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“A crise da água não começa quando falta chuva — ela começa muito antes”

Escrito por Neo Mondo | 22 de março de 2026

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Crise hídrica que a atmosfera já anunciava: Paulo Artaxo, físico da USP, estuda há décadas os sinais invisíveis que antecipam o colapso do ciclo da água - Foto: Divulgação/USP

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Muito antes da escassez chegar às torneiras ou de as enchentes ocuparem as manchetes, os sinais de desorganização do ciclo da água já estavam sendo registrados — em partículas invisíveis suspensas no ar, na química da atmosfera e no comportamento das nuvens sobre a Amazônia.

Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e uma das principais autoridades mundiais em física atmosférica, dedicou décadas a esse território menos visível — onde aerossóis, vapor d'água e dinâmica atmosférica revelam, com antecedência, o que os reservatórios e as manchetes só confirmam depois. Sua pesquisa contribuiu para a construção de parte do conhecimento que hoje sustenta as avaliações climáticas internacionais mais relevantes, incluindo as do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC).

Nesta entrevista ao Neo Mondo, Artaxo examina os sinais precoces de instabilidade no sistema hidrológico, o papel crítico da Amazônia na formação de nuvens e no transporte de umidade continental, e o quanto a ciência de ponta ainda demora a se converter em decisão pública. Sua leitura é precisa e incômoda: a crise da água não começa quando falta chuva. Ela começa muito antes — e já está em curso onde ainda não aprendemos a olhar.

O senhor dedica décadas ao estudo de partículas invisíveis na atmosfera — aerossóis, partículas, poluentes — que a maior parte da sociedade simplesmente não percebe. Que sinais precoces esses compostos já estão emitindo sobre mudanças no regime de chuvas que ainda não chegaram com a devida força ao debate público?

Os aerossóis atmosféricos são partículas microscópicas com papel fundamental na produção de nuvens e no balanço radiativo terrestre. Para que uma nuvem se forme, são necessários três elementos: vapor d'água, condições termodinâmicas adequadas na atmosfera e uma partícula de aerossol sobre a qual o vapor possa se condensar e formar uma gotícula. Sem aerossóis, não haveria nuvens — e sem nuvens, não haveria chuva. Além disso, os aerossóis resfriam a Terra ao interceptar parte da radiação solar antes que ela chegue à superfície. São, portanto, peças fundamentais do sistema climático — e sua alteração, seja por queimadas, poluição industrial ou mudança de uso do solo, interfere diretamente no regime hidrológico de qualquer região do planeta.

A Amazônia é frequentemente descrita como uma bomba biótica de umidade. Do ponto de vista da física atmosférica, o que ocorre com a formação de nuvens e o transporte de vapor quando o sistema florestal começa a se degradar além de certos limiares — e esses limiares já estão sendo ultrapassados?

A floresta amazônica desempenha um papel duplo e insubstituível na regulação do clima. O primeiro está relacionado aos gases de efeito estufa — a floresta é um estoque imenso de carbono que, quando degradada, passa a ser um emissor líquido. O segundo, igualmente crítico, é o transporte e a redistribuição de vapor d'água para a atmosfera tropical e para a América do Sul como um todo. A Amazônia é uma gigantesca fonte de umidade. Sem esse processamento contínuo de vapor d'água, teríamos muito menos chuva no Brasil central e no sul do país do que temos hoje. Quando se desmata uma área de floresta, a evapotranspiração reduz-se a níveis que podem tornar aquela região incapaz de exportar umidade para o restante do continente — comprometendo seriamente o ciclo hidrológico de regiões que dependem dessas chuvas para a agricultura, o abastecimento e a geração de energia. Dezenas de trabalhos científicos já documentaram esses efeitos com consistência. O que ainda falta é que essa evidência seja tratada com a urgência que merece nas decisões de política pública.

O senhor acompanha de perto a interação entre queimadas, poluição urbana e clima regional. Estamos subestimando o quanto a qualidade do ar nas grandes cidades brasileiras pode retroalimentar os extremos hidrológicos e amplificar a instabilidade climática?

O clima é o reflexo de interações complexas entre emissões de gases de efeito estufa, emissões de partículas, mudança de uso do solo e múltiplos outros processos que ocorrem tanto nas cidades quanto nas áreas rurais. As queimadas, nesse contexto, exercem uma influência dupla: alteram o ciclo hidrológico e, simultaneamente, atuam como agentes intensos de poluição do ar. Temos uma área imensa do Brasil submetida, todos os anos, por cerca de dois meses, a níveis de poluição muito acima do aceitável pela Organização Mundial da Saúde e pela Organização Meteorológica Mundial. Os efeitos sobre a saúde da população são severos — especialmente para idosos e crianças. Reduzir a poluição do ar nos grandes centros urbanos e eliminar as queimadas na Amazônia, no Pantanal e no Cerrado não é apenas uma pauta ambiental. É uma condição para preservar a estabilidade hidrológica e a saúde pública de um país inteiro.

Fala-se muito em risco climático, mas ainda pouco em risco hidrológico quantificado. A ciência já consegue identificar, com razoável precisão, quais regiões do Brasil estão se tornando estruturalmente mais vulneráveis a secas prolongadas ou a chuvas cada vez mais concentradas no tempo?

