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Escrito por Neo Mondo | 22 de março de 2026
Água que escorre entre os dedos — A crise hídrica não é apenas sobre escassez. É sobre a forma como escolhemos — ou não — cuidar do que ainda temos - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - LÍGIA CAMARGO*, COLUNISTA DO NEO MONDO
Especial Semana Mundial da Água 2026
Se tem uma coisa que aprendi trabalhando na interface entre empresas, territórios e ecossistemas é que a água sempre revela algo que os relatórios não conseguem capturar completamente.
Os dados são fundamentais — mostram o tamanho do problema, orientam decisões, ajudam a medir avanços. Mas, na prática, a crise hídrica se manifesta de um jeito mais complexo — e muitas vezes mais silencioso — do que qualquer indicador traduz.
Ela aparece nas conversas com produtores que já não reconhecem o comportamento das chuvas. Na insegurança de comunidades que dependem de nascentes cada vez mais instáveis. E, dentro das empresas, na percepção crescente de que garantir água deixou de ser um problema operacional para se tornar uma questão de continuidade do negócio.
Talvez por isso o Dia Mundial da Água, para mim, tenha deixado de ser apenas uma data simbólica. Ele é um convite a olhar com mais honestidade para o que está mudando diante dos nossos olhos.
No começo da minha trajetória, eu também enxergava a água principalmente como um recurso a ser gerido com eficiência. E sim, isso continua sendo essencial. Reduzir consumo, investir em tecnologia, estabelecer metas claras — tudo isso segue sendo parte do caminho.
Mas a experiência foi mostrando, rapidamente, que eficiência resolve só uma parte da equação — e que a outra parte mora fora dos muros da fábrica.
A água não respeita os limites da fábrica. Ela circula por bacias, conecta territórios, sustenta relações econômicas e sociais inteiras. E quando ela falta na torneira, o sistema está colapsado muito antes disso. E foi nesse ponto que minha forma de olhar para o tema mudou.
Em Itu (interior de SP), por exemplo, onde acompanhamos de perto o desafio da escassez, tornou-se evidente que não existe segurança hídrica possível sem olhar para o território como um todo. Não se trata apenas de usar menos água dentro da operação, mas de entender como ela é produzida, retida e distribuída pelo território.
Restaurar áreas degradadas, apoiar agroflorestas, fortalecer microbacias — tudo isso deixou de ser "projeto ambiental" e passou a ser estratégia de negócio no sentido mais amplo da palavra.
Em Passos (MG), o aprendizado foi outro — e igualmente importante: não existe segurança hídrica sem o produtor rural. São eles que estão na linha de frente da conservação das nascentes, muitas vezes assumindo sozinhos um custo que é coletivo.
Quando passamos a reconhecer esse custo, inclusive financeiramente, algo se transforma. A agenda ambiental deixa de ser uma obrigação e passa a fazer sentido também do ponto de vista econômico.
Ao longo do tempo, fui entendendo que a crise hídrica não é apenas sobre escassez. É sobre desequilíbrio. Sobre a forma como nos relacionamos com os territórios — e sobre a desconexão, ainda muito presente, entre decisões empresariais e a realidade dos ecossistemas.
Dentro das empresas, essa mudança de percepção também começa a ganhar espaço. A água, que antes aparecia como um tema técnico, hoje se aproxima das decisões estratégicas. E não por altruísmo, mas por necessidade.
Num mundo pressionado pelas mudanças climáticas, ignorar a água é assumir um risco direto para o próprio negócio.
Ao mesmo tempo, uma das coisas mais potentes que essa agenda me mostrou é que nenhuma empresa resolve isso sozinha. A água exige colaboração real — entre setores, entre campo e cidade, entre quem produz, quem consome e quem regula.
Se eu tivesse que resumir o principal aprendizado dessa trajetória, diria que cuidar da água deixou de ser sobre "fazer menos impacto" e passou a ser sobre regenerar, reconectar e redistribuir responsabilidades.
O Dia Mundial da Água, então, deixa de ser apenas uma data para celebrar avanços. Ele se torna um lembrete — de que ainda estamos longe de equilibrar essa conta.
E talvez o convite mais importante seja esse: sair do automático. Parar de tratar a água como algo garantido e começar a enxergá-la como aquilo que ela realmente é — a base invisível de tudo que fazemos.
Porque, no fim, a crise hídrica não é só sobre falta de água. É sobre a forma como escolhemos — ou não — cuidar dela.
Este artigo faz parte do especial Semana Mundial da Água, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre os recursos hídricos do planeta e o papel do Brasil nessa equação global.
Lígia Camargo é apaixonada por sustentabilidade e acredita no poder das empresas como agentes de transformação. Como Diretora de Sustentabilidade do Grupo HEINEKEN, atua para unir propósito, impacto positivo e engajamento das pessoas em torno de um futuro mais consciente.

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