Imagem: Freepik
ARTIGO
Os artigos e informes publicitários não representam necessariamente a posição de NEO MONDO e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo sem prévia autorização
Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
A teologia da prosperidade invadiu todos os cantos do relacionamento humano contemporâneo. A ideia básica de que “vencer na vida” é uma questão de vontade e que, uma vez tendo “vencido na vida” você não deve nada a ninguém, ganhou corações e mentes, desde os jovens aprendizes aos mais maduros empreendedores. O importante é que você seja “feliz”, repetem os mantras dos inúmeros cursos oferecidos na internet. A Felicidade- assim como tudo antes- tornou-se mercadoria ao alcance de todos que puderem pagar, em 12 vezes sem juros, para conhecer os seus segredos infalíveis.
Leia também: O Mal ao alcance de todos
Leia também: A maldição dos coaches da Felicidade
O efeito mais devastador desse momento de indigência intelectual no qual vivemos é que, junto com o egoísmo legitimado pelo discurso da prosperidade e da felicidade pret a porter, está acoplado a autorização para desprezar os que não a alcançam , isto é, os pobres, os desajustados, os incapazes de juntar seu primeiro milhão antes dos 25 anos. Como duas faces da mesma moeda, o sucesso da Teologia da Prosperidade só faz sentido se produzir também um rastro de desprezo e ódio no seu entorno. Não é à toa que boa parte do tempo desses emergentes é gasto criticando tudo e todos que se importam com “coisas de fracassados”, como Saúde, Educação, respeito pelas Identidades, gastos com Agricultura Familiar ou com redistribuição de renda. Isso sem falar dos que têm preocupação com o Meio Ambiente, com o aquecimento global, com a poluição dos rios e mares, com a destruição dos biomas. Parece que os prósperos e felizes não vivem no mesmo planeta que o resto de nós. Empresários sem o menor senso ético vociferam contra toda e qualquer tentativa de proteção coletiva, desde vacinas até políticas de preservação de oceanos ou florestas tropicais. Chamam de mimimi, riem, debocham e, na esfera política, acusam os defensores da vida autêntica de comunistas.
Para o filósofo alemão Hans Jonas, o termo “vida autêntica” está intrinsecamente ligado à ideia de responsabilidade ética, especialmente em relação às gerações futuras e ao meio ambiente. Ele argumenta que o desenvolvimento tecnológico e científico impôs novas formas de poder à humanidade, que não apenas afetam o presente, mas também podem comprometer a vida no futuro. Nesse sentido, a vida autêntica exige que o ser humano reconheça sua responsabilidade sobre as consequências de suas ações e tome decisões que preservem a continuidade da vida no planeta.
Na sua obra mais famosa, O Princípio Responsabilidade , de1979, Jonas discute a necessidade de uma nova ética para a civilização tecnológica. O cerne dessa ética é o dever de preservar a vida e proteger o futuro. Para ele, a vida autêntica envolve uma consciência moral que ultrapassa as fronteiras individuais, colocando o bem-estar das futuras gerações e do planeta como central. Assim, uma vida autêntica seria aquela que integra uma visão de longo prazo e age de maneira a evitar danos irreversíveis ao meio ambiente e à humanidade.
Jonas também tece críticas ao existencialismo, especialmente à ênfase que filósofos como Heidegger colocam na autenticidade como um ato de autoafirmação individual diante da angústia existencial e da finitude. Para Jonas, essa abordagem falha em reconhecer a dimensão intergeracional e a relação intrínseca entre o ser humano e o mundo natural. A vida autêntica, na visão de Jonas, não pode ser definida apenas em termos da existência individual e da busca de sentido pessoal, mas deve considerar as interdependências da vida e a continuidade das gerações futuras. Não nos deve escapar da lembrança os afetos entre Heidegger e o nazismo, padrão político que vem sendo resgatado, sob diversas novas roupagens, em todo o mundo pela direita extrema crítica de tudo o que cheire a interesse comum, a compromisso coletivo, à preocupação com um futuro compartilhado. A questão, como podemos inferir, é séria. Não é de espantar que os coachs da prosperidade tornaram-se importantes aliados dos ultraconservadores políticos, associando a ambição desmedida dos primeiros com o discurso sedutor de que esse sucesso é só uma questão de ajuste cósmico e de dedicação pessoal.
E quando esses apóstolos da Felicidade estiverem no Poder, com seus mandamentos de exclusão e de desprezo, o que acontecerá? Pelo que apontam pesquisas eleitorais por todo o país, parece que é só uma questão de tempo para sabermos.
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros