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Entre a ciência e o território, a difícil arte de conservar o Brasil que ainda resiste

Escrito por Neo Mondo | 5 de maio de 2026

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Ciência: Araras-azuis-de-lear no mandacaru, diante dos paredões de arenito do Raso da Catarina — cada indivíduo aqui é dado, história e argumento vivo contra o esquecimento - Foto: Cris Laurito-@fotografules

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Quando Jorge Velloso Vianna apareceu na noite de abertura da expedição ao Raso da Catarina para apresentar o trabalho da Fundação Biodiversitas ao grupo de jornalistas, havia algo específico na forma como ele falou. Não foi a linguagem do relatório de sustentabilidade nem a do pitch institucional. Foi a fala de alguém que conhece um território por dentro — que sabe o nome das espécies, os gargalos do financiamento, as contradições entre o tempo da ciência e o tempo da política, e que carrega tudo isso com uma tranquilidade que só vem de décadas de trabalho real em campo.

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Velloso é superintendente da Fundação Biodiversitas, organização fundada em 1989 que acumula mais de três décadas de atuação na conservação da biodiversidade brasileira — com presença no Cerrado, na Mata Atlântica e, de forma especialmente notável, na Caatinga, onde coordena a proteção da arara-azul-de-lear na Estação Biológica de Canudos. A fundação nasce da ciência e opera no território. E parte do que tornou possível essa operação durante tanto tempo tem um nome: Seguros Unimed, parceira da Biodiversitas desde 2019 e financiadora das quatro reservas permanentes mantidas pela fundação — Mata do Sossego, Mata do Passarinho, Ninho da Tartaruga e a própria Estação Biológica de Canudos. A seguradora não chegou quando a arara-azul-de-lear virou símbolo. Chegou quando ainda era apenas um projeto de longo prazo que precisava de quem acreditasse antes dos resultados.

foto de jorge velloso, superintendente da fundação biodiversitas, ciência e preservação juntas.
Jorge Velloso Vianna, superintendente da Fundação Biodiversitas, no Raso da Catarina — o chão vermelho da Caatinga como sala de aula, laboratório e campo de batalha. Aqui, ciência não é abstração. É presença - Foto: Oscar Lopes/Neo Mondo

A entrevista que segue explora exatamente a tensão entre ciência e território — e o que significa gerir uma instituição que precisa traduzir conhecimento em ação concreta quando o tempo da natureza, o tempo da política e o tempo do mercado raramente coincidem.

Jorge, a Biodiversitas nasce da ciência, mas opera no território — e o território brasileiro é, ao mesmo tempo, potência ecológica e fronteira de pressão econômica. Na prática, como se governa uma instituição que precisa tomar decisões onde o tempo da natureza, o tempo da política e o tempo do mercado nunca coincidem?

Gerir a Fundação Biodiversitas exige a habilidade de harmonizar cronogramas distintos sob um princípio inegociável: o nosso principal cliente é o meio ambiente. Embora operemos em diálogo com a iniciativa privada e o poder público, nossa tomada de decisão é balizada pelo tempo da natureza e pelo rigor científico.

​Na prática, isso significa que os investimentos e as parcerias são meios para um fim — a proteção efetiva de espécies e a integridade de biomas. Nossa governança atua para garantir que as pressões econômicas ou oscilações políticas não sobreponham a urgência biológica. Entregamos ao nosso "cliente" (a natureza) a salvaguarda de seu patrimônio, e aos nossos parceiros, a segurança de que seu apoio está vinculado a resultados de conservação mensuráveis e tecnicamente sólidos.

Ao longo de mais de três décadas, a fundação ajudou a transformar conhecimento científico em ação concreta de conservação. Em que momento essa tradução — entre ciência e decisão — se torna o principal ativo estratégico da Biodiversitas, e não apenas uma de suas competências?

A ciência deixa de ser apenas competência e se torna ativo estratégico no momento em que os dados produzidos pela Fundação servem como bússola para políticas públicas e investimentos privados de alto impacto. Não apenas geramos conhecimento; nós reduzimos as incertezas para quem decide sobre o território. Esse "poder de tradução" é o que nos diferencia.

Existe uma mudança silenciosa em curso: biodiversidade deixou de ser apenas um tema ambiental e passou a ser variável econômica, geopolítica e até reputacional. A gestão da Biodiversitas já sente essa inflexão? O Brasil está começando a entender o valor sistêmico do que ainda tem?

Sim, a inflexão é real. A biodiversidade saiu da "coluna social" do meio ambiente para o centro do balanço financeiro e da diplomacia climática. A Fundação já opera sob essa visão de sociobioeconomia. O Brasil começa a entender esse valor, mas ainda falta a transição da percepção para a implementação de mecanismos financeiros que remunerem adequadamente os serviços ecossistêmicos.

A experiência da fundação mostra que proteger uma espécie é, muitas vezes, reorganizar uma paisagem inteira — ecológica, social e econômica. O que essas experiências ensinaram sobre escala? O Brasil ainda pensa conservação em fragmentos enquanto o problema já é sistêmico?

A conservação por fragmentos é insuficiente diante de uma crise climática global. Aprendemos que proteger a Arara-azul-de-lear, por exemplo, exige o manejo da paisagem da Caatinga e a inclusão das comunidades locais. O Brasil ainda patina na escala; precisamos transitar de projetos isolados para "corredores de conservação e desenvolvimento", onde a biodiversidade seja o motor da economia regional.

Gerir uma organização como a Biodiversitas implica lidar com uma tensão permanente: produzir impacto real no campo e, ao mesmo tempo, sustentar institucionalidade, financiamento e governança. Onde está hoje o ponto mais crítico desse equilíbrio?

O ponto mais crítico é a perenidade do financiamento. Sustentar uma estrutura técnica de excelência e manter quatro reservas privadas exige um modelo de governança que atraia o investimento privado com transparência total. O desafio é mostrar que o custo da conservação é, na verdade, um investimento na mitigação de riscos globais.

Em um cenário de crise climática e erosão da biodiversidade, o conceito de conservação começa a se deslocar — de proteção para regeneração, de contenção para redesenho de sistemas. A Biodiversitas já opera nessa nova lógica ou o Brasil ainda está preso a uma visão mais defensiva da agenda ambiental?

Embora o debate global avance para o conceito de regeneração, na Fundação Biodiversitas entendemos que, em um cenário de extinção em massa acelerada pela atividade humana, a proteção rigorosa de áreas remanescentes permanece como a prioridade absoluta. Não há regeneração possível se perdermos os bancos genéticos e os ecossistemas originais que ainda resistem. Por isso, a manutenção e a vigilância de reservas, sejam elas públicas ou privadas, são o alicerce de nossa estratégia.

​Entretanto, a escala da crise atual exige que a conservação deixe de ser uma ação isolada de "cercamento" e passe a ser um exercício de governança integrada. O poder público não possui, isoladamente, a capilaridade ou os recursos para reverter o declínio da biodiversidade. É aqui que a sociedade civil organizada e a iniciativa privada assumem um papel protagonista.

​Nossa atuação foca em conectar pessoas e instituições em torno de objetivos comuns. A proteção de uma espécie, como a arara-azul-de-lear, só se torna sistêmica quando aliamos a pesquisa científica à mobilização social e ao investimento privado consciente. Operamos em uma lógica de rede, onde a governança coletiva permite que a proteção de áreas protegidas dialogue com o desenvolvimento socioeconômico regional. Proteger o território hoje significa, acima de tudo, gerir as tensões humanas sobre ele por meio de uma cooperação técnica e multissetorial.

Depois de décadas dedicadas à conservação, o que mudou mais profundamente na sua forma de ver o Brasil? E, olhando para frente, você acredita que ainda estamos no tempo de preservar — ou já entramos, definitivamente, no tempo de evitar perdas irreversíveis?

Após décadas dedicadas à causa ambiental, minha visão sobre o Brasil tornou-se mais pragmática e, simultaneamente, mais urgente. O que mudou profundamente foi a compreensão de que a conservação não se faz apenas com cercas, mas com profundidade técnica e responsabilidade educacional. Como bem defendia o mestre e um dos nossos fundadores, o Professor Angelo Machado, é preciso "conhecer para preservar". Este conceito vai muito além do slogan: ele define o rigor profissional da nossa abordagem.

​Para que a conservação seja perene, ela precisa deixar de ser um ato intuitivo e passar a ser uma ação científica e educativa. O conhecimento técnico é o que permite que a sociedade e as instituições se apropriem do valor da biodiversidade. Quando documentamos o crescimento da população de uma espécie como a arara-azul-de-lear, estamos produzindo o material pedagógico que transforma a percepção do território. É a transição do "olhar" para o "enxergar" a importância sistêmica da vida.

​Sobre o tempo da ação, não acredito que estejamos mais no estágio de apenas "preservar" o que está intacto. Entramos, definitivamente, na era da gestão da resiliência. Estamos no tempo de evitar perdas irreversíveis por meio de uma conservação profissionalizada, onde a educação ambiental é o fio condutor que conecta a pesquisa de campo à tomada de decisão no setor privado e público. Se não conhecemos a complexidade de um bioma como a Caatinga, não seremos capazes de defendê-lo das pressões econômicas.

​Finalizo parabenizando o Neo Mondo por este espaço. Veículos que tratam a sustentabilidade com esta profundidade técnica e editorial prestam um serviço indispensável à sociedade brasileira, pois democratizam o conhecimento — o primeiro passo, como diria Angelo Machado, para que qualquer esforço de preservação seja vitorioso.

Arara-azul-de-lear em voo rasante pelos paredões de arenito do Raso da Catarina — a ciência passou décadas contando cada indivíduo como este para que hoje não precisemos mais contá-los como relíquia - Foto: Cris Laurito-@fotografules

Conversas como essa têm o mérito de tornar visível o que normalmente fica implícito no jargão da conservação: que proteger biodiversidade no Brasil não é um problema científico mal resolvido — é um problema de governança, de financiamento de longo prazo, de narrativa pública e, fundamentalmente, de decisão política. A Biodiversitas sobreviveu a mais de três décadas de ciclos econômicos, mudanças de governo e inflexões de agenda precisamente porque entendeu desde cedo que ciência sem institucionalidade é dado sem destino. E porque encontrou, ao longo do caminho, parceiros dispostos a operar na mesma lógica temporal — como a Seguros Unimed, que começou a apoiar o projeto quando comprometer-se com conservação de longo prazo ainda era exceção, não estratégia de comunicação.

O que a expedição ao Raso da Catarina tornou concreto, e que a entrevista com Velloso aprofunda, é que o Brasil ainda tem tempo — mas está ficando sem margem. A arara-azul-de-lear saiu de 50 indivíduos para mais de 2.200 não por acidente, mas por escolhas sustentadas durante décadas, financiadas com consistência e ancoradas em ciência verificável. A pergunta que persiste não é se o país tem capacidade técnica para repetir esse feito em outras espécies e outros biomas. É se tem disposição institucional — e parceiros com horizonte suficiente — para sustentar esse tipo de compromisso quando ele ainda não rendeu manchete.

A resposta de Velloso ao longo dessa conversa é otimista — com rigor. E talvez seja exatamente essa a combinação que o Brasil mais precise ouvir agora.

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