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Cidades devem investir em estratégias de mitigação e de adaptação às consequências da crise climática
Por – Roberto Speicys Cardoso*
Todos sabemos que a população mundial estará cada vez mais concentrada em cidades. Se hoje cerca de 56% da população vive em cidades, ou um total de 4,4 bilhões de pessoas, a ONU estima que até 2050 esse número irá dobrar, com cerca de 70% da população mundial concentrada em aglomerações urbanas.
A principal razão para esse crescimento é que as cidades diminuem distâncias e concentram o conhecimento e a produção de bens e serviços, reduzindo custos e aumentando a eficiência. Eventos recentes que poderiam inverter esta tendência, como a redução dos custos de comunicação com a popularização da Internet, ou a expansão do trabalho de casa no mundo pós-pandemia, não foram suficientes para mudar o cenário de crescimento urbano: as pessoas vão menos ao escritório, conseguem produzir trabalhando remotamente, mas ainda preferem viver em cidades. Os valores de aluguel em Nova Iorque, por exemplo, caíram 15% no começo da pandemia de COVID-19 em 2020. Hoje, entretanto, os valores estão cerca de 30% superiores ao período pré-pandemia.
É evidente, portanto, que as cidades devem se preparar para acolher essa nova população. Com mais pessoas, a disputa por recursos naturais como água potável e território deve também aumentar. Por outro lado, o impacto das cidades no meio ambiente também deve crescer. Hoje, apesar de ocuparem apenas 2% a 3% do território mundial, cidades são responsáveis por consumir 75% dos recursos naturais, 80% da energia, pela emissão de 75% dos gases de efeito estufa e pela geração de 50% do lixo no mundo.
As cidades também devem sofrer cada vez mais os impactos do aquecimento global. Eventos climáticos extremos, como as chuvas que devastaram a cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos, ou Porto Alegre e cidades vizinhas, no sul do Brasil, mostraram as consequências catastróficas que esses eventos trazem para os cidadãos. As vidas perdidas, os prejuízos financeiros e os investimentos necessários para a reconstrução das áreas afetadas causam consequências negativas duradouras nas vidas das pessoas e no desenvolvimento da região.
Dessa forma, as cidades devem investir em estratégias de mitigação e de adaptação às consequências da crise climática para, de um lado, reduzir seus impactos no meio ambiente e, de outro lado, reduzir as consequências da crise climática que estamos vivendo.
Para isso, ações que promovam a sustentabilidade do ambiente urbano e que melhorem a vida dos habitantes no longo prazo devem ser prioritárias. Nova Iorque recentemente se tornou a primeira cidade norte-americana a adotar o conceito de “orçamento climático”: todos investimentos previstos no orçamento terão seu impacto climático estimado, a fim de redirecionar recursos para ações que tenham impacto positivo no meio ambiente e para que a cidade consiga atingir o objetivo de redução de 80% das emissões de carbono até 2050. Priorizar as ações agora é a única forma de tornar as cidades sustentáveis no futuro e evitar que a temperatura média do planeta ultrapasse 1.5oC da temperatura do período pré-industrial, o que traria consequências catastróficas para todo o planeta.
O ODS 11 endereça justamente essas preocupações. Ele define 10 metas que devem guiar o desenvolvimento das aglomerações urbanas a fim de criar cidades prontas para os desafios que se apresentarão nos próximos anos, criando as condições necessárias para que seus cidadãos tenham qualidade de vida e possam desenvolver todo seu potencial.
Um aspecto importante para tornar as cidades inclusivas e sustentáveis é o acesso a oportunidades: como podemos criar cidades onde todos os habitantes tenham acesso às diversas oportunidades em termos de trabalho, saúde, educação, cultura, lazer, entre outros? Nesse sentido, as cidades devem realizar ações em 3 pilares: habitação, planejamento urbano e mobilidade.
Na área da habitação, as cidades devem investir e criar políticas públicas que levem à criação de residências próximas às oportunidades, ao sistema de transporte público e que sejam seguras e integradas aos serviços de saneamento básico. O planejamento urbano inteligente possibilita a distribuição de oportunidades por todo o território, trazendo trabalho e educação, por exemplo, para mais perto do cidadão. Isso não só torna a cidade mais inclusiva como também elimina viagens e reduz o impacto do transporte no meio ambiente. Finalmente, para os casos em que as residências ainda fiquem distantes das oportunidades, a mobilidade fornece as ferramentas para diminuir essas distâncias. Entretanto, por ser a maior fonte de emissões de CO2 nas cidades, a mobilidade também deve passar por uma transformação para se tornar limpa e reduzir seu impacto no meio ambiente.
Essas ações devem se unir a outras para reduzir o impacto ambiental das cidades, como a adoção de arquiteturas sustentáveis para casas e endereços comerciais, a arborização das ruas e avenidas, e a gestão eficiente dos resíduos, incluindo medidas para reduzir sua produção por parte dos habitantes.
As cidades também devem oferecer espaços para o lazer de seus cidadãos, garantindo o acesso a parques e espaços verdes, além de proteger seu patrimônio cultural e natural para que seus habitantes, bem como os moradores de outras cidades, possam desfrutar dessas riquezas.
Finalmente, esses investimentos devem estar apoiados em políticas públicas de longo prazo e em planos de desenvolvimento nacionais e regionais que garantam que projetos de longo termo sejam concluídos e que seus impactos positivos percebidos ao longo do tempo, sem mudanças de trajetória nem decisões de investimentos que sejam contrárias às metas descritas acima.
São muitas mudanças, que devem começar imediatamente para que os resultados sejam obtidos no médio prazo. Mas existem boas notícias: diversas tecnologias que permitem a redução drástica das emissões geradas pelas cidades, como a eletrificação do transporte público, já estão maduras e em implementação. Nesse contexto, o uso intensivo de dados para identificação dos riscos e avaliação das soluções propostas é um processo fundamental para auxiliar o gestor público a investir seus recursos de forma eficiente e potencializar o impacto positivo de suas decisões. A caminhada não será fácil, mas temos os recursos e a capacidade necessária para deixarmos para as próximas gerações cidades muito mais saudáveis e sustentáveis do que as cidades que recebemos.
* Roberto Speicys Cardoso é CEO e co-fundador da Scipopulis. Phd em Ciência da Computação pela Universidade de Paris 6/Sorbonne Universités, Mestre em Ciência da Computação pela USP, fellow da Royal Academy of Engineering/UK e membro do conselho da UITP LATAM no biênio 23/24.
**As opiniões expressas no artigo não necessariamente expressam a posição de NEO MONDO.