Alexander Turra – Imagem: Divulgação
POR – OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
O biólogo Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, é uma referência internacional no campo da ciência oceânica. Reconhecido pelo seu comprometimento com a preservação dos ecossistemas marinhos, Turra foi recentemente agraciado com o prestigiado Prêmio Frontiers Planet, em reconhecimento ao seu estudo inovador sobre a poluição por plástico nas águas da Baía de Guanabara (RJ) e nas áreas brasileiras da Bacia do Rio da Prata. Além disso, em março deste ano, assumiu uma cadeira no conselho consultivo de notáveis do InovaESPM, consolidando ainda mais sua atuação em projetos estratégicos para o futuro do oceano. Nesta entrevista, ele nos fala sobre a quinta edição da SP Ocean Week, um evento que visa aprofundar as discussões sobre a sustentabilidade oceânica, unindo academia, sociedade civil e tomadores de decisão em prol de uma economia azul mais justa e sustentável.
Acompanhe a entrevista:
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A SP Ocean Week tem se consolidado como um dos principais eventos de cultura oceânica na América Latina. Quais são os principais objetivos desta quinta edição e quais mudanças ou evoluções em comparação às edições anteriores?
De fato, a SP Ocean Week se consolida como um dos maiores eventos de cultura oceânica do mundo, especialmente com a novidade que trouxemos este ano da Virada da Maré e Movimento Pororoca, fazendo com que a iniciativa se estenda além da capital paulista, promovendo uma grande virada, com atividades sendo realizadas em todo o Brasil. Desta forma, várias instituições podem se valer e exercitar este espírito que permeia a essência do SP Ocean Week, que é o de trazer, de uma forma leve, jovial e irreverente, a aproximação das pessoas com o oceano. Este é o grande objetivo.
Este ano, repetimos algumas inovações das edições anteriores, entre elas o Movimento Pororoca e o tanque de mergulho, que está sendo bastante visitado pelas crianças. Temos também um tubarão-baleia simulado, que é um simulador com um game, em que as crianças têm a oportunidade de retirar lixo do mar, de forma lúdica. Temos também espetáculos de teatro e uma galeria de arte com obras dos mais variados tipos, dialogando com as mais variadas leituras do oceano.
“Movimento Pororoca” na da SP Ocean Week. Quais expectativas você tem em relação ao impacto conjunto desse evento no fortalecimento da consciência ambiental no Brasil? Há algum ponto específico que o evento pretende destacar ou avançar ao ODS 14?
A SP Ocean Week está totalmente alinhada com a década do oceano, que foi pensada como uma estratégia para produzir a ciência que precisamos para o oceano que queremos. Isso significa especificamente a implementação do ODS-14.
De uma forma muito geral, a SP Ocean Week trata temas que são muito relacionados ao ODS-14, como a conservação do oceano. Então, temos um dia dedicado a uma leitura abrangente da saúde única do oceano, na qual temos conservação, cultura oceânica, abordagens relacionadas à relação do ser humano com o oceano, de forma a fortalecer e qualificar essa relação.
A gente também está alinhado com o oceano produtivo, e com isso temos um dia dedicado à economia sustentável do oceano. E nesse dia a gente explora mecanismos que são inovadores do ponto de vista de geração de uma economia sustentável do mar, sem necessariamente impactá-lo gerando resíduos ou usando de sobremaneira os recursos resistentes.
O evento também contará com a participação de startups e uma roda de negócios com investidores. Qual é a importância de incentivar o empreendedorismo e as soluções inovadoras no contexto da preservação marinha e como o evento pretende fortalecer essas conexões?
O evento tem um diálogo com a temática da economia azul, que sempre esteve presente na SP Ocean Week, desde as primeiras edições. A exemplos dos anos anteriores, temos uma parceria com Ilha Hub e Sebrae, que é um patrocinador do evento, para amplificar o diálogo com startups e fomentar o empreendedorismo.
Nesta edição, capitaneado pela Ilha Hub, promovemos uma roda de negócios e uma sessão com pitches de inovação, trazendo exemplos de como podemos pensar numa economia azul diversificada, capilarizada e pujante. Queremos tirar um pouco o foco dos grandes empreendedores, dos grandes empreendimentos ligados ao setor de mineração e de navegação, para uma economia de pequena escala mais enraizada e capilarizada no País.
Você acredita que o conceito de “justiça azul”, que será abordado no primeiro painel do evento, está ganhando espaço suficiente na discussão global sobre sustentabilidade? Como ela se relaciona com as questões de justiça social e ambiental?
Justiça Azul, ou as várias justiças que a gente tem que pensar quando pensa no oceano, é o tema que permeia, de certa forma, o primeiro dia de painéis, que tem como plano de fundo um tema abrangente e que dialoga com ele, que é a saúde única azul.
A saúde única azul permite com que a gente coloque o ambiente marinho dentro de um contexto amplo e sistêmico, no qual os seres humanos fazem parte, influenciando e sendo influenciados pelo ambiente. É uma forma de conseguirmos incorporar a complexidade do ambiente marinho e, ao identificar suas conexões, fazer com que a gente consiga achar os caminhos para solucionar os desafios, superar os desafios e solucionar os problemas.
Nesse sentido, o que a gente tem de ganho nessa abordagem são os princípios fundamentais que embasam esse tipo de questão, sendo um deles a justiça azul. Outros têm a ver com a diversidade, equidade e inclusão e com o compartilhamento equitativo da prosperidade que é gerada por meio do uso e exploração dos benefícios derivados do ambiente marinho para as pessoas. Com isso, a gente promove uma discussão inclusiva, uma discussão abrangente e pragmática que visa conectarmos com os temas que são tratados em outros momentos da SP Ocean Week, como economia azul, com o objetivo de trazer um olhar efetivamente compreensivo e mudar a realidade do oceano, das pessoas e do planeta.
A exposição “Barcos do Brasil”, idealizada por Amyr Klink, celebra o conhecimento ancestral das populações litorâneas. Como essa conexão entre saberes tradicionais e a ciência pode ser fortalecida em eventos como a SP Ocean Week?
É fundamental que a gente dialogue com todas as formas de conhecimento. A exposição Barcos do Brasil traz um conhecimento ancestral e tradicional que se traduz nas formas de elaborar e de se construir embarcações apropriadas para diferentes usos e realidades da costa brasileira, considerando os ventos, as ondas, os desafios para navegação.
Com isso, promovemos uma forma muito interessante de fazer esse diálogo que converge para a ideia da saúde única azul, uma vez que a gente também trata nessa discussão o resgate ou a ressignificação da relação do ser humano com o mar na construção desse novo futuro. E um jeito de fazer isso é resgatando essas relações dos nossos antepassados e das comunidades tradicionais com esse ambiente. Por isso que é muito importante a gente olhar o passado para poder construir o futuro a exemplo dele, muitas vezes à semelhança dele.
Esse é o grande desafio que a gente está trazendo nesta leitura artística: inspirar as pessoas para entender caminhos que precisam ser implementados para mudar a realidade.