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Escrito por Neo Mondo | 15 de março de 2026
Foto: Divulgação
Por - Alexander Turra e Fabiane M. Borges, (LACO/IOUSP)
PRIMEIRA RESIDÊNCIA ARTÍSTICA NO INSTITUTO OCEANOGRÁFICO DA USP
O Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP) integrou o programa europeu S+T+ARTS – Science, Technology and the Arts, iniciativa da Comissão Europeia dedicada a fomentar colaborações entre arte, ciência e tecnologia como forma de enfrentar desafios ambientais, sociais e tecnológicos contemporâneos.
Criado pela União Europeia, o S+T+ARTS parte da premissa de que artistas, cientistas e tecnólogos operam como agentes complementares na produção de inovação, capazes de abrir novas perspectivas sobre questões complexas que atravessam o presente — da inteligência artificial às mudanças climáticas e à transformação dos ecossistemas. Ao promover residências artísticas em centros científicos e tecnológicos, o programa busca aproximar investigação estética, pesquisa acadêmica e desenvolvimento tecnológico como parte de um mesmo ecossistema de conhecimento.
No contexto sul-americano, essa iniciativa se materializa no programa S+T+ARTS Buen-TEK, primeira ação da plataforma no continente. O conceito surge da articulação entre duas referências conceituais distintas mobilizadas pelo programa. De um lado, o princípio do Buen Vivir, formulado a partir de cosmovisões da cultura indígena andina, que compreendem a vida social, ecológica e espiritual como sistemas interdependentes baseados em reciprocidade e equilíbrio entre sociedade e natureza. De outro, a abordagem Lo-TEK (Local Traditional Ecological Knowledge), difundida pela autora Julia Watson em Lo-TEK: Design by Radical Indigenism (2019), que evidencia tecnologias ecológicas desenvolvidas por comunidades locais e povos tradicionais ao longo de gerações. A combinação desses referenciais orienta o programa ao propor que práticas artísticas, investigação científica e tecnologias contemporâneas possam dialogar com saberes territoriais e ecológicos, explorando formas culturalmente situadas de inovação ambiental.
O programa S+T+Arts é coordenado por um consórcio europeu formado por instituições como IMPAKT (Holanda), Barcelona Supercomputing Center (Espanha), GLUON (Bélgica), HacTe – Hub of Art, Science and Technology (Espanha), Sony CSL – Rome (Itália) e TBA21 (Espanha), que atuam como mediadores internacionais das residências.
Na América do Sul, o programa articula 11 residências e 11 instituições anfitriãs, nomeadas “tweens” distribuídas em seis países, incluindo centros científicos, universidades e organizações culturais. Entre elas estão o Centro de Cómputo de Alto Desempeño da Universidad Nacional de Córdoba (Argentina), LiquenLab e Universidad del Desarrollo (Chile), Más Arte Más Acción e Platohedro (Colômbia), Alta Tecnología Andina (Peru), o Centro Intercultural Comunitario Tránsito Amaguaña (Equador) e, no Brasil, Museu do Amanhã, Universidade de Fortaleza, Pivô Arte e Pesquisa e o Laboratório de Arte e Ciência Oceânica do Instituto Oceanográfico da USP.
Foi nesse contexto que o Instituto Oceanográfico da USP sediou uma das residências do programa, denominada “Instabilidades Costeiras”. Foi realizada na Base Oceanográfica Clarimundo de Jesus, em Ubatuba. A iniciativa foi desenvolvida através do LACO – Laboratório de Arte e Ciência Oceânica, plataforma transdisciplinar vinculada ao IOUSP e articulada no âmbito da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, dedicada a aproximar práticas artísticas contemporâneas da investigação científica a respeito dos sistemas marinhos e costeiros, além da governança marinha.
Coordenado pelo professor Alexander Turra (IOUSP) e pela pesquisadora e curadora Fabiane M. Borges, o laboratório tem como objetivo promover encontros entre artistas, cientistas e comunidades costeiras, investigando como a cultura oceânica pode ampliar as formas de percepção, comunicação e produção de conhecimento sobre o oceano. Ao operar na intersecção entre arte contemporânea e ciência oceânica, o LACO propõe que processos estéticos também podem funcionar como ferramentas de investigação, tradução e circulação do conhecimento científico, além de campo inventivo e criativo de novas soluções científicas e imaginários futuros.
A residência, chamada Shifiting Shores, foi realizada em parceria com a Pivô Arte e Pesquisa, organização cultural sediada Salvador, e contou com mediação internacional da TBA21–Academy, programa internacional da Thyssen-Bornemisza Art Contemporary dedicado à pesquisa artística e científica sobre os oceanos, que promove residências, expedições e projetos transdisciplinares focados nos ecossistemas marinhos e relações socioambientais.
