A jornalista Eleni Gritzapis e o convidado Sérgio Pinto gravando para o greenTalks – Imagem: Divulgação/Canta
Por – Eleni Gritzapis, especial para Neo Mondo
O mais novo episódio do greenTalks entrevista um convidado muito especial para falar como a biotecnologia promove a revolução no cultivo e produção de bioingredientes: Sérgio Pinto
Neste episódio do greenTalks, vamos entender como a biotecnologia promove a revolução no cultivo e produção de bioingredientes, que são os ingredientes naturais derivados de fontes biológicas, como plantas, animais e microorganismos. Nosso convidado é Sérgio Pinto, CEO da Cellva Ingredients.
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A Cellva, para quem não conhece, é uma startup que vem ganhando o noticiário como a empresa que está desenvolvendo a gordura suína de laboratório, usando método semelhante ao das carnes cultivadas a partir de células. Recentemente, uma de suas tecnologias de microencapsulamento, o MicrospheresTM, foi selecionada entre os três ingredientes mais inovadores da FISA, Food Ingredients South America (FiSA), maior evento de inovação em ingredientes da América do Sul.
Sérgio opera e lidera iniciativas no segmento de alimentos e bebidas há mais de 20 anos. Sua experiência é um equilíbrio entre fundar startups como Peer2Beer e Massalab, desenvolver novos ingredientes, produtos e categorias em grandes empresas como Pepsico e BRF, e ser conselheiro de empresas em busca de crescimento (Vila Camarão e La Bracciera).
Confira os principais trechos da entrevista e não deixe de assisti-la na íntegra no link abaixo, ou no canal do Instituto Neo Mondo ou da Green4T no Youtube:
O greenTaks é uma iniciativa pioneira entre a green4T e NEO MONDO para discutir o papel fundamental da tecnologia na promoção de um futuro mais sustentável.
(greenTalks) – Sérgio, como surgiu a ideia da Cellva Ingredients?
Existem ingredientes que são bioativos. O que é um ingrediente bioativo? A canela, por exemplo, é um termogênico. Por ser termogênico, ele é um bioativo. As vitaminas também podem ser consideradas bioativos.
Quando a gente fala especificamente da agenda de biotecnologia, ela busca utilizar altíssima tecnologia para acelerar os processos que aconteceriam naturalmente, biologicamente. Um exemplo que gosto de usar é o da insulina, usada no tratamento da diabetes. Na década de 60, ela demandava até quase 70 pâncreas suínos para se produzir uma única dose do medicamento. Então, com isso, você imagina o preço. Graças à biotecnologia, hoje conseguimos produzi-la a um custo extremamente acessível e ninguém nem sequer se pergunta como ela é feita. A biotecnologia é potência para acelerar os processos e levar produtos de uma forma mais acessível e segura para todos. Quando aplicamos a biotecnologia nos processos de produção de ingredientes, conseguimos acelerar os processos biológicos.
(greenTalks) – Vamos falar da gordura suína que mencionamos na abertura. Como é feito este processo que utiliza a biotecnologia para cultivar gordura suína em laboratório?
A gordura é um dos cinco ingredientes mais importantes que devemos consumir na nossa nutrição, ao lado da água, proteína, vitaminas e carboidratos. Ela atua na regeneração de pele e funcionamento do organismo, entre outras funções essenciais.
Quando falamos da gordura vegetal, ela é monocultura e tem limitações para entregar os melhores benefícios. A gordura animal é uma outra fonte, mas não é um investimento direto. E foi aí que começamos a pesquisar como conseguir produzir uma gordura que tivesse o melhor perfil, maximizando seus benefícios. Partimos da retirada de uma célula suína de um animal vivo, por meio de uma punçãozinha.
A partir disso, fomos pesquisar a melhor gordura que poderíamos produzir. Encontramos essa gordura, essa célula ideal, e criamos um biobanco, que falamos que é um banco imortalizado, nunca mais vamos precisa voltar para o animal.
Lembra que falei dos cinco ingredientes? Essa célula precisa de alimentação para crescer. Por meio da biotecnologia, isso acontece de uma forma muito mais rápida e precisa, somente buscando a gordura. Então, ao invés de esperar os 300 dias naturais da indústria, conseguimos chegar no produto final em 21 dias. Assim é o processo de seleção da célula. Não estamos atrás de osso, de proteína, de pelo, de óleos, nem de vida, apenas da gordura. E também não abatemos nenhum outro animal.
Desenvolvemos ainda uma coisa que a gente chama de microcarreador, que é como se fosse uma uva vazia, que essa célula entra, cresce e se prolifera.
Criamos essa tecnologia, que é patenteada pela Cellva. Então, conseguimos estimular o crescimento de uma gordura que tem um perfil nutricional superior à gordura suína.
(greenTalks) – Quais são as principais vantagens da gordura cultivada em laboratório em comparação com a gordura animal tradicional? Qual será a utilização? Há diferença nutricional entre elas?
As vantagens são essa caracterização nutricional, conseguimos trabalhar na melhor gordura, com o melhor perfil lipídico. Para vocês terem uma ideia, no começo imaginávamos que íamos impactar somente a indústria de alimentos, no entanto várias indústrias farmacêuticas têm nos procurado para estimularmos determinado perfil de ácido graxo, que é muito nobre para o segmento.
Estamos trabalhando em diversas frentes de desenvolvimento, em diversas aplicações, respondendo a várias perguntas especificamente para cada uma das indústrias.: qual seria o melhor perfil dessa gordura? Qual seria a melhor proteção? Qual o tempo de oxidação dessa gordura? Desta forma, os principais benefícios são melhorar a nutricionalmente a gordura, reduzir o tempo de desenvolvimento e conseguir personalizá-la de acordo com a aplicação, como se fosse aquele tijolo perfeito para aquela construção.
(greenTalks) – Além da gordura suína, a Cellva está pesquisando outros bioingredientes?
Construir uma agenda de biotecnologia no Brasil ainda é um assunto novo. Então, nos vemos construindo esse ecossistema e é muito cansativo ser pioneiro, porque se tem o ônus e o bônus.
Já construímos o nosso centro de desenvolvimento, que fica em Porto Alegre (RS), o único centro do gênero na América Latina, voltado só para ingredientes usando biotecnologia. Agora, é botar esse time pra trabalhar, validar os briefings que temos recebido das indústrias farmacêuticas e de alimento e conseguir provar toda essa promessa em uma escala maior. Hoje produzimos 15 quilos por mês, então temos que fazer a modelagem para ir para uma produção maior.
Naturalmente, vamos passar por uma agenda regulatória, de como o produto deve ser descrito numa embalagem, taxação etc. E tem uma agenda de internacionalização. Fiz um gráfico no passado que costumo utilizar nas minhas apresentações, que eu falo que a Cellva é nova etapa na agregação de valor do produto na agricultura nacional.
(greenTalks) – Além da internacionalização, qual é a visão da Cellva para os próximos cinco anos?
A agenda de biotecnologia tem tempos e movimentos diferentes de quando você faz um software, não temos versão beta. Se eu lançar um software e ele não funcionar, você deleta. Em ingredientes não é assim, temos que ser muito competentes no uso de recursos
Queremos estar com uma agenda internacional bastante relevante em pelo menos dois continentes, queremos ter o nosso centro de produção. Nossos produtos são livres de transgênicos, então mercado europeu é um mercado óbvio. E o americano é o maior mercado do mundo.
Além disso, o mercado de nutracêuticos é um segmento óbvio para nossa empresa, mas em cinco anos esperamos estar escalando pela segunda vez a nossa indústria e estar produzindo em torno de 100 toneladas por mês. Lembrando que o nosso foco principal não é vender os grandes volumes de gordura, é vender os grandes benefícios da gordura, de forma acessível.
(greenTalks) – Como você vê o futuro da biotecnologia na indústria de alimentos? Quais tendências e inovações podemos esperar nos próximos anos?
Eu acho que o Brasil vai virar um grande protagonista nisso. Tenho muita fé e falo pra todo mundo que eu não comecei a Cellva no Brasil porque eu sou brasileiro, mas sim porque o Brasil tem mais de 90% das suas fontes energéticas renováveis, temos dois terços de todo o talento e publicação de artigos científicos da América Latina em biotecnologia. É impressionante e é uma coisa que ninguém sabe. Precisamos reter estes talentos.
Então temos um espaço importante e a biotecnologia é uma das agendas mais relevantes que temos para a nossa economia. Temos a chance de dar um salto tecnológico, já somos protagonistas e podemos conseguir aplicar a biotecnologia para mudar a forma como consumimos no mundo. E não é da noite para o dia, mas esses próximos dez anos são fundamentais se o Brasil vai contar com esse pilar de aceleração ou se vamos perder essa agenda. No que depender da Cellva, o Brasil vai firme.
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