Os desafios da indústria cosmética e as estratégias para criar produtos mais limpos e com menor impacto ambiental foram o foco do congresso – Imagem: Freepik
POR – OSCAR LOPES*, PUBLISHER DE NEO MONDO
Os desafios atuais da indústria e as estratégias para desenvolver produtos com menor impacto ambiental, tendo a biotecnologia e o desenvolvimento sustentável como pilares, foram os temas principais.
O cenário global de beleza e cosméticos está passando por uma transformação profunda, impulsionada por inovações científicas que colocam a sustentabilidade no centro das discussões. Essa mudança foi claramente destacada durante o 34º Congresso da Federação Internacional das Sociedades de Químicos Cosméticos (IFSCC, na sigla em inglês) 2024, que, pela primeira vez, foi sediado no Brasil, em Foz do Iguaçu (PR), entre os dias 14 e 17 de outubro. O evento contou com a participação de aproximadamente 1.200 pessoas, entre empresas, cientistas e especialistas do mundo inteiro e trouxe à tona os desafios e soluções que a indústria cosmética precisa enfrentar para criar produtos com menor impacto ambiental.
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Biotecnologia: O futuro dos cosméticos sustentáveis
Com a biotecnologia como um dos pilares centrais do congresso, a criação de ingredientes mais sustentáveis ganhou destaque. Os avanços apresentados incluem o uso de processos biotecnológicos como fermentação e biocatalisadores, que permitem a produção de ativos cosméticos com menor impacto ambiental. Isso abre portas para a utilização de microrganismos e algas, resultando em moléculas poderosas para a indústria da beleza e de cuidados com a pele e cabelos, sem a necessidade de exploração intensiva de recursos naturais.
Ciência a serviço da beleza e do planeta
“Além do carbono” foi a frase que mais ecoou ao longo dos dois workshops sobre sustentabilidade e biotecnologia organizados pelo Grupo L’Oréal e pelo Grupo Boticário no IFSCC. A expressão reflete uma visão ampliada sobre a sustentabilidade, que vai além da simples redução de emissões de carbono, e aborda questões mais complexas relacionadas ao impacto da atividade industrial no planeta.
A importância dessa visão ampliada foi ressaltada por Emily Dionizio, especialista em Gases de Efeito Estufa (GEE) do World Resources Institute (WRI), uma ONG global dedicada à pesquisa e implementação de práticas sustentáveis. Emily introduziu o conceito de “fronteiras planetárias”, essencial para entender o impacto das indústrias, incluindo a cosmética, no planeta. Ele abrange nove processos fundamentais que mantêm o equilíbrio do sistema terrestre e que atuam como limites que, uma vez transgredidos, comprometem a estabilidade do planeta.
Três desses processos estão diretamente ligados à extração de recursos naturais: perda de biodiversidade, uso excessivo de água doce e a mudança no uso da terra. Os demais processos envolvem resíduos gerados pela atividade humana: emissão de gases de efeito estufa, produtos químicos que destroem a camada de ozônio, novas substâncias (como plásticos, compostos sintéticos e organismos geneticamente modificados), aerossóis que alteram a atmosfera, sobrecarga de nutrientes e a acidificação dos oceanos devido ao aumento de CO₂.
Apesar de a beleza parecer, à primeira vista, um campo desconectado desses temas, a verdade é que a produção cosmética tem uma influência considerável em muitas destas fronteiras. A extração de matérias-primas, o uso de água em larga escala, as embalagens plásticas descartáveis e a emissão de gases poluentes durante a fabricação dos produtos são apenas algumas das maneiras pelas quais a indústria cosmética contribui para ultrapassar esses limites críticos.
Emily enfatizou que a humanidade já ultrapassou seis das nove fronteiras planetárias, colocando-nos em uma zona de perigo iminente. Isso significa que o equilíbrio que sustenta a vida na Terra está seriamente ameaçado e se não houver uma mudança rápida nos padrões de produção e consumo, os impactos no meio ambiente e na sociedade serão irreversíveis. “Não há negócios em um planeta não resiliente”, afirmou a especialista. Em outras palavras, a sustentabilidade deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade. As empresas que não adaptarem suas operações para reduzir o impacto ambiental e respeitar os limites do planeta não só colocarão em risco o meio ambiente, mas também a própria viabilidade de seus negócios no longo prazo. As mudanças climáticas, a escassez de recursos e a degradação ambiental afetarão diretamente as cadeias de produção, os consumidores e os mercados.
Os workshops mostraram que é fundamental repensar não apenas os produtos cosméticos em si, mas toda a cadeia produtiva. A biotecnologia, por exemplo, está permitindo o desenvolvimento de ingredientes alternativos, com menor impacto ambiental, como os bioativos produzidos a partir de algas e microrganismos, em vez de matérias-primas extraídas de ecossistemas vulneráveis. Essas inovações podem reduzir drasticamente o uso de recursos naturais e a emissão de poluentes, ao mesmo tempo que mantêm, ou até melhoram, a eficácia dos produtos cosméticos.
