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A bolsa que avalia as outras passou a ser avaliada pelo mundo

Escrito por Neo Mondo | 5 de maio de 2026

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Bolsa que mede o mercado agora é medida pelo mundo — e responde com consistência, método e credibilidade diante do capital global - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - ELENI LOPES, DIRETORA DE REDAÇÃO

Desde 2005, a B3 opera como árbitro da sustentabilidade corporativa brasileira. Foi ela quem criou o ISE B3 — iniciativa pioneira na América Latina e quarto índice de sustentabilidade do mundo —, a régua pela qual centenas de companhias listadas são medidas anualmente. Agora, a medidora é medida pelos outros. Na edição de 2026 do Dow Jones Best in Class Index, a bolsa do Brasil ingressa na carteira global do principal benchmark de sustentabilidade corporativa administrado pela S&P Global, tornando-se a única bolsa da América Latina a ocupar essa posição.

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A seleção seguiu processo rigoroso: mais de 3.600 companhias foram submetidas ao Corporate Sustainability Assessment (CSA), avaliação conduzida pela S&P Global que analisa critérios como gestão de riscos, ética, diversidade, transparência e governança ambiental. Das 321 empresas que compõem a carteira global de 2026, a B3 é uma das 13 brasileiras presentes. Entre bolsas de valores do hemisfério sul, está sozinha.

A entrada na carteira global não é um salto isolado. A companhia participa ativamente do Corporate Sustainability Assessment da S&P Global desde 2022 e atingiu sua melhor pontuação da série histórica em 2024. É uma progressão que obedece a uma lógica acumulativa: da carteira de Mercados Emergentes do Dow Jones Best Index — na qual a B3 se mantém pelo segundo ano consecutivo — à carteira global, o percurso revela uma instituição que levou a sério o que pregava para o mercado. O ISE B3, que ao longo de vinte anos buscou criar um ambiente de investimento compatível com as demandas do desenvolvimento sustentável, acabou por moldar também as práticas de quem o gestionava.

Há uma dimensão estrutural nesse reconhecimento que vai além do simbolismo. Investidores institucionais ao redor do mundo utilizam os índices da família Dow Jones como filtro de qualidade para identificar empresas preparadas para gerir riscos sistêmicos de longo prazo. Para uma bolsa de valores — cujo produto central é a confiança —, figurar nessa carteira equivale a uma validação perante o capital global que ela própria busca atrair para o mercado brasileiro. A lógica é circular, e deliberadamente assim: quanto mais a B3 demonstra coerência entre o que exige das listadas e o que pratica internamente, mais credível se torna o ecossistema como destino de investimento responsável.

"Temos orgulho de ser a única bolsa latino-americana na carteira global do Dow Jones Best in Class Index, um reconhecimento que amplia nossa visibilidade internacional e reforça a confiança na nossa gestão alinhada às melhores práticas ESG", afirma Ana Buchaim, vice-presidente de Pessoas, Marketing, Comunicação, Sustentabilidade e Investimento Social da B3. A executiva aponta ainda o que poderá ser o próximo marcador desta trajetória: a publicação voluntária, ainda em 2026, do relatório de informações financeiras de sustentabilidade e clima alinhado às normas IFRS S1 e S2 — padrão internacional do International Sustainability Standards Board que, pela norma da Comissão de Valores Mobiliários, só será obrigatório para empresas de capital aberto a partir de 2027.

A B3 é a quinta empresa de capital aberto brasileira a antecipar essa divulgação e a primeira do mercado financeiro. A decisão tem, mais uma vez, o caráter de exemplo que uma infraestrutura de mercado pode exercer: desde 2024, a bolsa desenvolve trilhas de capacitação para apoiar companhias listadas no processo de entendimento e adaptação às novas normas, com participação média de 225 profissionais de 84 empresas nos encontros realizados em 2025. Mobilizar o mercado enquanto percorre ela mesma o mesmo caminho é uma postura que distingue instituições que lideram pelo exemplo daquelas que lideram pelo regulamento.

O que o ingresso no Dow Jones Best in Class Index revela, em última análise, é menos um prêmio e mais uma exigência renovada. A B3 agora carrega, diante de investidores globais, o peso de sustentar a coerência que justificou sua inclusão. Para um mercado de capitais brasileiro que ainda busca projeção internacional consistente, isso representa tanto uma conquista quanto uma responsabilidade que não se governa com um comunicado.

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