Controle biológico na agricultura: faça a coisa certa
No longo prazo, a adoção desse método pode levar à diminuição dos resíduos químicos nos alimentos, da contaminação do meio ambiente e das intoxicações dos trabalhadores rurais.
Por Roberto Alves e Breno Lobato*, especial para NEO MONDO
O controle biológico pode ser definido como o controle de pragas agrícolas por meio de inimigos naturais (fungos, bactérias, vírus, insetos, nematoides, entre outros), que são organismos que mantêm os níveis populacionais dessas pragas em equilíbrio. É um método que integra um conjunto de medidas – o Manejo Integrado de Pragas – que leva em conta a preocupação com o meio ambiente e a sustentabilidade.
São diversas as vantagens do uso do controle biológico na agricultura, principalmente em relação ao uso de produtos químicos, por não ser uma prática tóxica ao meio ambiente, às pessoas que manuseiam os produtos biológicos e nem aos consumidores dos alimentos, produzidos sem resíduos químicos.
No mundo, o mercado de controle biológico cresce de 10% a 15% ao ano, devendo passar de US$ 3 bilhões em 2019 para US$ 5 bilhões nos próximos anos, de acordo com dados apresentados no 16º Simpósio de Controle Biológico (Siconbiol), realizado em Londrina (PR), em agosto. O Brasil é líder no uso da técnica, tendo as indústrias nacionais faturado R$ 464,5 milhões em 2018, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio). O País utiliza o controle biológico há vários anos em diferentes culturas agrícolas e na pecuária.
Mas para que o controle biológico seja efetivo, assim como o controle químico, o produtor deve seguir as recomendações dos especialistas quanto ao uso dos biodefensivos mais eficientes e de custo acessível, para que possam ser utilizados em pequena, média e grande escala.
Primeiramente, o produtor deve adquirir produtos biológicos registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o que comprova a eficiência para o controle de determinada praga. O registro inclui a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), na qual o fabricante comprova que o biodefensivo não é nocivo ao ser humano, e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), atestando que o mesmo não agride os recursos naturais.
Cuidados
Os produtos biológicos são organismos vivos, e por isso alguns cuidados precisam ser tomados. Embalar um produto com vida é diferente de embalar algo sem vida, como o produto químico – afinal, o produto biológico pode, literalmente, morrer. Assim, ele é produzido e formulado de modo a ter uma vida de prateleira longa em temperatura ambiente.
Quando adequadamente formulados, os micoinseticidas (inseticidas à base de fungos entomopatogênicos) em óleo emulsionável, por exemplo, normalmente podem ficar de quatro a seis meses nas prateleiras das revendas agropecuárias. A formulação é, portanto, uma das saídas para contornar fatores desfavoráveis como altas temperaturas.
O produto também deve ser virulento o suficiente para o controle da praga. Por isso, tem que ser muito bem adaptado antes do processo de produção para ser bem específico e eliminar o inseto-praga que se pretende controlar.
O armazenamento em condições que não sejam ideais e o transporte realizado de qualquer maneira podem comprometer a eficiência dos biodefensivos. O micoinseticida formulado em óleo emulsionável, por exemplo, dispensa a refrigeração, mas deve ser transportado em caminhão-baú para evitar a exposição ao sol.
Monitoramento
Como em qualquer tática de controle de pragas, o monitoramento é fundamental. É preciso conhecer o inseto-praga e seus inimigos naturais, presentes na natureza independente da ação do homem. A Embrapa disponibilizou gratuitamente para download (para o sistema operacional Android) o Guia InNat, um aplicativo para dispositivos móveis que auxilia no reconhecimento dos inimigos naturais de pragas agrícolas.
Outra medida é acompanhar a população do inseto-praga para que se saiba a hora certa de aplicar o produto. Quando a população do inseto é muito pequena e não está causando prejuízo econômico, não é necessário realizar aplicações. O inseto só passa a ser considerado praga quando passa a provocar prejuízo econômico.
Há pragas que requerem o monitoramento semanal ou mensal, dependendo da recomendação pela pesquisa científica. O início da manhã e o final da tarde, quando os insetos podem ser mais facilmente visualizados, são os horários ideais para amostragens mais precisas – nos horários com temperatura mais elevada, eles normalmente se escondem do sol forte. É importante, ainda, fazer as amostragens sempre no mesmo horário.
Aplicação
Quanto à aplicação dos produtos biológicos (e também dos químicos), um dos principais itens a serem observados é a dose indicada pelo fabricante. Se o produtor utilizar uma dose menor que a recomendada no intuito de economizar produto, o biodefensivo, da mesma forma que o produto químico, não funcionará adequadamente. É como o caso do médico que prescreve uma medicação para ser administrada a cada oito horas e o paciente só o faz uma vez ao dia – a dose será menor e o medicamento não fará o efeito desejado.
Além de ter que ser usado na dose recomendada, o produto biológico deve ser de alta qualidade. Produtos à base de fungos ou de bactérias precisam estar viáveis, ou seja, em ótimas condições de causarem a doença no inseto-praga que se quer controlar. A viabilidade precisa estar, geralmente, acima de 80%, índice que deve ser garantido pelo fabricante e verificado em laboratórios credenciados pelo MAPA.
