Os mais visionários são os coaches da Felicidade, pois se propõem a ensinar como chegar no lugar do conforto absoluto e interminável – Imagem: Freepik
ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Li, certa vez, que os grandes problemas do mundo surgiram quando o primeiro homem conheceu o conforto. Pode ter sido um fundo de caverna mais seco ou mais arejado, ou mais quente do que ele havia experimentado até então. Ou pode ter sido quando comeu a carne de uma ave chamuscada por um incêndio natural, ou uma fruta madura e suculenta. Ou – permitam-me o salto de milênios – quando entrou em uma sala com ar condicionado pela primeira vez. O fato é que o conforto não pode ser esquecido sem consequências. Uma vez experimentado, o mundo inteiro se transforma para sempre. E aí que reside o busílis.
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O cristianismo em sua versão original prega o desapego: Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus. E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus. Mas o cristianismo em sua versão original, como sabemos, está fora de moda, porque o que se crê hoje é que a verdadeira dádiva é prosperidade, e prosperar é nunca prescindir de um ar condicionado. Por isso as catástrofes climática são difíceis de serem internalizadas na mente dos “prósperos”. Primeiro, porque podemos escapar dela com um belo ar condicionado; segundo, porque, para escapar dela, deveríamos parar de usar ar condicionado. Ou seja: paradoxo. Ninguém entende a lógica desses ambientalistas!
O mesmo serve para a dieta baseada em proteína animal; ou andar de avião; ou comprar SUVs de 400 cavalos; ou pavimentar todos os lugares pra não tropeçar na hora do jogging. O importante é garantir para o nosso corpo e para os corpinhos dos membros de nossas famílias o máximo de conforto. Na Constituição dessa imensa população, no capítulo dos Direitos Fundamentais, o que prevalece é : que todos tenham direito ao conforto, mesmo que o conforto não possa ser para todos. Paradoxo. Ninguém se importa com a falta de lógica dos consumistas.
Pois é. O sensacional na lógica ( torta) do conforto é que, por definição, ele não pode ser para todos. Um lugar paradisíaco, por exemplo: uma praia em uma ilha do Caribe, um chalé nas montanhas, um apartamento com vista para o parque mais badalado da cidade. Se todo mundo puder ter, não será paradisíaco, mas a materialização da frase famosa do filósofo existencialista Jean Paul Sartre: o inferno são os outros. No entanto, essa obviedade não parece abalar os caçadores do conforto. Não importa que não caibam muitos, o que importa é que eu caiba. Eu e minha família querida.
Para concretizar esse sonho de vida, para encontrar esse santo Graal da felicidade, qualquer estratégia serve. Daí o desprezo pelas políticas públicas voltadas para compensar as desigualdade. Daí o ódio aos impostos que retiram verbas preciosas que poderiam ser revertidas em um carro do ano, em mais uma caixa do vinho que os famosos bebem, em mais uma viagem para o destino onde os artistas passam férias, em mais uma bolsa com a marca famosa, um vestido do estilista do momento. Daí a falta de sensibilidade com os apelos por comedimento e por mais cuidado com a natureza, com essa Terra que é a casa comum de todos os humanos e também com os mares e os ares comuns. Ora, pensam os competidores pela Felicidade: eu tenho tudo isso ou, melhor dizendo: eu terei tudo isso porque poderei comprar. Quem não tiver que se esforce como eu e também terá. Todo mundo que se esforça pode um dia vir a ter. Paradoxo. Mas quem está prestando atenção nisso?
Nesse mundo de corpos querendo se movimentar sem obstáculo, sem compromissos, sem responsabilidades, sem qualquer atenção, os mais visionários são os coaches da Felicidade, pois se propõem a ensinar como chegar no lugar do conforto absoluto e interminável. Lógico que esse caminho é cheio de obstáculos, há quedas e retomadas, mas nada que quaisquer milhares de dinheiros não compensem o aprendizado do caminho das pedras. E enchem-se os auditórios, os parques de exposição, os estádios de futebol, onde se apresentam os novos arautos da Felicidade. E os candidatos ao mundo feliz se espremem, se acotovelam, amassando os vestidos comprados nos “brexós de luxo” ( paradoxo!), segurando firmes suas bolsas de marca compradas na José Paulino, enquanto tiram a selfie sorridente para os instagrams de minguados seguidores, mas com grandes expectativas de ser, como todos os outros que ali estão, a próxima titular do mundo exclusivo dos que vivem de costas para o mundo, ignorando todos os recados e avisos, todas as placas e sirenes, todos as mensagens de apertem os cintos, o piloto sumiu!
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros