Imagem: Divulgação
ARTIGO
Os artigos e informes publicitários não representam necessariamente a posição de NEO MONDO e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo sem prévia autorização
Por – Luciana Ferreira, professora da Fundação Dom Cabral, para Neo Mondo
Segundo dados do IBGE, quase 20% (19,8%) dos jovens, entre 15 a 29 anos, estão sem estudo e sem trabalho, sendo que a proporção entre homens é de 14,2% e 25,6% para mulheres. Os jovens correspondem a cerca de 25% da população brasileira e olhando também dados de envelhecimento da população saltamos os olhos à importância de formarmos hoje os que serão o futuro de amanhã.
Esse cenário é particularmente complexo quando olhamos o contexto empresarial. De acordo com uma pesquisa de 2023 do ManpowerGroup, 80% dos empregadores brasileiros relatam dificuldades para recrutar funcionários. Segundo a pesquisa, esses empregadores reclamam de deficiências de competências técnicas e também não cognitivas e afirmam investir em treinamento e desenvolvimento para lidar com a escassez de talentos.
Entre os anos de 2022 e 2023, a FDC realizou uma pesquisa diagnóstica com o objetivo de compreender melhor esse cenário, olhando especificamente o público entre 19 e 24 anos. Essa faixa etária foi escolhida pela convergência com o chamado programa “Jovem Aprendiz”, no qual empresas de médio e grande porte são obrigadas a empregar uma cota desta faixa etária que deve também passar por cursos de aprendizagem para o trabalho. A pesquisa tinha como objetivo entender melhor como se dá a gestão e a integração do programa na rotina das empresas brasileiras. Acreditávamos que parte da escassez de talentos poderia ser resolvida a partir da gestão estratégica destes programas, desenvolvendo juventudes que muitas vezes ficam cerca de 24 meses em contato com as empresas.
Muito rapidamente, vimos nossa premissa sendo questionada pelas evidências. Entrevistamos profissionais da área de Recursos Humanos, responsáveis pelo programa Jovem Aprendiz, e, se por um lado, encontramos algumas empresas com um olhar não só estratégico para o desenvolvimento desses aprendizes como também cuidadoso e inclusivo, por outro nos surpreendemos com diversas empresas que mal sabem informar o status de desenvolvimento dos jovens. Em algumas delas, todo o programa é feito por uma organização certificadora com pouco envolvimento na realidade do trabalho. Em outras, os jovens nem mesmo são vistos como potenciais talentos para ocuparem postos de trabalho iniciais de carreira.
Mas quais seriam os possíveis impeditivos para essas empresas absorverem esses jovens nas suas ocupações iniciais? Mais uma vez as evidências nos surpreenderam na medida em que há empresas que nem mesmo abrem vagas para este público ou entendem que é melhor que participe de outro programa em detrimento do Jovem Aprendiz para que tenha alguma chance de ser contratado.
Assim, podemos refletir com um pouco mais de profundidade na compreensão do fenômeno que insistimos em chamar de “nem-nem”, mas que talvez pudesse ser denominado “sem-sem”. Sem educação, sem trabalho, sem oportunidades.
Segundo os mesmos dados da PNAD mencionados acima, para 53% dos homens jovens e para 25% das mulheres jovens o principal motivo para sair da escola é a necessidade de trabalhar. Uma vez que não estudam, poderiam obter trabalho por meio de iniciativas de empresas voltadas para o desenvolvimento de talentos, sendo o programa Jovem Aprendiz uma oportunidade dada já que é mandatório. Mas não é o caso.
Há uma certa miopia das empresas que reclamam da escassez de talentos, investem em desenvolvimento, mas seguem com dificuldades em entender que seus aprendizes são parte da resposta para seus desafios futuros, tanto de crescimento como de produtividade.
Um dos desdobramentos da nossa pesquisa diagnóstica foi a construção do B-EPIC, junto à Gerdau, iniciativa para catalisar o desenvolvimento daqueles que integram programas para jovens aprendizes. Ela ocorre em complemento à formação técnica das certificadoras e foca no desenvolvimento de habilidades socioemocionais, frequentemente apontadas como sendo críticas não só para o momento atual como também para o futuro do trabalho. Além da formação da juventude, acontece também o desenvolvimento de mentores e lideranças para que estejam melhor preparadas para receber as diferentes gerações. Acreditamos que estamos diante de um problema complexo cuja solução requer essa complementaridade de ações a fim de que possamos promover o impacto desejado de transformação social que contemple o crescimento e a produtividade das empresas e a inclusão social de jovens.