A jornalista Eleni Gritzapis e o convidado Alexander Turra gravando para o greenTalks – Imagem: Divulgação/Canta
Por – Eleni Gritzapis, especial para Neo Mondo
O mais novo episódio do greenTalks entrevista um convidado muito especial para falar de sustentabilidade do oceano: Alexander Turra
A mais nova edição do greenTalks recebe a maior referência sobre sustentabilidade no oceano: o professor Alexander Turra. Ele se autodeclara um “biólogo polimático”, é Professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano. Recentemente, foi agraciado com o prestigiado Frontiers Planet Prize, graças ao seu estudo inovador sobre a poluição por plástico nos oceanos, focado na Baía de Guanabara (RJ) e nas áreas brasileiras da Bacia do Rio da Prata. Em março, assumiu ainda cadeira no conselho consultivo de notáveis do InovaESPM.
O greenTaks é uma iniciativa pioneira entre a green4T e NEO MONDO para discutir o papel fundamental da tecnologia na promoção de um futuro mais sustentável.
Confira alguns trechos da entrevista e não deixe de assistir a íntegra abaixo:
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(greenTalks) – Como você se tornou especialista em temas relacionados à sustentabilidade dos oceanos? De onde nasceu sua paixão pelo tema?
Esse é o meu lado polimático, que é um termo que se refere a como você vê a complexidade das coisas, como você vê o sistema no seu todo, uma visão do conjunto. E eu venho tentando, sem saber disso, fazer as coisas fazerem sentido na minha cabeça há um bom tempo.
Comecei estudando o oceano no curso de biologia, na Unicamp, na década de 90. No meio da graduação, resolvi estudar caranguejos e ermitões, que são pequenos caranguejinhos que vivem dentro da concha do caramujo. Chegou uma hora que falei, bom, não estou entendendo direito isso aqui. Aí saí da concha, literalmente, para poder explorar um pouco melhor esse universo. E aí fui estudando ambientes, ecossistemas, e agora eu estou estudando o sócio-ecossistema. Ou seja, como a gente entende a interação do ser humano com o oceano e pensa como mudar isso, especialmente no que se refere às políticas públicas, tecnologia etc.
Como que a gente promove a transformação para um oceano sustentável e com isso, um planeta sustentável? Porque tem um ciclo vicioso que pode ser virtuoso, né? A sociedade está doente e a gente faz com que o oceano esteja doente. E ele estando doente faz com que a gente fique mais doente ainda. Então esse é o ciclo vicioso. A gente tem que quebrá-lo.
(greenTalks) – Com o aumento da temperatura global, muitos ecossistemas marinhos estão sendo impactados e isso muitas vezes é minimizado ou não percebido por pessoas leigas. Poderia nos falar sobre o impacto específico que o aumento de 1,5°C tem nos recifes e em outros ecossistemas marinhos?
Vamos pensar nas ondas de calor que estamos vivendo, cada vez mais frequentes e mais longas. E isso tem consequências para a nossa saúde, para a nossa qualidade de vida, a nossa capacidade de trabalhar. Essa lógica se aplica ao ambiente marinho.
E essas ondas de calor vão ser mais percebidas em alguns locais, por exemplo, locais onde circula pouca água, como uma baía costeira. Imagine a Baía de Guanabara, a Baía de Todos os Santos, ou a Enseada de Caraguatatuba. Você tem pouca circulação de água e ali você tem, então, uma água ficando mais quente do que as outras regiões. E isso vai afetar aquela biodiversidade. E o que que isso faz? Localmente, os organismos estão sentindo o mesmo que nós. Eles ficam com um comportamento diferente, talvez tenham menos capacidade de buscar alimento, menos capacidade de fugir de predadores. O corpo deles não funciona tão bem numa temperatura tão elevada.
Temos que lembrar ainda que a maioria dos organismos marinhos, tirando os mamíferos, as aves, as tartarugas, são ectodérmicos, ou seja, eles não regulam a temperatura corporal, que varia em função do ambiente. Então, são mais suscetíveis a essas variações.
