Finlandês é o povo mais feliz pelo sétimo ano consecutivo – Imagem: Freepik
ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Dizemos que nós, brasileiros, somos o povo mais alegre e descontraído do mundo, mas o finlandês é quem é feliz. E pelo sétimo ano consecutivo. Um país frio, distante de quase tudo, tanto que nem o sol aparece em algumas partes do país por meses seguidos. Mesmo assim, ninguém é mais feliz do que esse povo. E por quê? Há algumas pistas bem claras para decifrar essa liderança tão consistente. São elas: trabalho, lazer, educação e saúde, bem estar coletivo, fundamentado na confiança nas instituições públicas e na sua capacidade de manter todo este estado de coisas investindo em capital social e infraestrutura pública. Ou seja: o finlandês é o mais feliz porque tem poucas razões para não sê-lo.
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O ponto mais importante nessa investigação sobre as razões da felicidade finlandesa é a questão fundamental da desigualdade social. Quanto maior a desigualdade, mais o dinheiro tem importância na vida das pessoas e mais estressante é a vida de todo mundo, os que têm e, principalmente, os que não têm. Por outro lado, quanto mais próximas são as pessoas em termos de condições de vida, outros valores passam a ser mais atraentes de serem cultivados no lugar das marcas do sucesso material, do luxo e da distinção motivada pelo poder do dinheiro.
Façamos aqui uma comparação importante: os 10% mais ricos da Finlândia ficam com 33% da riqueza do país. Aqui, na terra do povo “alegre e descontraído”, o 1% mais rico fica com 49,6% da renda nacional. Ou seja: 99% da população brasileira divide metade da riqueza, enquanto 1% fica com a outra metade. É muito pra muitos poucos. É pouco pra tanta gente. Não dá pra ser feliz com esse tipo de conta.
Felicidade tem a ver com não precisar se preocupar muitas vezes com coisas fundamentais. Por exemplo: a saúde na Finlândia funciona e é paga pelo Estado. Ou seja, a pessoa trabalha e sabe que, qualquer problema, será bem atendida, com respeito e eficácia e não vai precisar desembolsar mais do que já paga de impostos para isso. O mesmo acontece com a Educação, considerada uma das melhores do mundo e igualmente paga pelos impostos dos cidadãos. É diferente de você pagar muitos impostos e continuar a se sentir um cidadão de segunda categoria, exceto se você desembolsar de novo – e mais – para ter o que já deveria estar no pacote da cidadania ativa.
O transporte público é outro ponto importante para fazer qualquer pessoa feliz. Se ele é acessível, de boa qualidade e barato, quem vai querer se importunar com automóvel? O planeta ganha quando um país investe em transporte público de qualidade. O estresse diminui, o que diminui o custo da saúde e melhora a eficiência da produção. Mas se o transporte é caro e ruim, se está sempre cheio e , além de tudo, há sempre o risco dos assaltos ou do assédio, ir e voltar para o trabalho é um motivo a mais de preocupação. E de tristeza. E de frustração.
Outro motivo para explicar a felicidade do finlandês é a disponibilidade de moradia digna. A política de habitações sociais é invejável e o número de sem tetos é muito menor do que em qualquer outro lugar da Europa – imagine em relação a nós!. Com mais gente atendida, menos gente tem medo de perder o que tem. A tensão social é menor na medida em que, entre os que tem pouco e os que tem muito a diferença não é tão grande a ponto de os que tem muito sofrerem por medo da raiva dos que têm tão pouco.
Bom, parece que aí resida um dos fundamentos da felicidade dos finlandeses. A liberdade que eles alcançaram de morar bem, estudar, cuidar da saúde, locomover-se, viajar, manifestar-se, votar, sem medo. Como já disse, em uma circunstância muito sombria, a grande artista Nina Simone: ser livre é viver sem medo. Parece que os finlandeses entendem bem disso. Mesmo tão próximos da Rússia e com o passado de conflito com eles. Mas que não impediu que esse país, sem riquezas naturais expressivas – e com um frio de dar dó – construísse um modelo de Estado e de sociedade baseado na confiança pública, no reconhecimento dos direitos, na oferta de bons serviços em todas as esferas da vida social e na possibilidade de uma vida digna para a maioria absoluta da sua população, que não precisa viver temendo ou odiando, tendo inveja ou sentindo culpa, mas apenas buscando realizar seus projeto sociais e suas jornadas de vida, com seus próximos e queridos. Ou seja, felizes.
Porém, um detalhe importante destacou-se no último relatório sobre a felicidade: os jovens estão menos felizes do que os mais velhos. Dois fatores indicam uma possível explicação: a preocupação com o meio ambiente e o uso excessivo das mídias sociais, que subtrai tempo de convivência e fortalecimento de laços comunitários, além de criar ficções de felicidade associadas a sucesso pessoal e posse de bens materiais exclusivos. Os finlandeses acharam o caminho lógico da felicidade, mas precisam agora cuidar para que os temores do planeta e os cantos das sereias midiáticas não lhes anulem os efeitos da fórmula que desenvolveram: a de que ser feliz é viver bem coletivamente e cuidar desse coletivo com tanto amor quanto se cuida de seu próprio patrimônio. E que viver bem não é se destacar, ser o número 1, mas ser ajudado e ajudar seu time a realizar as boas partidas da vida.
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
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