O camelô que ascendeu ao posto de porta voz da cultura de massa no Brasil – Imagem: Divulgação
ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Depois de 63 anos , quando estreou na TV Paulista, comprando duas horas da programação dominical da emissora para vender seus carnês do Baú da Felicidade, morre o maior apresentador que a TV brasileira conheceu. Sílvio Santos foi um dos grandes responsáveis por transformar a televisão em um veículo de futilidades e chamariz para negócios nos quais o sonho de uma vida ( um pouquinho) melhor era a moeda de troca. Ou seja, o pior do que seria possível fazer com essa ferramenta de transmissão de conteúdos em larga escala e que se transformou em um grande bazar de propaganda de banalidades misturada com entretenimento sem nenhuma espessura cultural. O bordão “quem quer dinheiro” traduz, melhor do que qualquer outra coisa, o legado da teologia da prosperidade da qual o apresentador foi um representante laico mas bastante devoto.
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A minha geração cresceu com as músicas, os quadros de jogos e o programa de calouros do programa de Senor Abravanel. Entretenimento para toda a família, diziam as chamadas do programa que se estendia pelas modorrentas tardes de domingo, permeadas pelas propagandas do verdadeiro negócio do apresentador: seu carnê de badulaques que oferecia prêmios para os sortudos. Sílvio Santos era um vendedor, o camelô que ascendeu ao posto de porta voz da cultura de massa no Brasil que se industrializava rapidamente, urbanizava-se com uma velocidade assustadora, promovendo um movimento migratório gigantesco, marcado por políticas econômicas concentradoras de renda, o que gerou a formação de imensas periferias nos grandes centros, formadas por famílias de classe média baixa, todas atrás do projeto da vida confortável que as séries enlatadas de televisão desfilavam ao longo de sua grade de programação. Sílvio embarcou nesse momento histórico do nosso país e encaixou-se com perfeição na máquina ilusionista do “trabalhe com afinco e prospere na vida” ou “economize e você conseguirá ter tudo o que deseja”, vendendo seus carnês e oferecendo seus sofás, jogos de cama, eletrodomésticos, panelas e faqueiros, símbolos do status de um povo sofrido que aposta no sonho de progresso material todas as suas fichas de sanidade.
Silvio sempre esteve de bem com o poder, não importa que poder fosse esse. Chamava o presidente da República de “patrão”, porque as redes de televisão são concessões do poder público. E, como dizia ele, “quem vai querer brigar com o patrão?”. O uso que fez da concessão pública , isto é, de parte do patrimônio dos cidadãos, esteve voltado, o tempo todo, ao crescimento de seu patrimônio. Séries e novelas eram canceladas ou tinham seus horários alterados se não garantiam a audiência necessária; programas eram repetidos ad nauseam se ainda rendiam mais alguns tostões. E os programas de auditório continuavam, se multiplicavam, com as filhas do apresentador emulando o mestre ilusionista.
Agora não há mais o mestre. Diante do anúncio de sua morte, a emissora suspendeu as transmissões. O judeu Abravanel deixou instruções para ser enterrado dentro do rito, sem pompas e visibilidade. O país rendeu-lhe extensas homenagens e mesmo o jornal televisivo de maior audiência da emissora líder terminou sua apresentação com a música marcante dos programas de auditório do camelô bilionário: “Sílvio Santos vem aí!”. Apagado seu sorriso inconfundível, sua voz tantas vezes imitada, choradas as lágrimas sinceras de seus inúmeros admiradores, resta pensar no seu espólio cultural para o país. Aliás, uma de suas últimas aparições públicas fora dos palcos de sua emissora foi em uma audiência de conciliação com o diretor de teatro Zé Celso, para tentar por fim a uma querela de décadas em torno do terreno no qual foi construído o lendário Teatro Oficina e no qual o apresentador pretendia construir três torres comerciais, descaracterizando o projeto da área, idealizada por Lina Bo Bardi, em 1992. Sílvio Santos não se conformava de não poder fazer o que quisesse em algo que lhe pertencia. Pois bem, com a televisão, fez o que quis. Até o fim.
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
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