A artista selecionada para a residência foi Lícida Vidal, cuja pesquisa se desenvolve na intersecção entre arte, ecologia e tecnologias ambientais. Lícida participou da seleção do S+T+Arts e foi selecionada através de uma comissão de júris pelo projeto “Uma colher de sal e outra de açúcar”, que propõe a criação de esculturas-ecossistema subaquáticas e flutuantes instaladas no ambiente costeiro de Ubatuba. Concebidas como pequenos jardins marinhos compostos por macroalgas e materiais adsorventes, essas estruturas atuam como dispositivos bioremediadores capazes de capturar contaminantes presentes na água — como CO₂ dissolvido, microplásticos e outros poluentes, servindo como instalação artística e local de pesquisa científica ao mesmo tempo. O trabalho configura-se como um dispositivo estético-político que torna perceptíveis processos invisíveis da contaminação e das transformações químicas do oceano, criando zonas de limpeza da água.
Durante a residência, a artista acessou diferentes contextos institucionais e científicos ligados à gestão e observação dos ecossistemas costeiros. Entre as atividades realizadas estiveram visitas ao Parque Estadual da Ilha Anchieta, gerido pela Fundação Florestal; à Estação de Tratamento de Esgoto da SABESP em Ubatuba, responsável pela infraestrutura de saneamento da região; ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em Paraty; e ao Laboratório de Sistemas Planctônicos (LAPS) do Instituto Oceanográfico da USP, onde foram realizadas atividades de coleta oceanográfica, observação microscópica e análise científica de organismos planctônicos.
Esse conjunto de interações permitiu abordar os sistemas aquáticos em múltiplas escalas — desde a vida microscópica do plâncton até infraestruturas urbanas de saneamento e políticas institucionais de conservação ambiental.
Paralelamente à residência, a Base Oceanográfica de Ubatuba também sediou encontros e atividades vinculadas ao programa The Ocean’s Edge, iniciativa internacional organizada pela Pivô Pesquisa e pela organização britânica Invisible Dust, em colaboração com a TBA21–Academy e o LACO/IOUSP. O encontro reuniu artistas, cientistas e instituições ambientais para discutir novas formas de investigação artística sobre os ecossistemas marinhos. Junto com Lícida vidal, destaca-se a presença das artistas Letícia Ramos e Alberta Whittle, além da presença de representantes de instituições como Alice Sharp, Elisa Cuesta, Estela Santana entre outras. O programa Shifiting Shores promoveu oficinas com a comunidade caiçara e workshops científicos relacionados à maricultura e ao cultivo sustentável de macroalgas, incluindo atividades conduzidas por pesquisadores do Instituto de Pesca do Estado de São Paulo e por produtores locais como o maricultor Eusébio Higino de Oliveira, cuja algicultura serviu de palco de imersão e aprendizagem, durante a residência de Lícida vidal.
Inserida no contexto da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano e em diálogo com os objetivos da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021–2030), a experiência realizada no Instituto Oceanográfico da USP evidencia o papel das práticas artísticas na ampliação das formas de investigação, comunicação e imaginação pública sobre os sistemas oceânicos.

Nesse horizonte, iniciativas como o LACO – Laboratório de Arte e Ciência Oceânica situam o oceano como um campo simultaneamente científico, cultural e político, no qual conhecimento, sensibilidade e responsabilidade ecológica passam a operar de forma integrada na construção de futuros habitáveis para o Planeta Terra (ou, planeta azul).
S+T+ARTS; TBA21–Academy; LACO / IOUSP; Pivô Arte e Pesquisa; Invisible Dust; Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano (IOUSP); Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo; Instituto de Estudos Avançados da USP; Base Clarimundo de Jesus, Ubatuba.
A Galeria Ubatuba; Árvore Cultural; ÂMÂLBIÂ (Albânia); BiodiversasLab; Canoa Caiçara (Ubatuba); Base Clarimundo de Jesus (IOUSP / Ubatuba); Edge Ocean / The Ocean’s Edge (Invisible Dust); Fundação Florestal (Parque Estadual da Ilha Anchieta); Fundação Projeto Tamar (Ubatuba); ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (Paraty); INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais; Instituto Argonauta (Ubatuba); Instituto de Pesca – APTA (Governo do Estado de São Paulo); IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas; LAPS – Laboratório de Plâncton e Sistemas Pelágicos (IOUSP); Museu Caiçara (Ubatuba); Quiosque do Gino (Barra Seca – Ubatuba); Saint-Lukas University of Arts & Design (Bruxelas); Secretaria Municipal de Educação de Ubatuba; TropicTropic; Tropixel Network (Rede Tropixel).
This activity is supported by Shifting Shores / Instabilidades Costeiras, a residency program co-commissioned by TBA21, with the support of Pivô and the Oceanographic Institute of the University of São Paulo (LACO-IOUSP) within the framework of S+T+ARTS Buen-TEK project co-funded by the S+T+ARTS initiative of the European Union
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