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Terras raras: o que há debaixo do Cerrado

Escrito por Neo Mondo | 23 de abril de 2026

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Terras raras: complexo industrial da Serra Verde em Minaçu (GO), cercado pelo cerrado — ativo estratégico que migrou para o controle americano sem que o Brasil tivesse política para retê-lo - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

No alto do cerrado goiano, a 450 quilômetros de Brasília, a mina Pela Ema processa silenciosamente argilas iônicas que contêm quatro dos elementos mais disputados da geopolítica contemporânea: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. São os minerais que giram os motores de carros elétricos, orientam mísseis de precisão, fazem turbinas eólicas converterem vento em eletricidade e sustentam a infraestrutura física da inteligência artificial. Nenhuma outra operação fora da Ásia é capaz de produzi-los em conjunto, em escala comercial. Até a semana passada, essa singularidade pertencia ao Brasil. Agora pertence, em termos práticos, aos Estados Unidos.

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A empresa brasileira Serra Verde foi adquirida pela mineradora norte-americana USA Rare Earth em negociação avaliada em cerca de US$ 2,8 bilhões. O acordo prevê a aquisição de 100% da companhia — dona da mina e da planta de processamento Pela Ema, em Goiás — com pagamento de US$ 300 milhões em dinheiro e 126,8 milhões de novas ações da compradora. O fechamento está previsto para o terceiro trimestre de 2026, sujeito a aprovações regulatórias. Mas a natureza do negócio já está clara: não se trata de uma transação de mercado. Trata-se de um movimento de Estado.

A arquitetura financeira da operação revela sua lógica antes mesmo que qualquer executivo tome a palavra. Em fevereiro, a Serra Verde havia firmado um acordo de financiamento de US$ 565 milhões com a Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC), instrumento que inclui uma opção conferindo ao governo americano o direito de adquirir participação acionária minoritária na companhia. A USA Rare Earth, por sua vez, recebeu aportes de US$ 1,6 bilhão do governo Trump no início do ano — e Washington passou a deter cerca de 10% de suas ações. Soma-se a isso um contrato de offtake de 15 anos para a totalidade da produção inicial de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, por meio de um veículo capitalizado por agências do governo americano e por investidores privados, com pisos de preço que eliminam o risco de mercado para a compradora. O que se desenha não é uma empresa adquirindo outra. É Washington assegurando acesso soberano a uma reserva mineral estratégica localizada em território estrangeiro.

O contexto que torna essa manobra compreensível — e, do ponto de vista americano, inadiável — é a guerra que a China trava sobre o suprimento global de terras raras. Em abril de 2025, o Ministério do Comércio chinês introduziu restrições de exportação sobre sete elementos do grupo em retaliação às tarifas impostas pelo presidente Trump. Os controles abrangeram minerais e ímãs críticos para a produção de semicondutores, automóveis e equipamentos de defesa, deixando os Estados Unidos sem resposta imediata à perturbação. Especialistas são unânimes: Washington está a anos de distância de construir cadeia produtiva própria suficiente. A Serra Verde é, nesse quadro, a solução mais rápida disponível fora do eixo asiático — e, por ora, a única com a combinação de escala e diversidade mineralógica que Washington precisa.

A dimensão do ativo justifica o prêmio pago. A mina Pela Ema é o único produtor em escala fora da Ásia capaz de fornecer simultaneamente os quatro principais elementos magnéticos de terras raras. Segundo projeções da própria compradora, a Serra Verde deve responder por mais de 50% da oferta mundial de terras raras pesadas produzida fora da China até 2027. Fontes de mercado consultadas pela imprensa brasileira descrevem o negócio como uma convergência improvável de três fatores raramente reunidos num único ativo: escala de produção, relevância geopolítica e proteção comercial garantida por contrato. É essa tríade que transformou Minaçu num endereço estratégico para o Ocidente — e que explica por que Washington agiu antes que qualquer outro ator pudesse fazê-lo.

A velocidade dessa manobra é ilustrada por um episódio revelador, ocorrido ainda em novembro de 2025. Os Estados Unidos garantiram direitos sobre a produção da mina brasileira poucos dias antes de representantes da União Europeia planejarem negociar pelo mesmo suprimento. Stéphane Séjourné, vice-presidente executivo da Comissão Europeia para a estratégia industrial, relatou ao jornal holandês NRC que funcionários americanos fecharam o acordo três dias antes de sua visita programada ao Brasil: "Fomos informados de que os americanos haviam chegado, colocado dinheiro na mesa e comprado toda a produção até 2030." A Europa perdeu por não ter agido com a mesma determinação. O Brasil perdeu por não ter percebido, a tempo, que era possível perder.

A reação do governo federal chegou depois — e ainda não se consolidou como política concreta. O presidente Lula levantou publicamente preocupações sobre soberania e controle de recursos estratégicos. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou a apresentação de uma Política Nacional de Terras Raras, com a criação do Conselho Nacional de Política Mineral — instância responsável por autorizar qualquer alienação de ativos considerados sensíveis para o Estado. A bancada do PT, paralelamente, apresentou projeto para a criação da TerraBras, estatal destinada a gerir minerais críticos e garantir a soberania nacional sobre esses recursos. A proposta, legítima em sua motivação, chega depois que o ativo mais relevante já foi negociado — e enfrenta resistência no próprio Congresso, onde o relator do marco regulatório setorial rejeitou a inclusão de uma empresa estatal.

O que está em jogo é uma questão que o Brasil não consegue formular com clareza há décadas: a diferença entre ser dono de um recurso e ser capaz de extrair dele poder real. O país detém aproximadamente 23% das reservas mundiais conhecidas de terras raras — o segundo maior estoque do planeta — e nunca construiu uma cadeia industrial capaz de converter esse subsolo em soberania tecnológica ou econômica efetiva. A Serra Verde era a exceção que confirmava essa regra estrutural. Agora, ela a confirma por outro ângulo: mesmo a exceção foi exportada.

A venda deixa de ser uma transação bilionária e passa a simbolizar um dilema histórico do país — o controle sobre suas riquezas naturais e o papel do Estado na definição de um projeto nacional de desenvolvimento. O disprósio e o térbio extraídos de Minaçu irão compor sistemas de defesa americanos, veículos elétricos que circulam por Berlim e Tóquio, geradores eólicos instalados no Mar do Norte. O Brasil receberá royalties, impostos e empregos de extração — a parte menos sofisticada, menos rentável e mais ambientalmente exigente de toda a cadeia. É o mesmo modelo que o país prometeu superar quando descobriu petróleo no pré-sal. A diferença é que, desta vez, a janela para mudar a equação se fechou antes mesmo que o debate madurasse.

A mina Pela Ema continua operando no cerrado de Goiás. As argilas iônicas ainda são brasileiras. Mas as decisões sobre o que fazer com elas — onde processar, para quem vender, a que preço, com qual tecnologia associada — migraram para Dallas, onde a USA Rare Earth tem sede, e para Washington, onde seu maior acionista tem endereço.

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