Foto – Pixabay
POR – ROSENILDO FERREIRA, ESPECIAL PARA COALIZÃO VERDE (1 PAPO RETO e NEO MONDO)
Apesar de ser um jogador importante no que se refere à energia limpa – graças ao Pró-Álcool, lançado na década de 1970, e ao predomínio da hidroeletricidade, que responde por 58,1% da matriz energética –, o Brasil sempre esteve atrasado em relação às demais fontes renováveis. Notadamente, no caso das modalidades eólica e solar
Nos últimos anos, contudo, o jogo começou a virar. Os incentivos governamentais e a necessidade de reduzir os impactos ambientais dos megaprojetos hidrelétricos fizeram com que a energia eólica ganhasse escala. Hoje, essa modalidade desponta como importante força de abastecimento no Nordeste, especialmente nos períodos de seca, quando baixa o volume dos reservatórios das hidrelétricas da região.
O mesmo papel de complementariedade tem sido assumido pelos projetos de energia fotovoltaica, gerada a partir da radiação solar, graças a investimentos de R$ 62,2 bilhões, realizados ente janeiro de 2012 a novembro de 2021, segundo a Absolar, entidade que reúne as empresas do setor. Montante suficiente para que a capacidade instada dos projetos superasse a marca de 10 GW (gigawatts). Na internet, é possível encontrar um número impressionante de iniciativas. Desde as artesanais, no esquema faça-você-mesmo (muito usado para aquecimento de água, por exemplo), até projetos tocados por especialistas e baseados em tecnologia de ponta.
Foi de olho neste potencial que a empresa nascida no Vale do Silício (EUA), em 2006, e que se tornou uma gigante avaliada em cerca de US$ 35 bilhões na Nasdaq, incluiu o Brasil em seu roteiro de expansão. “O Brasil já figura como um dos cinco maiores mercados globais de instalação de painéis solares residenciais”, diz Luciano Guará, country manager da Enphase Energy no Brasil. “E a tendência é que o mercado cresça ainda mais.” Nos Estados Unidos, a multinacional já domina 55% do market share de instalações residenciais e, pelo mundo está presente na Europa, Austrália, Indonésia e África do Sul, por exemplo.
A estratégia para o Brasil, onde chegou há cerca de três meses, está baseada na democratização da tecnologia: o sistema modular de microinversores permite adaptar os projetos à necessidade de cada imóvel e a todo tipo de telhado. Dessa forma, ao contrário da modalidade eólica, que sempre esteve baseada em megaprojetos de centenas de milhões de reais, tocados por grandes empresas, a energia solar está cada vez mais acessível aos brasileiros de praticamente todos os estratos sociais.
De acordo com o executivo, os microinversores garantem ainda vantagens competitivas que permitem reduzir o custo total de implantação do sistema em residências. No caso de unidades familiares cujo consumo mensal seja de 150 kW/h (equivalente à média nacional), o investimento total, incluindo a instalação, gira em torno de R$ 15 mil. As diferenças entre os sistemas baseados em microinversores e os inversores string são a eficiência e a durabilidade. Enquanto os primeiros possuem vida útil de 25 anos, idêntica a maioria dos painéis, os string precisam ser trocados a cada sete ou 10 anos.
O sucesso do setor também depende de uma ajudinha da legislação. Guará conta que nos Estados Unidos, após inúmeros acidentes resultantes do uso de sistemas baseados em corrente contínua (string), 49 dos 50 Estados americanos proibiram essa tecnologia.
Melhor para a Enphase, que supriu o mercado com seus microinversores, capazes de transformar em corrente alternada a energia gerada pelos painéis. “A partir daí, nosso crescimento se deu de forma exponencial. Queremos repetir essa experiência no Brasil, atuando com pequenas e médias empresas, além de consumidores residenciais das classes C e D”, destaca o executivo. “Aqui a legislação também está caminhando para regulamentar e garantir condições de desenvolvimento do setor.”
O microinversor é o carro-chefe da Enphase – Foto: Divulgação
Financiamento subsidiado
Tecnologia é importante. Sem dúvida. Porém, em se tratando de um mercado emergente, como o Brasil, onde a renda média é relativamente baixa, para ganhar escala é necessário contar com preço competitivo e facilidade de pagamento. É nesse ponto que se assenta o principal pilar da estratégia desenhada pela equipe da Enphase. Para conquistar clientes em um setor no qual já atua sua compatriota e arquirrival SolarEdge, que desembarcou aqui em 2017, o executivo conta com recursos da matriz para bancar linhas de crédito a juros competitivos. “Esperamos fechar 2022 com a instalação de 10 mil a 15 mil sistemas em residências”, diz.
Trata-se de um número modesto num mercado que cresce de forma exponencial, movido principalmente por projetos residenciais, que respondem por 76,1% dos 644.716 sistemas instalados no País. Para avançar por aqui, os americanos firmaram parcerias com empresas integradoras, a exemplo da Solstar e da Green Solar, que ficam responsáveis pela distribuição e instalação dos equipamentos.
A ideia é trabalhar com pacotes completos (placas solares, microinversores, e os equipamentos de controle). “A Enphase começou produzindo inversores, mas hoje possui uma gama completa de produtos para o setor”, explica Luciano.
Outra aposta da empresa é nos dispositivos para carregamento de veículos elétricos. Apesar de a modalidade estar engatinhando no Brasil, existe a perspectiva de um rápido crescimento da frota, puxada pelos maciços investimentos anunciados recentemente pelos chineses da JAC Motors e da BYD, que já operam por aqui. “O sol nos fornece uma energia democrática e boa para todo mundo”, destaca o executivo da Enphase.