A noite estrelada, pintura de Vincent van Gogh de 1889 – Imagem: Pixabay
POR – EDUARDA TORRES*, ESPECIAL PARA NEO MONDO
Eu considero as pessoas muito chatas. Parece que todo mundo imita um personagem de sua série favorita e tenta viver sua vida assim. Ninguém é suficientemente interessante para ter uma boa conversa. No mínimo, falamos de esportes e do tempo, sendo que obviamente daria simplesmente para olhar para o céu e deduzir. Então, qual o ponto de dialogar com essas pessoas? Nenhum. São indivíduos sem nada para dizer, sem conteúdo. São pessoas tão comuns, não têm histórias absurdas nem mentiras bem contadas. Lembro de uma amiga que me contou que tinha viajado para Londres em exatamente um fim de semana e ainda havia voltado domingo à noite. A mentira era tão bem contada que ela até comprou uma caneta escrita “Londres”. Eu, como uma boa criança, acreditei e achei até fascinante. Quando cheguei em casa, contei para os meus pais, e eles se acabaram na risada, tanto pelo óbvio como pela minha ingenuidade. Até hoje, mesmo sabendo a verdade, ainda adoro essa história, porque eu duvido que qualquer outra pessoa teria sido capaz de contar tal inverdade tão bem planejada tendo somente 9 anos de idade. E para quê? Qual a função dessa narrativa? Eu não sei, e não me interessa saber, mas queria mais pessoas como ela na minha vida.
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Os filmes mais interessantes são sempre as histórias contadas e interpretadas por loucos, as músicas mais animadas são aquelas com letras inimagináveis, e os livros mais cativantes são escritos por “lelé da cuca”. Os gênios são loucos indomáveis, essas pessoas são incríveis e têm muito a dizer, mas escutamos muito pouco. Só prestamos atenção quando alguém foi suficientemente curioso para ouvir e as fazem serem ouvidas por todos. Freud foi dito como maluco, e hoje é usado como expressão. Hoje não temos mais curiosos no mundo. Sem curiosos, os loucos não são ninguém; mais apropriadamente dito, sem os loucos, os curiosos não têm objeto de estudo. Desde que o mundo é mundo, existem tais pessoas, indivíduos que mudam o que conhecemos. Por muito tempo foram chamados de aberração, depois de
descobertas do século. E o que aconteceu neste século? Parece que todos foram domados à normalidade do dia a dia. Que chatice.
O melhor jeito que achei de descrever os “normais” seria: “Parece que alguém os escreveu com uma pena molhada de leve no tinteiro em um papel de carta, cada letra tão delicada, a ponta da pena colocada de leve no papel e a tinta usada aos poucos para não gastar muito. No fim, fica uma carta quase invisível aos olhos.” Já os “anormais” seriam algo mais como “um rascunho de texto feito por um bêbado naturalmente destro tentando escrever pela primeira vez com sua mão esquerda. As linhas saem tortas, a letra às vezes fina e às vezes grossa, e só dá para entender se franzir bem a testa e fechar de leve os olhos.” Tenho certeza de que ler esse texto seria muito mais difícil, muito mais complexo, muito mais divertido.
Tudo tende a ser consertado, o relógio sem bateria tende a ser trocado, o poeta a ficar calado e o louco a ser ensinado. Somos ensinados desde pequenos pelos nossos pais a diferença entre o certo e o errado, o que devemos fazer, quem devemos ser e com quem devemos andar. Mas em certo ponto tomamos a rédea do caminho da nossa própria vida e, mesmo assim, acabamos que nem no começo, sendo dito o que é o certo e o errado, quem devemos ser e com quem devemos andar. Afinal, “olha com quem tu andas que direi quem és”. Quando criança, se eu fosse vista andando com adolescentes rebeldes, eu obviamente me tornaria uma, minha mãe achava, porque claramente eu não era eu o suficiente para ter decisões de ser eu mesma. Acho que ela estava certa, afinal foi ela que me ensinou a diferenciar o certo do errado.
Hoje, sem muita perspectiva do que será da minha vida, me encontro tomada por angústias e ansiedade. Eu tenho vinte anos e não sei mais diferenciar o certo do errado. Não tenho mais certeza se eu sou definida por com quem eu ando. Eu ando com tanta gente louca e ainda sou tão comuns. Eles são tão interessantes, enquanto eu tenho medo de falar, receio de caminhar, pavor de tropeçar. Acho que sou definida pelo medo. Será que a partir de agora me apresento como Medo, antes mesmo de dizer meu nome, ou seria agora meu sobrenome? Poderia simplesmente ser apelido para os mais próximos.
