Isabelle Rollat, diretora de Inovação Sustentável e EcoDesign do Grupo L’Oréal R&I – Foto: Beagle Imagens
POR – OSCAR LOPES*, PUBLISHER DE NEO MONDO
Em entrevista exclusiva, Isabelle Rollat, diretora de Inovação Sustentável e EcoDesign do Grupo L’Oréal R&I, fala como a sustentabilidade está incorporada ao processo de desenvolvimento de novos produtos
Nos últimos anos, a indústria da beleza tem enfrentado o desafio de inovar em um mundo que exige cada vez mais responsabilidade ambiental. O Grupo L’Oréal, líder mundial no setor, está na vanguarda dessa transformação, com iniciativas pioneiras que integram sustentabilidade e ecodesign em todas as fases de desenvolvimento de seus produtos.
Para entender melhor como essas ações estão moldando o futuro da beleza, conversamos com Isabelle Rollat, diretora de Inovação Sustentável e EcoDesign da L’Oréal R&I durante o 34º Congresso IFSCC (International Federation of Societies of Cosmetic Chemists) 2024, em Foz do Iguaçu (PR), entre os dias 14 e 17 de outubro.
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Nesta entrevista exclusiva, Isabelle compartilhou detalhes sobre as soluções sustentáveis do Grupo L’Oréal para a indústria cosmética e como o ecodesign e a economia circular estão sendo aplicados na prática, inclusive no Brasil. Ela explica ainda como a inovação sustentável é fundamental para reduzir o impacto ambiental e atender às expectativas dos consumidores, revelando os desafios e oportunidades de criar uma beleza mais sustentável para o futuro.
Durante o Congresso IFSCC, vocês compartilharam soluções sustentáveis para a indústria de cosméticos. Você pode me dar mais detalhes sobre como o conceito de inovação sustentável funciona na prática?
A inovação sustentável significa inovar de forma que reduzamos nosso impacto ambiental. Isso envolve olhar para o ciclo de vida completo do produto, desde a extração das matérias-primas até a transformação, formulação, uso e descarte.
Cada etapa oferece uma oportunidade de inovar de forma sustentável. Por exemplo, podemos melhorar a forma como extraímos matérias-primas, buscando fontes renováveis e sustentáveis. Estamos trabalhando com ingredientes como o babaçu e a rosa.
Antes, era comum usar petroquímicos por serem eficientes, acessíveis e fáceis de reproduzir. Agora, estamos substituindo matérias-primas de origem petroquímica por alternativas de base biológica sempre que possível, mantendo o desempenho esperado pelos consumidores. No entanto, nem sempre é possível substituir diretamente alguns ingredientes, como os polímeros catiônicos ou silicones usados em cosméticos.
E o que acontece quando não é possível substituir matérias-primas?
Nesses casos, precisamos encontrar novas soluções, como usar óleos orgânicos ou ácidos graxos para proporcionar a mesma suavidade e desembaraço aos cabelos, por exemplo, que são essenciais para muitas consumidoras, especialmente aqui no Brasil, onde cabelos longos e cacheados exigem cuidados especiais.
Sustentabilidade, muitas vezes, surge da necessidade de inovar com novas matérias-primas, o que nos leva a criar algo diferente e, às vezes, até melhor. Também trabalhamos para reduzir o impacto em outras áreas, como na fase de enxágue dos produtos. Queremos desenvolver fórmulas que sejam mais fáceis de enxaguar, usando menos água e energia, ou até criar rotinas sem necessidade de enxágue, como condicionadores leave-in. Cada inovação tem o objetivo de diminuir o impacto ambiental e, ao mesmo tempo, atender às expectativas dos consumidores.
Essa mentalidade de inovação contínua para reduzir o impacto ambiental está no centro do nosso trabalho. É uma transformação que exige uma nova forma de pensar, sempre buscando maneiras de fazer mais com menos impacto.
Como o ecodesign está sendo aplicado ao desenvolvimento de novos produtos no Brasil e o que podemos esperar em termos de inovação sustentável nos próximos anos?
O ecodesign, para nós, é baseado em diferentes dimensões: clima, água, biodiversidade e recursos. E isso é aplicado em todo o mundo.
Nós medimos o ecodesign com o SPOT, a ferramenta de otimização de produtos sustentáveis, que se baseia na análise do ciclo de vida e nos fatores de impacto que medimos para toda a fórmula do produto, embalagem, fabricação e distribuição.
Quando lançamos um produto, ele precisa ser aprovado pelo SPOT. Isso significa que o produto deve ter um desempenho melhor em termos de sustentabilidade do que o produto anterior, ou ser melhor do que a referência, que é a versão clássica do produto no mercado. “Melhor” significa menor impacto ambiental.
Até o momento, somos os únicos que fazem isso, pelo que eu sei, mas sabemos que outras indústrias também estão trabalhando nisso. Por exemplo, apresentei o SPOT para a indústria farmacêutica, que tem desenvolvido iniciativas nesse sentido em nível global.
