a desandar em fúria e violência , ecoou do fundo do barril a voz grave do filósofo: só quero uma coisa de você. Não me tire o que não pode me dar. Por favor, saia da frente do barril e deixe a luz do sol entrar.
Segundo a mesma lenda, quando os soldados do imperador quiseram investir contra o filósofo malcriado, Alexandre impediu-os e disse: Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes.
Ambos morreram no mesmo ano, 323 a.C. com uma diferença fundamental: Diogenes jamais quis ser Alexandre, porque o poder que Alexandre exercia e acumulava não era necessário. Já as coisas que Diógenes procurava, sim.
Hoje, Alexandre enfeita as aulas de História, mas é Diógenes que ainda nos faz pensar. Qual é a coisa mais urgente do mundo? Ora, vamos lá, não é difícil. O ar.
E depois? A água. E depois? Alimento saudável.
Sem um, depois de minutos, tudo o resto torna-se inútil. Com o primeiro, mas sem o segundo, em poucos dias, a mesma coisa. Com os dois, mas sem o terceiro, um mês, no máximo, e é o fim. Sim, tudo o que é necessário a Natureza provê. Alexandre, em seu poder e glória, não era maior ou mais poderoso – e, principalmente , mais necessário – do que um raio de sol que aquecia e alimentava a pele de Diógenes. Ar respirável; água potável; alimentos saudáveis. As três urgências sob risco de não possuirmos mais e, com isso, não existirmos mais.
O filósofo alemão Hans Jonas, na obra ”O Princípio Responsabilidade: Ensaio de uma Ética para a Civilização Tecnológica”, de 1979, recria o imperativo categórico de Kant, ampliando porém o alcance da nossa conduta. Diz ele: Age de tal forma que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana na Terra. Por vida autêntica ele entende aquela que reconhece a responsabilidade do ser humano não apenas para consigo mesmo e para com os outros, mas também para com as futuras gerações e para com a natureza. Jones argumenta que a humanidade tem a obrigação moral de preservar as condições necessárias para a vida futura.
Esta é a urgência. Cabe a nós a tarefa de não postergar mais e empenharmos nossas forças e inteligência na luta por uma consciência ecológica, principalmente nos jovens, pois o futuro só é possível se as coisas necessárias – ar, água, alimentos saudáveis – existirem para que ele aconteça.
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
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