Um fenômeno muito interessante, embora trágico, relacionado a isso é o aquecimento da água do planeta, que vai vindo do Equador para os polos, as espécies tendem a migrar do Equador para os polos. E elas acabam indo ocupar áreas que não ocupavam antes, passam a ser espécies novas ali. Isso causa impactos locais, porque é uma espécie nova chegando.
Pensa, por exemplo, e o que está acontecendo com a sardinha aqui em São Paulo. A indústria da sardinha praticamente se foi. São Paulo era um grande produtor e hoje ela está no Rio Grande do Sul. Temos vários exemplos disso no mundo inteiro, espécies de peixes e algas mostrando essa migração.
Outro fenômeno que a gente tem é a acidificação. E pouca gente sabe que ela, além de afetar a vida marinha, afeta também nós, seres humanos.
(greenTalks) – Explica pra gente como isso acontece, professor.
A acidificação é um fenômeno derivado do aumento de gases de efeito estufa na atmosfera, especialmente o gás carbônico. Esse gás é dissolvido na água do mar. Existe uma interação entre a atmosfera e o oceano, e parte desse CO2 que está na atmosfera vai para o oceano e se dissolve ali. Estando na água do mar, ele passa por uma série de reações, e o final dessas reações é a produção de íons de hidrogênio. E isso vai tornando a água mais ácida.
Essa água mais ácida dificulta a calcificação de organismos que têm estruturas calcificantes, como os corais, os moluscos e estruturas que existem nos organismos. Os peixes têm otólitos, que são estruturas que ficam na região do ouvido e que ajudam eles a se posicionarem, a saberem onde estão. E isso também é afetado pela acidificação. Ela impacta a orientação dos animais, além da diminuição da capacidade de se defender, causa dificuldade de crescer, no caso dos corais, porque ele não vai construir esqueleto.
E o grande problema em relação aos corais é que se o nível da água do mar está subindo e os corais não sobem na mesma taxa, a água vai começar a passar por cima desses corais e aumentar a erosão de praias, entre outros efeitos.
Outro impacto é na biodiversidade e nos recursos que exploramos do oceano. Podemos ter colapsos dessa biodiversidade e não ter determinadas espécies que costumamos consumir. São efeitos sistêmicos de um fenômeno silencioso.
Gosto de fazer comparações com a saúde humana: é como a pressão alta, ela é meio assintomática e, de repente, você tem uma alteração substancial que colapsa o sistema, é a morte. Desta forma, temos que estar atento para isso e pensar nas emissões ou no sequestro de CO2.
(greenTalks) – Como grande conhecedor do oceano, é possível reverter o impacto da poluição por plásticos?
Com certeza, vamos reverter, por várias razões. Primeiro, temos que tirar os conflitos de interesse, se despedir das bandeiras dos conflitos de interesse e entender de forma muito clara e objetiva as coisas. O plástico é um produto importantíssimo para a sociedade, mas ele pode se tornar uma conveniência inconveniente. Isso a gente tem que mudar. Como a gente mudar isso?
Hoje, na construção do Tratado Internacional para o Combate à Poluição Ambiental por Plástico, estamos discutindo muito a questão do plástico que é chamado de evitável do que é considerado desnecessário. Qual a diferença entre o evitável e o desnecessário, o problemático? O problemático é aquele que faz mal. Um exemplo são microesferas de plástico em cosméticos, ele já vai direto pro esgoto, já vai direto pro mar. Ou os químicos que são perigosos e persistentes. Isso tudo está sendo mapeado por especialistas do mundo inteiro e vai gerar uma relação para serem banidos e os países vão ter que fazer com que isso aconteça.
Já para os evitáveis, vamos ter que construir uma forma de usá-los com racionalidade. Existem ainda decisões culturais, coletivas ou individuais, que vamos precisar considerar. E a indústria não necessariamente vai perder se ela entender a oportunidade que ela tem de liderar esse movimento e trazer soluções para endereçar a questão.
(greenTalks) – Você poderia nos explicar um pouco sobre as tecnologias que estão sendo utilizadas para mapear a temperatura do mar e como essas informações são importantes para entendermos as mudanças climáticas e seus impactos nos oceanos?
Temos dois caminhos: o da mitigação, da não emissão, e o da transição para uma economia de baixo carbono, da adaptação. Ou seja, algumas mudanças vão ocorrer e temos que nos adaptar elas.
