Boxeadora italiana desiste da luta – Imagem: Freepik
ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
A luta pelas oitavas de final da categoria de pesos médios feminino terminou aos 46 segundos do primeiro round , por desistência da lutadora italiana. A luta terminou e a polêmica começou. Em cerca de meia hora, milhões de zaps e posts e emojis e comentários rodaram o mundo, “denunciando” o absurdo da situação: “colocaram um homem para lutar contra a italiana e ele quebrou o nariz dela”. Alguns dos posts que eu li, todos de homens indignados, falavam sobre a importância de proteger as mulheres contra o que chamavam de “política de lacração” do identitarismo, que quer comparar homens “que se dizem mulheres” com mulheres, expondo-as a violências como a que sofreu a boxeadora italiana. A primeira ministra da Itália ofereceu o prêmio de campeã para a atleta do seu país, e declarou: “Eu sei que você não vai desistir, Angela, e sei que um dia você vai ganhar o que merece com esforço e suor, mas em uma competição que será finalmente justa”.
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“Justiça” foi uma das palavras mais utilizadas nos posts que invadiram as redes sociais, logo depois de “absurdo”, “trans” e “esquerdista”. Juntas, essas palavras buscavam passar uma mensagem bem clara para conquistar corações e mentes. A mensagem era: esquerdista + absurdo + trans + injusto.
A boxeadora italiana, depois de esfriar a cabeça e aceitar a derrota do sonho do ouro olímpico, declarou para o jornal La Gazzetta dela Sport : Toda essa polêmica com certeza me deixou triste e também tive pena da minha adversária, ela não teve nada a ver com isso e, assim como eu, estava aqui para lutar. Não foi intencional, na verdade peço desculpas a ela e a todos. Fiquei com raiva porque meus jogos já tinham virado fumaça. Não tenho nada contra a Khelif e, pelo contrário, se a encontrasse novamente, daria um abraço. Ou seja, como fica claro na declaração da jovem atleta italiana, nenhum homem ou político extremista precisa defende-la de ninguém. Ela própria é capaz de avaliar seus atos e tornar pública suas ideias e conclusões. Neste caso, de reconhecimento de que agiu mal em relação a outra atleta e que a frustração e a raiva pela derrota foi a causa de suas declarações iniciais, das quais ela se arrepende e pede desculpas. Apesar de a primeira ministra conservadora da Itália não ter perdido a chance de embarcar na onda “ esquerdista + absurdo + trans+ injustiça” e mantido a pose de mulher ultrajada que empresta solidariedade a outra mulher “indefesa”.
Por sua vez, o Comitê Olímpico declarou: “A boxeadora argelina nasceu mulher, foi registrada como mulher, viveu sua vida como mulher, lutou boxe como mulher, tem um passaporte feminino”. E o porta-voz do COI, Mark Adams, acrescentou: “Este não é um caso envolvendo transgênero. Houve alguma confusão de que, de alguma forma, seria um homem lutando contra uma mulher. Este não é o caso. Sobre isso, há consenso, cientificamente: este não é um homem lutando contra uma mulher.”
A argelina fez sua estreia no cenário amador mundial aos 19 anos, quando ficou em 17º lugar no Campeonato Mundial de 2018. Um ano depois, Khelif ficou em 19º no Campeonato Mundial Feminino de Boxe. Ela fez sua estreia olímpica nos Jogos de Tóquio. Lutando na divisão leve de 60 kg, Khelif foi derrotada por 5 a 0 nas quartas de final pela medalhista de ouro da Irlanda, Kellie Harrington. Até o momento, Khelif lutou 51 vezes em sua carreira, vencendo 42 e perdendo nove. Seis dessas vitórias foram por nocaute. Como se vê pelos fatos, não parece um cartel devastador, ao contrário da mensagem irreversível , instauradora da “verdade” digital que alimenta as redes sociais de todo o mundo , definindo-a como uma pessoa trans que ameaça as mulheres indefesas do mundo..
Como lembrava Hannah Arendt: Ainda que se deva distingui-los, os fatos e as opiniões não se opõem uns aos outros, pertencem ao mesmo domínio. Os fatos são a matéria das opiniões, e as opiniões, inspiradas por diferentes interesses e diferentes paixões, podem diferir largamente e permanecer legítimas enquanto respeitarem a verdade de fato. A liberdade de opinião é uma farsa se a informação sobre os fatos não estiver garantida e se não forem os próprios fatos o objeto do debate.
Aí está é o ponto central de mais essa pseudo polêmica: espalhar mentiras como se fossem opiniões, e defende-las em nome da liberdade de ter opinião. E chamar de “esquerdista” a todos os que denunciam as mentiras e a distorção do conceito de liberdade.
Essa é a luta na qual estamos envolvidos. E, nesse momento, senhoras e senhores, saibam: estamos perdendo feio.
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
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