É fundamental que a população brasileira e todos os níveis de governo compreendam o risco real que o país enfrenta. A redução da precipitação já está ocorrendo na maior parte do território nacional — com prejuízos enormes, em particular para o agronegócio. O Brasil está se tornando uma região significativamente mais seca do que era algumas décadas atrás, o que compromete tanto a produtividade agropecuária quanto a disponibilidade de água nos grandes centros urbanos. Essa é uma das maiores vulnerabilidades do país diante das mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, o sul do Brasil — especialmente Rio Grande do Sul e Santa Catarina — experimenta o movimento oposto: aumento da precipitação e intensificação de eventos extremos. Já registramos casos em São Paulo de 60 milímetros de chuva em 24 horas — volume que devasta cidades e causa perdas econômicas imensuráveis. O Brasil precisa se adaptar ao novo clima que já se manifesta entre nós e que se agravará nas próximas décadas. Isso exige programas sérios de conservação de água, a limitação do uso de aquíferos para irrigação e o planejamento urbano compatível com a nova realidade hidrológica.

Bancos centrais, seguradoras e investidores começam a incorporar risco climático em seus modelos. Na sua avaliação, o sistema financeiro global já compreende a real dimensão da instabilidade do ciclo da água — ou ainda opera com premissas climáticas estruturalmente defasadas?

O risco climático é uma realidade concreta em todos os setores da economia — no agronegócio, na geração de energia, na indústria de seguros. O Brasil é particularmente vulnerável nessa equação: quase metade da nossa produção elétrica depende de hidrelétricas, cuja geração está diretamente condicionada ao regime das chuvas. O sistema financeiro começa a compreender essa dimensão — mas os modelos de risco ainda operam com séries históricas que já perderam validade. Os dados que embasam o cálculo de risco na indústria de seguros, por exemplo, foram construídos para um clima que já não existe. Estamos observando um aumento pronunciado dos eventos extremos e uma redistribuição profunda da precipitação no território nacional. Quem ainda precifica risco com base no passado está, estruturalmente, subestimando o futuro.

O Brasil contribui de forma decisiva para a ciência do clima em várias frentes. Onde essa contribuição é mais robusta — e onde o país ainda falha em transformar o conhecimento de ponta em uma política pública efetiva?

A ciência climática brasileira é genuinamente forte. O Brasil está entre os países líderes em várias áreas — meteorologia, hidrologia, ecologia tropical. O problema está na distância entre esse conhecimento e sua tradução em políticas públicas efetivas. Múltiplos interesses, particularmente no Congresso Nacional, dificultam a estruturação de políticas baseadas em evidências científicas. O que prevalece, com frequência perturbadora, são os interesses econômicos de setores específicos — e a população paga o preço dessa distância. Temos ciência de ponta, mas políticas públicas que não a refletem. Essa não é apenas uma falha técnica. É uma escolha política com consequências que se acumulam.

Se olharmos para o Brasil de 2035, qual é o cenário que mais preocupa o senhor na interface entre a Amazônia, a atmosfera e a disponibilidade de água — e qual decisão estrutural precisaria ser tomada nesta década para que esse risco não se torne irreversível?

O Brasil é um dos países mais severamente afetados pelas mudanças climáticas globais — pela nossa posição tropical, pela fragilidade dos nossos ecossistemas e pelo despreparo institucional para lidar com o novo clima que já chegou. O país está extremamente atrasado na adaptação a essas novas realidades. Para um aquecimento global de 2,8°C — trajetória para a qual caminhamos com as emissões atuais — o aumento de temperatura no Brasil pode chegar a 3,5°C ou 4°C. Cidades como Palmas, Teresina e Cuiabá podem se tornar ambientes de habitabilidade crítica. A Amazônia, o Pantanal e o Cerrado enfrentarão degradação ambiental severa com esse nível de aquecimento combinado à redução da precipitação. Precisamos correr atrás do atraso — o que significa implementar políticas públicas de proteção aos nossos ecossistemas com a máxima rapidez e efetividade possíveis. Não há tempo para mais um ciclo de diagnósticos sem decisão.

foto de carcaça de jacaré no pantanal, crise hídrica e queimadas - FotoJulianaArini
Crise que o Pantanal registra em silêncio: a seca extrema reduz um dos maiores santuários de biodiversidade do planeta a um arquivo de perdas que nenhum indicador econômico consegue mensurar - Foto: Juliana Arini

Ao fim desta conversa, permanece uma constatação difícil de ignorar: a crise da água vem sendo anunciada há décadas nos registros da própria atmosfera. O que muda agora não é a existência dos sinais — é a escala em que eles começam a se manifestar no cotidiano de economias, cidades e ecossistemas.

A pesquisa de Artaxo desloca o debate do campo da percepção para o da evidência. A instabilidade do ciclo hidrológico não é um fenômeno súbito. É o resultado acumulado de pressões que vêm alterando, de forma mensurável, o funcionamento da atmosfera — e que a ciência já documenta com maturidade suficiente para não deixar dúvidas quanto à direção do processo.

O que permanece em aberto é a velocidade com que esse conhecimento se converte em planejamento, infraestrutura e políticas públicas compatíveis com o novo regime climático. No século da água, a incerteza já não decorre da falta de dados. Decorre da dificuldade de agir à mesma velocidade em que a ciência avança.

A atmosfera continua emitindo sinais. A questão, como sugere Artaxo, é por quanto tempo ainda será possível tratá-los como ruído de fundo.

Esta entrevista faz parte do especial Semana Mundial da Água, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre os recursos hídricos do planeta e o papel do Brasil nessa equação global.

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