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Onde o gelo cede primeiro: o que o Ártico revela sobre o futuro da água

Escrito por Neo Mondo | 22 de março de 2026

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Gelo e solidão — Tamara Klink e o Sardinha 2 durante os oito meses de invernagem solitária no Ártico - Foto: Tamara Klink/Acervo pessoal

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Há uma forma de entender a crise da água por meio de modelos, dados e projeções. E há outra — mais rara, mais desconfortável — que é vivê-la.
Após percorrer os riscos, sistemas e soluções que moldam o século da água, este especial se encerra com quem esteve dentro desse sistema em transformação.

Sentir o gelo se mover ao redor do casco de um barco no inverno ártico. Navegar por uma passagem que só existe porque o planeta está derretendo. Cruzar oceanos que já não se comportam como antes, há uma geração.

Tamara Klink conhece esse território de dentro.

Aos 28 anos, a velejadora e escritora brasileira acumula uma trajetória que desafia categorias: primeira mulher a invernar sozinha no mar congelado do Ártico, primeira pessoa da América Latina e a mais jovem mulher do mundo a completar a Passagem Noroeste em solitário. Filha do navegador Amyr Klink, cresceu entre expedições e oceanos — mas construiu sua própria rota, com seu próprio barco, em seus próprios termos.

O que Tamara traz a este especial é algo que nenhum modelo climático ou relatório científico consegue capturar por inteiro: a experiência visceral de estar dentro do sistema que o mundo debate de fora. Sua leitura da crise da água não vem de laboratórios ou de séries históricas de dados — vem de oito meses presa no gelo, de 60 dias navegando por uma passagem aberta pelo aquecimento global, de travessias solitárias em oceanos que regulam o ciclo de toda a vida terrestre.

Nesta entrevista ao Neo Mondo, Tamara fala sobre o que o Ártico ensina e que os dados não transmitem, sobre o paradoxo de realizar feitos históricos cujas condições de possibilidade são sinais de colapso, e sobre o poder — e os limites — da experiência extrema para mudar o que a ciência sozinha não consegue mudar nas pessoas.

Tamara, você passou oito meses com o barco preso no gelo ártico — um ambiente que pouquíssimos seres humanos experimentaram de dentro. O que esse inverno, sozinha no Ártico, te ensinou sobre a água que nenhum dado científico nem relatório climático consegue transmitir?

Depois da invernagem — em que passei pelas quatro estações do Ártico, vivendo cercada de água sólida e líquida — comecei a entender o quanto a água é viva. Em cada gota de água do mar, das geleiras, da neve, dos rios, há milhões de micro-organismos cuja existência permite a de todos os outros seres do planeta. Eles filtram o ar que respiramos e mudam a cor do mar, dos lagos e dos icebergs. As transições entre estações são os momentos em que se consegue enxergar com clareza o quanto a presença desses organismos atrai os animais e favorece sua multiplicação. A água é a cola que une todas as espécies — e isso não é metáfora. É biologia. É física. É o que se aprende quando se vive dentro dela por meses.

A Passagem Noroeste, que você concluiu em 2025, só é navegável porque o Ártico está derretendo. Existe algo perturbador em realizar um feito histórico cuja condição de possibilidade é, em si mesma, um sinal de colapso climático?

Sim — a Passagem Noroeste era uma travessia que deveria ser impossível. Em 2025, encontrei pouco gelo ao longo do caminho e, infelizmente, esse ano não foi diferente. Está alinhado com a tendência acelerada de perda de gelo marinho no Ártico, que ocorre há mais de 30 anos — confirmada por análises científicas, fotos de satélite e relatos de caçadores locais, que observam que o mar perto de suas casas congela cada vez menos semanas por ano. O mais preocupante é que, apesar de parecer algo distante, esse processo está diretamente relacionado à nossa vida no Brasil. O gelo marinho do Ártico é um dos pontos de não retorno do planeta: se a superfície branca de gelo fica pequena demais, o mar líquido escuro absorve mais calor, o Ártico deixa de ser um resfriador natural e passa a ser um aquecedor do planeta — e isso provoca desequilíbrios climáticos que chegam até os trópicos. O recorde que conquistei carrega esse peso. Não dá para celebrá-lo sem reconhecer o que ele representa.

Você navega sozinha em oceanos que cobrem 70% do planeta e regulam o ciclo da água de toda a vida terrestre. Do ponto de vista de quem está dentro desse sistema — não observando de fora — como você descreveria a relação entre o que a ciência documenta sobre os oceanos e o que você efetivamente sente e vê nas suas travessias?

No Ártico, a paisagem e os relatos de viagem carregam a memória climática de um mundo que já não existe. Exatamente 120 anos antes de mim, Roald Amundsen levou três anos para percorrer o mesmo trajeto que completei em um mês e meio. Nas cartas náuticas centenárias que usei, há indicação de grandes geleiras que se tornaram baías de água líquida quando passei por elas. Ao sul, nos trópicos, não temos esse contraste visual entre gelo e água — mas as mudanças estão ocorrendo debaixo da superfície. Elas aparecem no branqueamento de corais devido ao aumento da temperatura do mar, nos ciclones mais intensos e mais frequentes, nas cidades que já enfrentam a elevação do nível do mar, nos pescadores que precisam ir cada vez mais longe da costa porque os estoques não conseguem se repor. A maior diferença entre o que a ciência descreve e o que vejo nas navegações é que as informações racionais também se tornam emocionais: não são números e gráficos abstratos — são vidas de animais inteligentes e de pessoas reais em risco. O oceano é um só. E não há como viver neste planeta sem ele.