Enquanto eu pensava nisso, durante uma aula que eu nem sequer prestei atenção, um menino levantou a mão e começou a falar sem parar. Tinha tanto a dizer, parecia que ficou calado por tanto tempo. Não sei sobre o que ele falou, ou como ele era, mas todo mundo o encarou. De primeira olhada não achei nada demais nele, não era alto ou forte, bonito nem brilhante, mas tinha algo a dizer. Acho que fazia muito tempo desde que alguém tinha algo novo a acrescentar. Ele era estranho, todos da sala o apelidaram de louco. Eu lembro dele ter um crachá engraçado envolvendo seu pescoço. Quando penso sobre esse dia, lembro de ter
pensado que ele deveria trabalhar em um circo, porque nunca tinha visto um cordão tão colorido como aquele. Deveria ser para entreter crianças, já que tinha formato de quebra-cabeça. Acho que, assim como eu, todos o encaravam por ter algo colorido demais em seu corpo. Ou seria porque ele balançava demais a perna e fazia movimentos engraçados com a mão? Ainda não cheguei a uma conclusão, mas ele tinha tanto a dizer, que tenho certeza que ele saberia contar uma história tão boa, que poderia dizer não só que foi a Londres em um fim de semana, mas como que deu a volta ao mundo em oitenta dias.
Desde o dia que ele começou a falar, não parou mais. As pessoas começaram a se incomodar com ele. Primeiro parecia algo pacífico: perguntavam se ele precisava de ajuda ou até ofereciam sem perguntar. Pelos cantos, o chamavam de coitadinho por não ter ninguém com quem sentar, mas ele parecia muito mais bem acompanhado do que a maioria de nós. Um dia, o professor o perguntou se ele queria ajuda na prova. Perguntou na mesma tonalidade que chamamos a atenção de um bebê. Sua resposta foi tão grosseira que seu apelido finalmente fez jus. Ele era louco. Chamou a atenção de todos, dos que tinham pena, dos que o achavam estranho, dos que o auxiliavam mesmo sem terem sido pedidos, e da minha também.
Um dia, cheguei atrasada para a aula e o único lugar disponível era um atrás dele. Fui ao meu lugar como se estivesse indo à guerra, com medo de não voltar de lá. Ele olhou para mim, me embolei toda e me apresentei como Medo, ou pelo menos uma palavra gaguejada disso. Ele deu uma risada e continuou olhando para frente. A aula se passou e eu não parava quieta, estava desesperada. Será que alguém estava me encarando, falando de mim, rindo de mim? Será que as pessoas vão achar que estou andando com ele, o que significa que sou igual a ele? Fui pega distraída quando o professor começou a fazer chamada e saí do meu próprio mundo. Respondi meu nome e, sem hesitar muito, olhei em volta pronta para achar todos os olhares em minha direção. Não tinha ninguém, nem mesmo o professor que tinha acabado de me chamar estava olhando para mim. Como poderia aquilo? Ele tinha acabado de me chamar e já estava no próximo. Oito bilhões de pessoas no mundo, e eu me achando especial. Nem mesmo meu professor olha para mim, imagina os outros. Acho que verdadeiramente ninguém liga. Depois disso, continuei indo para as aulas e voluntariamente me sentei atrás dele. Me sentia mais calma, já que o único sendo encarado era ele. Já tinha internalizado o fato de que ninguém ligava para mim, só ainda não entendia o que tinha de tão especial que ligavam para ele. Todos chamavam ele de louco, mas ele não era nenhum gênio, ele não tinha nada a dizer. Continuei com essa mesma rotina.
Ainda pensava sobre quando seria o dia em que algum gênio voltaria à Terra, quando teríamos outra pessoa diferente de todas as outras. Estava no meio da aula quando foram designadas duplas para um trabalho. Eu fiquei com ele. Pela primeira vez, escutei sua voz. Ele falou comigo. Na verdade, acho que pela primeira vez eu o olhei nos olhos e não para seu cordão estranhamente colorido. Ele não era tão estranho quanto falavam, nem grosseiro como ele soou ao responder o professor. E acima de tudo, ele não era tão desconfortável de estar por perto quanto eu me fiz acreditar. Falamos durante a aula inteira, falamos sobre tudo, de esporte ao tempo, de pinturas de Van Gogh a escrituras de Freud. No final, eu descobri que ele quer se tornar um psicanalista tão louco quanto Sigmund. Falei com ele mais do que havia falado com qualquer outro daquela sala. No dia seguinte, eu cheguei mais cedo e finalmente me apresentei apropriadamente. Nesse mesmo dia, descobri que todos o encaravam porque não era normal alguém ter tanto a dizer, ou pelo menos não era comum de fato dizerem. Novamente seu apelido o fez jus, ele realmente era louco.
*Eduarda Torres tem 20 anos e cursa o 3º ano de psicologia na PUC PR