No caso da mitigação, por exemplo, temos exemplos muito bons de como produzimos energia sem depender de petróleo. Na USP, por exemplo, tem todo um trabalho de produção de energia a partir de hidrogênio verde, que é uma fonte limpa, ou renovável, que pode substituir o óleo diesel, pode substituir o gás natural na propulsão de veículos grandes e pequenos.
Temos o avanço da energia solar, da energia eólica, mas nós temos alguns avanços que ainda precisam acontecer. O mar é como uma pilha, ele tem polos, águas mais quentes e águas mais frias, águas com maior salinidade ou menor salinidade. Se você une esses polos, acende a luzinha. Estou falando de forma muito simplista, mas é basicamente isso. Esse é um tipo de energia que ainda não estamos conseguindo aproveitar.
No lado da adaptação, o ideal é que a gente não precisasse fazer isso. Pensando, por exemplo, na catástrofe recente no Rio Grande do Sul, como que você lida com isso? Vai acontecer de novo? Talvez um pouco menos, talvez um pouco mais? Temos que nos preparar e usar a tecnologia a nosso favor: o que construir, onde construir, lógica de uso e ocupação do solo. É por isso que a ciência é tão importante. Precisamos medir, ter radares e estações meteorológicas, ter boias oceanográficas, equipamentos pegando dados em tempo real e mandando para centros de convergência para gerar os modelos e entender o que está acontecendo em tempo real. A inteligência artificial ajuda muito a gente a trabalharmos com big data, antecipar padrões e nos ajudar a a direcionar os nossos esforços de pesquisa.
(greenTalks) – Quais conselhos você daria para quem quer ajudar a preservar os oceanos no nosso dia a dia?
Bom, vai parecer lição de moral, mas não é isso. A coisa mais importante é entendermos que tudo está interligado, não só em relação ao oceano, mas em relação às mudanças do clima, às questões da natureza. Temos que pensar em quem nos governa, entender como que legislações que foram propostas e implementadas que fragilizaram o meio ambiente podem ter contribuído para intensificar a severidade dos eventos climáticos. E só estamos fazendo isso depois que as tragédias aconteceram, infelizmente.
Como a gente consegue demonstrar, provar o conceito de que a gente consegue construir resiliência? Resiliência é uma palavra meio esquisita, ela é capacidade que temos de lidar com as adversidades. Por exemplo, na pandemia, uma pessoa que não tinha comorbidades, tinha maior capacidade de lidar com os efeitos do vírus no corpo.
O oceano tem comorbidades. Ele não tem pressão alta nem diabetes, mas ele tem óleo, ele tem lixo, aumento da temperatura, pesca excessiva etc. Ele tem um monte de comorbidades e fica com a sua capacidade de lidar com agressões adicionais diminuída. É isso que está acontecendo. Então, o que temos que fazer, não só com o oceano, mas também com os ambientes, de uma forma geral, é aumentar essa resiliência. Isso significa, por exemplo, replantar, reflorestar. Isso significa, inclusive, pensar na Amazônia, porque tudo isso que a gente está falando do oceano, a gente está falando porque existem as interconexões. A gente tem o El Nino, que é no Pacífico, que influencia o Brasil. A gente tem a Antártica, que influencia todo o Atlântico Sul. A gente tem que pensar sistemicamente.
A água que vem de um rio, que é barrado por uma barragem, ela não vai ter sedimento para engordar uma praia, que, por sua vez, vai ter erosão. Vivemos um fenômeno hipercomplexo que precisa, então, ser trabalhado nessa perspectiva. E é nesse sentido que precisamos pensar os caminhos. Por este motivo, as políticas públicas são fundamentais.
Individualmente, a gente pode fazer várias coisas e muitas delas estão associadas às nossas escolhas diárias. Quanto a gente consome? Como a gente consome? Por que a gente consome? A gente tem que ir caminhando no sentido de ter uma harmonia, de viver mais em harmonia com a natureza, que é um dos motes, uma das mensagens da Convenção da Diversidade Biológica. Como a gente faz pra viver em harmonia com a natureza? A gente tem que pensar socialmente, coletivamente e individualmente.
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