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Artigo
Por – Marina Amaral, diretora executiva da Agência Pública / Neo Mondo
Oscilando entre o alucinado e o cínico, o discurso do presidente do Brasil na ONU nos enche de vergonha, mas não surpreende. Mentir descaradamente ao abrir uma Assembleia da ONU, em que representa o país, é indignidade a que estamos acostumados – afinal, 57% dos brasileiros declararam nunca – repito, nunca – confiar no que o presidente da República diz. Mas, como sabemos, o presidente candidato fala apenas com seus eleitores – aqueles 15% que na mesma pesquisa Datafolha disseram confiar em tudo – absolutamente tudo – o que Jair Bolsonaro diz.
Acreditam, portanto, que o Brasil estava “à beira do socialismo” antes de Bolsonaro, que não há mais corrupção no país do orçamento secreto e da máfia da vacina, que “a nossa moderna agricultura de baixo carbono alimenta mais de 1 bilhão de pessoas”, que “dois terços de nossa vegetação é a mesma desde 1500” (não é nem mesmo a do ano passado). Em sentido oposto à experiência concreta, essas pessoas creem em mentiras óbvias como a frase “sempre defendi combater o vírus e o desemprego de forma simultânea e com a mesma responsabilidade” na boca do presidente de um país com 590 mil mortes pela Covid-19 e 15 milhões de desempregados.
O mais grave, porém, talvez seja quando Bolsonaro diz a verdade, reafirmando, por exemplo, seu apoio ao “tratamento precoce” e à “autonomia dos médicos”. Expressão, aliás, que serviu para ocultar o papel de Pilatos que fez o Conselho Federal de Medicina ao publicar um parecer, em abril de 2020, para permitir aos médicos receitar cloroquina e hidroxicloroquina para tratar a Covid-19 desde que com consentimento do paciente (e nem essa ressalva foi respeitada como mostra o caso Prevent Sênior).
Seu ministro da Saúde, aliás, aquele que exibiu o dedo médio para os que protestavam contra o governo em Nova York, é médico e representante da classe como presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, conselheiro titular do Conselho Regional de Medicina da Paraíba e já integrou o Conselho Federal de Medicina.
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Fazendo a ligação entre o comportamento da contaminada/contaminante comitiva presidencial em Nova York e os depoimentos da CPI da Covid, que se desenrolou essa semana no Senado, a repulsa contra o governo, os planos de saúde e os médicos só faz crescer. As gravíssimas denúncias contra o Prevent Senior, é verdade, foram lideradas por esses profissionais que, no entanto, não contaram com o apoio de suas entidades de classe já comprometidas com o governo, o que prolongou os efeitos negativos sobre pacientes.
Se o CFM tivesse tido uma atitude mais responsável, condenando claramente o uso dos medicamentos errados, talvez esses médicos não tivessem se sentido coagidos a participar de crimes como alteração de prontuários para maquiar casos de Covid, prescrições médicas perigosas e ineficazes, e pacientes inadvertidamente utilizados como cobaias, como se depreende do confronto entre o depoimento do CEO da Prevent Sênior na CPI e o dossiê dos médicos.
Eu mesma cheguei a ver diretores da Prevent Sênior em lives marketeiras em defesa da cloroquina e jamais acreditei nos que apontam o plano como “case de sucesso” no atendimento de idosos. Tenho certeza, porém, que há outros casos criminosos, ainda que menos escandalosos, cometidos por outros planos de Saúde (até por prefeituras, como mostramos nessa reportagem), que se basearam na orientação do Ministério da Saúde justificada pelo parecer do CFM para receitar coquetéis inúteis e perigosos a doentes de Covid. A responsabilidade do órgão maior dos médicos está evidente em todos esses casos, apesar do sacrifício de tantos desses profissionais de saúde.
No Brasil da pandemia, não há como conciliar ética médica com apoio a Bolsonaro.