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Data centers: a nova ameaça climática que a Big Tech não quer calcular

Escrito por Neo Mondo | 5 de março de 2026

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Data centers no centro do paradoxo climático da inteligência artificial: quanto mais a economia digital cresce, maior se torna o consumo de energia e água que sustenta essa infraestrutura invisível - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

A demanda de energia dos data centers deve dobrar até 2030. As emissões das grandes empresas de tecnologia crescem enquanto seus relatórios de sustentabilidade encolhem. E o mundo ainda não sabe como cobrar essa conta

Em algum momento dos últimos três anos, as maiores empresas de tecnologia do mundo deixaram de ser parte da solução climática para se tornarem, elas próprias, um problema de difícil equacionamento. A transição não foi anunciada. Ela aparece nas entrelinhas dos relatórios de sustentabilidade que Google, Microsoft, Meta e Amazon publicam anualmente — documentos cada vez mais elaborados na forma e cada vez mais constrangedores no conteúdo. O que esses relatórios mostram, quando lidos com atenção, é que a expansão acelerada da inteligência artificial está produzindo um paradoxo que a indústria ainda não consegue nomear sem se enrolar: as mesmas empresas que vendem IA como ferramenta de descarbonização estão emitindo carbono em ritmo crescente para existir.

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Os números são difíceis de ignorar. O Google revelou em seu relatório ambiental de 2025 que, apesar de ter reduzido as emissões dos seus data centers em 12% no ano anterior — uma conquista real, obtida com eficiência e energia limpa —, suas emissões totais continuaram crescendo, puxadas por um aumento de 22% nas emissões de escopo 3, que incluem toda a cadeia de fornecimento. O consumo de eletricidade da empresa cresceu 27% entre 2023 e 2024. A Microsoft, que prometeu ser carbono-negativa até 2030, registrou alta de 23% nas emissões totais em relação à sua linha de base de 2020 — e seu consumo de eletricidade quase triplicou no mesmo período, saltando de 10,8 para 29,8 milhões de megawatt-hora. Não há cenário plausível no qual essas trajetórias se curvem o suficiente nos próximos quatro anos para cumprir as metas que ambas as empresas declararam publicamente.

A raiz do problema é estrutural. Os data centers — as instalações físicas que abrigam os servidores onde a IA funciona — passaram a ser a principal variável de consumo energético da economia digital. Segundo a Agência Internacional de Energia, a demanda elétrica global desses centros deverá crescer de 460 terawatt-hora em 2024 para mais de 1.000 terawatt-hora em 2030 — um aumento superior a 100% em seis anos. Para ter noção de escala: os data centers americanos já consomem hoje o equivalente à demanda elétrica anual inteira do Paquistão. No estado de Virgínia, que se tornou o maior hub de data centers do mundo, essas instalações respondem por 26% de toda a eletricidade consumida. Em Dublin, capital da Irlanda e polo tecnológico europeu, esse número já chegou a 79% da eletricidade da cidade.

A IA é o acelerador dessa demanda. A IEA estima que, em 2024, os sistemas de inteligência artificial respondiam por cerca de 15% do consumo elétrico total dos data centers. Pesquisas independentes calculam que esse número pode ter chegado a 20% já ao fim daquele ano. Se o ritmo de expansão da infraestrutura de IA mantiver a trajetória atual, a IA poderá responder por quase metade do consumo elétrico dos data centers até 2030 — algo próximo da demanda média do Reino Unido. O motivo é simples: processar uma consulta em um sistema de IA generativa consome cerca de dez vezes mais energia do que uma busca convencional no Google. Treinar os modelos de linguagem de grande porte — aqueles por trás de sistemas como ChatGPT e Gemini — pode consumir mais energia do que a atividade anual inteira de uma pequena empresa de manufatura.

Há também a água. Dado frequentemente omitido nos debates sobre o impacto climático da IA, o consumo hídrico dos data centers é colossal. Os sistemas de refrigeração que impedem os servidores de superaquecer exigem volumes imensos de água. O Google reportou que seus data centers consumiram 27 bilhões de litros de água potável em 2024 — um crescimento de 28% em apenas um ano. Mais de 28% desse volume foi retirado de regiões com nível médio ou alto de estresse hídrico, segundo a própria empresa. Um estudo publicado em dezembro de 2025 na Cell Press estima que a pegada hídrica de todos os sistemas de IA globalmente pode ter chegado a 764 bilhões de litros naquele ano — em contexto de crise de abastecimento em múltiplas regiões do planeta.