Escolhido o produto adequado e definido o momento exato para aplicá-lo, o produtor deve, ainda, atentar-se para o uso correto da tecnologia de aplicação. Não adianta ter o melhor biodefensivo, a melhor formulação e um agente biológico bem virulento se a aplicação for malfeita – nesse caso, todo o investimento será jogado fora.
É possível realizar um ensaio preliminar simples e de baixo custo para calibrar o equipamento pulverizador antes da aplicação do produto biológico ou químico. Basta utilizar água pura e papel sensitivo à água, disponível nas revendas de produtos agropecuários ou na internet. O papel amarelo muda para a cor azul onde houver contato com produtos à base de água.
No ensaio, pedaços do papel são colocados na lavoura, nos mesmos locais onde a praga tem preferência, devendo receber, no mínimo, entre 20 e 30 gotas por cm² para confirmar a aplicação da quantidade adequada do produto. Se a quantidade de gotas por cm² for inferior a essa faixa, significa que a regulagem do pulverizador não está adequada e que o produto seria aplicado em quantidade insuficiente para controlar a praga. Quantidades excessivas de gotas, por outro lado, indicam desperdício do produto.
Assim como para os produtos químicos, também vale a recomendação de aplicar os biodefensivos nos horários de temperatura mais amena e com menos sol. O ideal é proceder as aplicações no final da tarde, durante a noite ou ao amanhecer.
Iniciantes
Para quem deseja iniciar o uso do controle biológico, são importantes alguns esclarecimentos sobre o funcionamento, o tipo de controle e como ele deve ser aplicado. O ideal é que o produtor comece numa pequena área da propriedade para que não corra riscos desnecessários, já que ainda não está familiarizado com a tecnologia.
Por exemplo, se a área de lavoura é de 500 hectares, ele poderia começar com 50 hectares, mantendo os procedimentos habituais nos outros 450 hectares. Ao final da colheita, ele poderá comparar as produtividades. Se forem as mesmas, o resultado já terá sido positivo, pois houve manutenção da produtividade na área com controle biológico sem causar prejuízos ao meio ambiente nem deixar resíduos nos alimentos.
Recomenda-se, portanto, que o produtor utilize o controle biológico aos poucos, até porque não é apenas ele quem precisa se familiarizar com a tecnologia, mas também os empregados da fazenda que serão os responsáveis pelas aplicações no dia a dia. Assim, no ano seguinte, o produtor exemplificado pode passar a usar o controle biológico em 100 hectares, aumentando a área de utilização ao longo das safras até alcançar a área total cultivada.
Informações
O controle biológico pode ser feito em pequenas, médias e grandes áreas com o mesmo procedimento e tomando-se os mesmos cuidados. No Brasil, o maior volume de vendas de produtos biológicos é atualmente destinado a grandes e médios produtores. A participação menos expressiva dos pequenos produtores no mercado de biodefensivos se deve mais à falta de informação que à menor capacidade financeira. Geralmente, grandes e médios produtores sabem onde buscar a tecnologia e contam com o auxílio de profissionais capacitados. No caso dos pequenos produtores, a tecnologia é acessada por meio de serviços de assistência técnica e extensão rural, nem sempre disponíveis.
Com relação à escolha do produto adequado, uma fonte confiável de informações na internet é a plataforma Agrofit (agrofit.agricultura.gov.br), do MAPA. O Agrofit reúne informações atualizadas sobre todos os produtos biológicos e químicos registrados, como indicação de uso, dose recomendada, técnicas de aplicação e as bulas.
Quanto mais o produtor buscar esclarecimentos e capacitações, maior será sua capacidade de escolha dos melhores produtos e nas melhores formulações. Às vezes, pagar um pouco mais por uma formulação superior vale mais a pena que comprar um produto mais barato, com formulação inferior.
Por fim, cabe uma observação quanto ao uso de produtos “caseiros”, produzidos nas fazendas, e não em fábricas especializadas, que contam com ambiente isolado, condições assépticas e pessoal treinado. Geralmente, esses produtos apresentam contaminação, principalmente por bactérias, devido a condições inadequadas de assepsia do local de produção do agente biológico (fungos, bactérias ou vírus, entre outros).
É um modismo desaconselhável, pois apesar de o produto caseiro até poder funcionar razoavelmente nas primeiras aplicações, a contaminação no local da produção tende a aumentar, enquanto o resultado no campo tende a ser zero, sem falar no aumento do risco da ocorrência de bactérias causadoras de doenças no ser humano, como diarreia e até endocardite, conforme já comprovado em pesquisas científicas conduzidas pela Embrapa.
Ao seguir essas recomendações e buscar mais conhecimento, o produtor estará contribuindo para o aumento do uso adequado do controle biológico de insetos-praga, beneficiando toda a sociedade. No longo prazo, a adoção desse método pode levar à diminuição dos resíduos químicos nos alimentos, da contaminação do meio ambiente e das intoxicações dos trabalhadores rurais.
*Roberto Alves é pesquisador da Embrapa Cerrados