Crescer com Amyr Klink como pai significa ter uma relação com o mar que começa antes da consciência. Como essa formação moldou sua leitura sobre a crise hídrica — e há alguma diferença entre o oceano em que seu pai navegou e o em que você navega hoje?

Meu pai também navega hoje, nos mesmos mares que eu. Mas muitas mudanças aconteceram desde que ele tinha a minha idade — temos mais dados a bordo, instrumentos mais precisos e também mais consciência de que muitos fenômenos que eram extremos estão se tornando comuns. A baía congelada onde ele passou o inverno na Antártica não congela mais, por exemplo. É uma diferença que não precisa de explicação científica para ser compreendida — ela está lá, visível, na ausência do gelo que havia antes. Crescer ouvindo histórias do mar me deu uma referência sobre como ele era. Navegar pelos mesmos lugares me mostra o quanto mudou. Essa comparação geracional é, por si só, um documento climático.

Você é arquiteta de formação e navegadora por escolha. Essas duas formas de habitar e projetar espaço — uma no papel, outra no mar — produzem perspectivas distintas sobre como as cidades e as sociedades deveriam se relacionar com a água?

Na faculdade, me marcou profundamente estudar como os rios de São Paulo — a razão da fundação da cidade — foram entubados debaixo da terra ou encurralados entre avenidas de alta velocidade. Nos últimos 60 anos, São Paulo foi construída e projetada apesar dos rios, e não por eles. Nas chuvas fortes, todos os rios aumentam de volume, mas os nossos não têm mais espaço e transbordam. Nossa arquitetura impermeável e rodoviarista desperdiça os espaços mais nobres e valiosos da cidade, amplifica as desigualdades e nos torna progressivamente menos resilientes a eventos extremos. O mar me ensinou que a água não negocia — ela encontra seu caminho. A questão é se as cidades estarão preparadas para recebê-la ou continuarão sendo surpreendidas por ela.

Há um paradoxo na sua trajetória: quanto mais você se isola no mar, mais visível se torna para o mundo. Você sente o peso de ser uma voz pública sobre mudanças climáticas — e acredita que a experiência extrema tem poder para mudar o que os dados, sozinhos, não conseguem mudar nas pessoas?

As navegações e o isolamento me dão a oportunidade de tomar distância da maneira como vivemos e escolhemos viver. Não sinto isso como um peso — sinto isso como uma oportunidade que uso com muito cuidado e responsabilidade, porque sou profundamente grata por ser lida e ouvida. Falo sobre o que vivi, estudo e converso com muita gente experiente para entender em que medida essas percepções individuais dialogam com o que acontece no resto do mundo. E percebo, cada vez mais, que as histórias reais conseguem tocar o coração das pessoas de um jeito que os números não alcançam. A maior parte das decisões que tomamos não é racional — é tomada com base na emoção. Se a ciência produz o diagnóstico, a experiência humana pode produzir a urgência. As duas coisas são necessárias.

Se você pudesse levar um tomador de decisão — um CEO, um ministro, um banqueiro central — para passar uma semana no Ártico que você habitou, o que você acredita que essa pessoa voltaria pensando diferente sobre a água, o clima e o tempo que ainda temos?

Essa pessoa voltaria com a certeza de que o tempo é a coisa mais valiosa que temos — e a mais desperdiçada. Estamos criando máquinas que consomem o tempo e os recursos das próximas gerações para ganhar mais tempo agora, e gastamos todo esse tempo, obcecados, em fazer essas máquinas funcionarem cada vez mais rápido. Essa pessoa voltaria para casa e encontraria prazer em olhar para o céu, em brincar com os filhos — e tomaria decisões para que a água de todos seja mais limpa, o ar mais puro, e para que as próximas gerações possam ter invernos e verões como os nossos. No fundo, é isso que está em jogo. Não é abstrato. É o mundo que vamos deixar para quem vem depois.

foto de tamara klink, remete a matéria Onde o gelo cede primeiro: o que o Ártico revela sobre o futuro da água
Tamara Klink - Foto: Jorge Brivilati

Ao fim desta conversa com Tamara Klink, o que fica não é apenas um conjunto de relatos de expedição — é uma forma diferente de ver o problema que este especial percorreu em todas as suas dimensões. A ciência mapeou os riscos. A economia começou a precificá-los. A política ainda luta para respondê-los. Tamara habitou o lugar onde tudo isso se torna concreto, físico e crescentemente irreversível.

Há algo que sua trajetória oferece ao debate sobre a crise da água que vai além do testemunho — é uma forma de conhecimento que os dados não produzem. A ciência descreve o sistema em transformação. Tamara dormiu dentro dele. E há uma diferença fundamental entre essas duas formas de saber — não de superioridade, mas de complementaridade. É quando elas se encontram que o problema se torna impossível de ignorar.

A crise da água não é uma questão de futuro. Ela tem coordenadas geográficas, temperatura e peso. E o tempo para respondê-la, como Tamara aprendeu no Ártico, não espera.

Esta entrevista faz parte do especial Semana Mundial da Água, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre os recursos hídricos do planeta e o papel do Brasil nessa equação global.

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