A resposta das empresas a esse cenário tem sido uma combinação de investimento genuíno em energia limpa e contabilidade criativa. O Google contratou mais de 8 gigawatts de nova capacidade de geração renovável em 2024 — o maior volume anual da história da empresa. A Microsoft comprometeu 19 gigawatts de novos contratos de energia verde. Ambas investem em reatores nucleares modulares de pequeno porte, apostando que essa tecnologia estará disponível em escala comercial na segunda metade da década. São apostas reais, com dinheiro real. O problema é que a velocidade de expansão da demanda é maior do que a velocidade de descarbonização da oferta. E enquanto a lacuna persiste, os data centers são abastecidos pelo mix atual das redes elétricas — que ainda dependem de carvão e gás natural em larga escala.

A IEA projeta que, até 2030, o carvão e o gás natural combinados cobrirão mais de 40% do crescimento da demanda elétrica dos data centers no mundo. O carvão, especificamente, responde hoje por 70% da eletricidade consumida por data centers na China — onde parte expressiva dos chips e equipamentos de hardware utilizados pelas empresas americanas e europeias é fabricada. Esse dado raramente aparece nos relatórios de sustentabilidade das empresas, porque as emissões da cadeia de fornecimento são declaradas voluntariamente e medidas com metodologias que permitem subestimá-las. Uma análise publicada pela Policy Review em 2025 calculou que, se as emissões de escopo 3 da Microsoft fossem declaradas com base na intensidade carbônica real das redes elétricas onde a empresa opera — ao invés dos créditos de energia renovável comprados — as emissões totais da empresa em 2024 seriam da ordem de 25 milhões de toneladas de CO₂, não as 15,5 milhões reportadas oficialmente.

Existe uma camada adicional de opacidade que é ainda menos discutida: as emissões habilitadas. O Google afirma, em seu relatório ambiental de 2025, que cinco de seus produtos movidos a IA ajudaram terceiros a evitar 26 milhões de toneladas de CO₂ no ano anterior — via termostatos inteligentes, rotas de direção eficiente e sistemas de gestão de semáforos. Pode ser verdade. Mas a empresa não divulga as emissões que seus produtos habilitam na direção oposta: a energia consumida por algoritmos de otimização logística que aumentam o volume total de encomendas, os sistemas de recomendação que estimulam consumo e descarte, ou as ferramentas de exploração sísmica que identificam novos reservatórios de petróleo e gás para seus clientes corporativos.

Há, no entanto, uma distinção importante que os números globais tendem a apagar. A IA não é climaticamente neutra — mas também não é homogênea. Há uma diferença enorme entre o custo energético de treinar um modelo de linguagem de fronteira, operação que pode consumir tantos megawatt-hora quanto uma pequena cidade em dias de pico, e o custo de rodar um modelo já treinado para otimizar o despacho de energia em uma rede elétrica ou identificar padrões de degradação florestal em imagens de satélite. A questão não é se a IA deve existir, mas quem decide para que ela existe, que emissões são aceitáveis em troca de quais benefícios, e quem paga a conta quando o data center é construído numa região que depende de carvão para fechar o balanço elétrico.

Em 2025, Microsoft, Google, Amazon e Meta investiram juntos 320 bilhões de dólares em infraestrutura de IA — mais do que o dobro do que essas empresas investiram em 2023. Não há sinal de desaceleração. O que há, no horizonte de curto prazo, são regulações europeias de eficiência para data centers entrando em fase de implementação e revisões no Greenhouse Gas Protocol — o padrão global de contabilidade de emissões corporativas — que, se aprovadas, dificultarão o uso de créditos de energia renovável para declarar emissões menores do que as reais. Essas mudanças não vão frear a expansão da IA. Mas podem obrigar as empresas a parar de contar uma história que, no papel, parece mais limpa do que no mundo físico.

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