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ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Essa semana fiz 60 anos de idade. Quando menino, no final dos anos 70, minha expectativa de futuro era ingressar no terceiro milênio, quando teria 36 anos. Parecia algo incrível, chegar ao século XXI. Agora, completo 60 anos e o século já está quase chegando ao seu primeiro quarto e, convenhamos, ainda não disse muito bem a que veio. A Inteligência artificial não chega a ser um consolo de quem esperava maravilhas da tecnologia, principalmente porque não é nem inteligência e muito menos é artificial. Quanto às outras promessas da ficção científica que sempre gostei de ler na juventude (sem perceber que quase nunca os autores desse gênero estão falando do futuro, mas do presente) sinto uma leve frustração que não chega a doer mas também está muito longe de entusiasmar. Confesso, porém: esperava que pelo menos os carros já estivessem voando. Sorte que não. Tenho vertigem de altura.
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Fiz essa semana 60 anos de idade e sei que tenho , com a melhor das boas vontades, um cavalo de vida pela frente. Ou um gato de apartamento. Tomara. Busco não pensar por essa perspectiva, porque as moscas duram apenas trinta dias, né?. E questiono: o futuro seria o lugar desse dia? Não vale a pena pensar assim. Cada dia é uma aventura indescritível, até mesmo as segundas feiras de uma Curitiba cinza e chuvosa. Ótimo pano de fundo para as cores fortes da alegria.
Fiz essa semana 60 anos e minha família e meus amigos me presentearam com a plaquinha de idoso para colocar no carro. “Uma conquista“, disseram. Ri da brincadeira. No fundo, emocionei-me, mas busquei não demonstrar. A amizade é a minha geografia, meu lugar no mundo. Com eles recrio-me e , por isso, tenho , a cada dia, um dia de vida. Paradoxo fascinante.
De maneira geral discordo do filósofo romeno Emil Cioran quando disse: “o que sei aos 60, sabia aos 20. 40 anos de um longo e inútil trabalho de verificação”. Discordo porque não tenho a menor lembrança do que eu sabia aos 20, exceto que já trabalhava, dormia em um quarto de pensão e detestava a vida que eu tinha naquele momento. Hoje, ao contrário, adoro minha existência de homem casado, pai, cidadão, professor, apreciando cada livro que só termino se me convencer de que vale a pena, assistindo apenas os filmes que quero ver , independente de quem fez ou de que prêmio ganhou, bebendo umas boas taças de vinho e curtindo a melhor gastronomia possível. Adoro as amizades calmas que cultuo, sem juízos de valor nem compromissos necessários, amigos que quase nunca pensam como eu mas deixam-me perorar minhas ideias com atenção sincera porque sabem de minhas boas intenções em ajudar o mundo a ser um lugar melhor.
Hannah Arendt, a filósofa que aprendi a admirar depois de adulto, diz que só há um lugar para vivermos, que fica entre o passado que não existe mais e o futuro que não existe ainda. Esse lugar é o presente, o agora. E deve ser vivido em público, com as outras pessoas, porque só com a presença dos outros que é possível criar o novo. E a existência no mundo com as pessoas é que permite a aventura da criação humana. Cada criação implica um mundo novo, pois o fundamento do mundo público é a natalidade. Não a morte, mas a vida. Por isso os governos autoritários detestam a alegria dos grupos, diz a Hannah : “a solidão faz a pessoa se levar por vias de pensamento que desembocam nos piores resultados possíveis (…) o notório extremismo dos movimentos totalitários, longe de ter algo a ver com o verdadeiro radicalismo, consiste, em verdade, em se pensar ‘o pior de tudo’, em se chegar às piores conclusões possíveis.”
Eu chego aos 60 anos com o pensamento de que tenho muito a fazer e fazer coletivamente. Tenho um país para construir, tenho jovens para inspirar, tenho tarefas inadiáveis para deixar minha marca no mundo e para alcançar a glória de ser lembrado pelos que me conheceram. Entre o passado que não é mais e o futuro que não é ainda, como já disse o mestre Paulinho: “meu tempo é hoje”. Viva!
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
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