Cavalo visto sobre telhado em área alagada em Canoas (RS) — Foto: GloboNews/Reprodução
ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Depois de quatro dias de espera estoica , o corpo de bombeiros conseguiu, com ajuda de veterinários, resgatar o cavalo que se equilibrava precariamente sobre o telhado de uma casa simples no bairro Mathias Velho, na região metropolitana de Porto Alegre, em meio a maior inundação da história do Rio Grande do Sul. Quando li essa notícia e toda a repercussão que se seguiu a ela, incluindo o choro quase convulsivo da primeira dama, percebi que, apesar de tudo, somos, ainda, uma espécie passível de salvação. Penso inclusive que as imagens desse heróico resgate deveriam ser continuamente exibidas em escolas, sociedades beneficentes , igrejas de todas as denominações, centros recreativos, clubes de futebol, pátios de fábricas, reuniões de gestores e , principalmente, para os alienígenas que, tal como no filme “o dia em que a Terra parou”, não acreditavam na nossa capacidade de redenção.
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Por que, em meio a uma tragédia que já causou a morte de mais de cento e cinquenta pessoas e desabrigou mais de meio milhão, choramos de alívio e gritamos de alegria, (“como se fosse um jogo de Copa”, segundo um das testemunhas do resgate) quando um animal como o cavalo Caramelo é salvo? Por que mobilizar uma força humana que poderia estar em outro ponto da cidade de Canoas e, durante três longas horas, esse grupo da PM militar do Rio Grande do Sul e do Corpo de Bombeiros de São Paulo, em meio as águas que não paravam de subir, fios elétricos ameaçando a qualquer momento eletrocutar um dos membros da equipe, conseguir imobilizar, anestesiar e com o cuidado que se tem com uma idosa delicada ou com um bebê desamparado, colocara o animal de quase 350 quilos sobre a lancha para o longo trajeto que o levaria para os cuidados veterinários e para o bem estar que, possivelmente, esse puxador de carroças da periferia da cidade grande nunca teve antes. Por quê?
Creio que a razão é , ao mesmo tempo, simples e desconcertante: comovemo-nos com cenas como a do cavalo Caramelo porque sabemos da inocência dele diante da catástrofe que provocamos com nossa ação ou com nossa negligência. Somos os senhores destruidores do planeta, mas não por que queiramos ser. O segredo de tudo é a palavra “conforto”. Não havia um problema tão grande com as carroças e os carros de boi. Mas depois do trem e do automóvel, quem mais vai querer viajar daquele jeito? Não havia problema com o calor, mas então veio o ventilador e o ar condicionado e desde então, quem poderá viver sem eles? E assim com tudo o que a tecnologia que criamos nos proporcionou , sem que levemos em consideração o custo disso tudo para o planeta. Não se trata de maldade, trata-se do que o antigos chamavam de “carne fraca”. Nossa saída é sempre afirmar que os efeitos do nosso conforto, que tantos apregoam, são exagerados, e que esse negócio de aquecimento global, de mudanças climáticas, de riscos para a vida geral do planeta, imagina, o mundo sempre foi assim, não é porque a gente não se importa com uma floresta que some aqui, um cerrado que desaparece ali, um rio que morre acolá, imagina, não é assim.
Mas daí vem a enchente e o cavalo fica ilhado por quatro dias em cima de um telhado, as pernas já vacilando, um simples movimento em falso e seria a morte certa, carregado pela correnteza das águas insensíveis. O cavalo espreita o horizonte, os olhos baços, o estômago rangendo de fome, os nervos flexionados ao extremo, a incompreensão de tudo aquilo, nem a ideia da morte ele tem, preso no eterno momento do sofrimento que não se esvai. Até a chegada daquelas pessoas de marrom e de vermelho , saídas do nada, para salvá-lo e redimi-nos a todos, pois a imagem do cavalo no telhado é a imagem de nossa culpa finalmente traduzida, sem volteios sofísticos ou negacionismos esfarrapados.
O cavalo Caramelo é o Cordeiro que veio ao mundo para assumir nossas culpas e expia-las com a sua oferta de sacrifício.
Tomara que o recado , mais uma vez, seja compreendido.
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
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