No Brasil, a avaliação é a mesma, mas os tipos de produtos que faremos serão diferentes. Isto é, o cabelo brasileiro não é o mesmo que em outros lugares, e usamos alguns ingredientes específicos do País, que vêm da biodiversidade local. Mas o processo e a estratégia de ecodesign são os mesmos.
Em termos de design e formulação de produtos, como vocês têm usado a ciência e a tecnologia para garantir que os cosméticos atendam à diversidade de tipos de pele e cabelo dos consumidores brasileiros?
A L’Oréal é uma empresa com mais de 100 anos. Temos trabalhado com consumidores há mais de um século. Toda vez que entramos em um novo mercado, a estratégia do Grupo L’Oréal é observar as pessoas, ouvir os consumidores, entender o que eles querem, o tipo de pele que têm, o tipo de cabelo, e então projetar produtos que atendam às expectativas dos consumidores. Nós testamos os produtos nos países em que atuamos. Temos centros de pesquisa em diferentes regiões do mundo para estar próximos dos consumidores e entendê-los melhor.
Temos pesquisa avançada em diferentes países, incluindo a França, que estuda os diversos tipos de cabelo e pele. Isso faz parte do nosso DNA. Eu diria que, em termos de pesquisa, os dois grandes pilares do Grupo L’Oréal são os ingredientes cosméticos, e, no início, isso era mais voltado para a química do que para a biologia. Agora, estamos migrando para matérias-primas de base biológica, biotecnologia e outras inovações.
Nosso foco são os consumidores, consumidores, consumidores, sempre. Estou no Grupo L’Oréal há mais de 30 anos, e meus chefes sempre me perguntaram: O que os consumidores querem? O que os consumidores acham do seu produto? Como você relaciona isso com a sustentabilidade?
No início, não havia essa relação. Agora, concebemos e integramos a sustentabilidade no mesmo nível das necessidades dos consumidores e da segurança, que sempre vem em primeiro lugar. A segurança está acima de tudo, e a sustentabilidade agora anda de mãos dadas com as expectativas dos consumidores, os custos, as regulamentações etc.
O Grupo L’Oréal tem acelerado os esforços em direção à economia circular. Como essa estratégia está sendo aplicada à cadeia de valor no Brasil e quais são os principais desafios e oportunidades que vocês identificam?
Temos duas formas de trabalhar a circularidade. A primeira é focar na circularidade das embalagens, e a outra é trabalhar com a circularidade dos ingredientes. A parte mais fácil é a das embalagens, porque não somos os únicos a impulsionar a circularidade nesse aspecto. Neste caso, reciclabilidade e refil são algo em que estamos trabalhando, assim como todos os nossos fornecedores e até mesmo os concorrentes. Toda a indústria está trabalhando nisso em todo o mundo.
Quando falamos de ingredientes, no entanto, a circularidade está mais relacionada aos coprodutos, e começa a envolver captura de carbono. Coprodutos são produtos secundários criados durante um processo de fabricação. Eles já são conhecidos há muito tempo, não é uma novidade, mas queremos intensificar essa prática em diferentes setores. Um grande exemplo no Brasil é a cana-de-açúcar, que mostra bem o que pode ser feito em termos de circularidade.
O programa L’Oréal Para o Futuro visa transformar a maneira como a indústria cosmética lida com os desafios ambientais e sociais. Como você enxerga o papel da inovação sustentável no futuro da beleza, e quais são as maiores tendências que devemos esperar?
Acredito que a sustentabilidade está diretamente ligada ao futuro da beleza.
Os ingredientes naturais ou de origem natural, novas formas de cultivo sustentável, como a agricultura regenerativa, são grandes tendências. Também podemos esperar por novas maneiras de produção, como a agricultura vertical, o cultivo de microalgas, hidroponia e outros métodos que respeitam o meio ambiente. Essas formas inovadoras de produzir biomassa são fundamentais.
Acredito também que teremos que trabalhar a gestão da água, especialmente na forma como enxaguamos nossos produtos no futuro.
Talvez o verdadeiro futuro dos cosméticos seja a circularidade total. Quero dizer, reutilizar os produtos depois de enxaguá-los, por exemplo, reciclando os ingredientes para criar produtos. Isso está muito distante no futuro, e ainda não sabemos exatamente como fazer, mas é uma possibilidade.
Outro ponto muito importante será oferecer aos consumidores produtos que os ajudem a se adaptar às mudanças climáticas e às novas condições do planeta. Condições de calor, umidade, perda de biodiversidade – e o aumento de certas espécies, como mosquitos, por exemplo, além da exposição ao sol. Todas essas adaptações serão essenciais.
*Oscar Lopes, publisher de NEO MONDO, viajou para Foz do Iguaçu a convite do Grupo L’Oréal no Brasil.