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ARTIGO
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POR – MÁRCIO JAPPE*, PARA NEO MONDO
Não há como brigar com a realidade objetiva dos fatos: a inovação é uma ferramenta muito potente para gerar desenvolvimento e transformação. Sempre haverá muito o que ser feito para potencializar ainda mais este impacto positivo. Neste contexto, é importante observar e dialogar a respeito de questões sensíveis do dia a dia de ecossistemas de empreendedorismo e inovação, tais como as diferentes formas de exclusão que acabam, mesmo que involuntariamente, acontecendo diariamente em função de características sociais, econômicas e educacionais.
Para ficar em apenas um exemplo, pensemos em como são usualmente estruturados programas de aceleração de startups e negócios de impacto. Muito se fala em longas horas de trabalho, sacrifícios e superação, mas será que não há potencial sendo deixado de lado por questões práticas muito simples? A divulgação dos programas ao menos considera usar uma linguagem que atraia não só homens? Ela acontece em lugares minimamente diversos? Durante os programas, há flexibilidade para acomodar horários de trabalho remunerado em outras organizações, facilitando a participação de pessoas com menos condições financeiras? Nas sessões mais longas ou em imersões, há espaço para acomodar crianças que precisam de cuidados, facilitando a participação de pessoas empreendedoras que têm filhos pequenos? O horário dos happy hours e interações sociais entre os participantes considera o horário do jantar e do sono de crianças pequenas? Sim, todas e cada uma destas observações pode fazer muita diferença na inclusão de pessoas talentosas que acabam não intencionalmente sendo excluídas de processos que almejam ampliar o alcance da inovação (e não concentrá-lo em menos mãos).
No lugar de partir para uma investigação minuciosa de cada iniciativa de campo e uma avaliação de como ela poderia ser melhorada, vale refletirmos sobre o que poderia caracterizar uma inovação verdadeiramente mais inclusiva e permitir que cada ator possa melhorar suas próprias iniciativas.
Em primeiro lugar, a inovação inclusiva é periférica. É uma inovação que olha para as bordas do sistema e intencionalmente se esforça para trazer para uma posição de protagonismo para pessoas vulnerabilizadas social e economicamente, seja por estarem inseridas em uma comunidade em situação de vulnerabilidade, seja por enfrentarem desafios estruturais relevantes por questões raciais, de gênero, de orientação sexual ou quaisquer outras questões socioeconômicas. Perspectivas usualmente desconsideradas podem ser priorizadas, modelos de negócio ficam melhores e a inclusão de verdade ganha espaço para acontecer (não basta chamar pra festa, tem que convidar para dançar).
Em segundo lugar, a inovação inclusiva é formacional. Ela olha tanto para as competências já consolidadas nas pessoas inovadoras e suas organizações, quanto para aquelas competências que podem ser adquiridas dado o potencial destas mesmas pessoas. Por exemplo, quanto valor é deixado de lado por não incluir pessoas que (ainda) não falam inglês, mas que são muito inteligentes, observadoras, realizadoras e resilientes? Traduzir parte dos conteúdos e aos poucos ir trabalhando termos estrangeiros para facilitar o entendimento são ações extremamente simples.
Outro exemplo são conceitos de negócios que podem ser explicados com simples contextualizações. Ainda, será que ampliar o desenvolvimento de competências básicas para os familiares mais próximos não pode ajudar a incluir? Certa vez entendi que uma pessoa precisava sair mais cedo das oficinas de um programa de capacitação porque seus familiares (outra pessoa adulta e mais duas adolescentes) não sabiam cozinhar o básico para fazer o jantar e, pior, entendiam que a função de cozinhar deveria por padrão ser da pessoa empreendedora.
Finalmente, a inovação inclusiva é paciente. Não só paciente em termos de ajustar as expectativas de evolução e resultados a ciclos quiçá mais longos ou acidentados que (não é coincidência que se nomeiem programas de “aceleração” e não programas de consistência e persistência), mas também paciente para ouvir e entender as dores e necessidades de pessoas empreendedoras não inseridas nos contextos empreendedoras e de inovação mainstream. É insano pensar que ouvir atentamente e identificar as dores do público-alvo é uma das bases de diferentes metodologias de inovação. A velha máxima “casa de ferreiro, espeto de pau” parece se encaixar aqui.
Inovação inclusiva é, entre outras coisas, periférica, formacional e paciente. Como traduzir estes conceitos em práticas no dia a dia dos ecossistemas de empreendedorismo e inovação é o desafio. Podemos afirmar com certeza de que existe não só intenção de melhorar no ecossistema, mas há competência e recursos para fazer acontecer, e muito valor a ser gerado e capturado.
*Márcio Jappe é sócio-fundador da Semente Negócios, mestre em inovação, tecnologia e sustentabilidade pela UFRGS.