A mensagem central é clara: o futuro da cosmética, e de todas as indústrias, depende de um comprometimento profundo com a sustentabilidade. As fronteiras planetárias não são apenas marcos científicos; são alertas que indicam a necessidade urgente de mudança. O desafio agora é conciliar inovação tecnológica, como a biotecnologia, com práticas de negócios que respeitem os limites ambientais, garantindo não apenas a beleza, mas a sobrevivência do planeta.
Sustentabilidade como obrigação, não como escolha
Ainda no mesmo workshop, Isabelle Rollat, diretora de Inovação Sustentável e EcoDesign da L’Oréal R&I, reforçou a urgência da transformação na indústria cosmética. “A sustentabilidade não é mais uma questão de convicção, é uma obrigação”, destacou. Essa visão evidencia que décadas de esforços finalmente se concretizaram, estabelecendo uma nova realidade que ultrapassa marcas e empresas.
Segundo Isabelle, “sustentabilidade não se resume mais a reduzir as emissões de carbono, mas também envolve a proteção da biodiversidade”. O desafio agora não é apenas desenvolver ingredientes mais sustentáveis, mas também medir o impacto de cada produto, garantindo que sejam “melhores que seus antecessores em termos de sustentabilidade”.
Ao mencionar o Consórcio EcoBeautyScore, que reúne quase vinte empresas concorrentes, mas unidas em prol da sustentabilidade, a diretora destacou a importância de “desenvolver um sistema claro, transparente e eficaz para comunicar o impacto ambiental dos produtos”. Essa iniciativa busca estabelecer uma metodologia científica comum, promovendo a colaboração para a construção de um padrão global que permita medir e comparar o impacto ambiental dos produtos de forma objetiva e unificada.
“Sustainability Challenge”: desafio internacional de sustentabilidade
O Grupo L’Oréal no Brasil, em parceria com a Associação Brasileira de Cosmetologia (ABC), convidou startups e pesquisadores acadêmicos brasileiros a participarem do “Sustainability Challenge”, cuja final ocorreu durante o IFSCC. Trata-se de um desafio internacional voltado para a sustentabilidade, em que profissionais puderam expor suas ideias inovadoras, estimulando a criatividade e a troca de conhecimento para impulsionar soluções ecologicamente responsáveis dentro do mercado de beleza. Os participantes tiveram a oportunidade de apresentar suas propostas diante dos maiores nomes do setor e o vencedor, no caso a Apoema Biotech, garantiu um convite para o próximo congresso, que acontecerá em Cannes, na França, em 2025.
Segundo Jean Marc Ascione, diretor de Pesquisa e Inovação do Grupo L’Oréal na América Latina, o Sustainability Challenge representou uma oportunidade valiosa para fomentar iniciativas de transformação sustentável. “A ciência e a tecnologia são os motores que impulsionam a empresa na criação de produtos de beleza e experiências inigualáveis, capazes de atender às necessidades e aspirações diversas de nossos consumidores. O objetivo do Sustainability Challenge foi inspirar a criatividade dos pesquisadores e startups, desafiando-os a pensar fora da caixa. Queremos reconhecer a proposta com maior potencial de impacto positivo e que traga soluções sustentáveis à indústria cosmética”, explicou Ascione.
Impactos da indústria da beleza no mundo
Mathias Fleury, chefe da categoria de ingredientes ativos da Givaudan, trouxe à tona dados alarmantes revelando que “mais de 7 milhões de hectares de floresta são destruídos anualmente pela indústria da beleza”. Ele destacou que a extração de matérias-primas representa cerca de 30% da pegada de carbono da cadeia produtiva. Além disso, chamou a atenção para o impacto do descarte de embalagens plásticas, com “mais de 120 bilhões de recipientes de produtos de beleza sendo jogados fora a cada ano”.
Em resposta a esses desafios, Fleury ressaltou os avanços da biotecnologia, que têm permitido “desenvolver soluções que minimizam o impacto ambiental e protegem a biodiversidade”. Tecnologias como a fermentação – um processo utilizado pela humanidade há décadas – e o biocatalisador estão na vanguarda da produção de ingredientes mais limpos e sustentáveis. Fleury também mencionou o uso inovador de algas, que permite a obtenção de moléculas potentes sem a exploração intensiva de recursos naturais, oferecendo alternativas de baixo impacto ambiental.
Ele enfatizou que, por meio da biotecnologia, a indústria já alcançou “uma redução de 90% no impacto ambiental”, comprovando que a integração de práticas sustentáveis e inovações tecnológicas pode transformar significativamente o setor da beleza, contribuindo para a preservação do meio ambiente e da biodiversidade global.
Consórcio EcoBeautyScore e seu conceito
Iguatemi Costa, diretor Científico de Ingredientes Naturais e Sustentáveis da Natura, ofereceu uma análise aprofundada sobre o conceito adotado pelo consórcio EcoBeautyScore,, destacando a importância da avaliação do ciclo de vida dos produtos. Ele explicou que essa abordagem envolve um estudo detalhado de cada etapa do processo produtivo, desde a extração das matérias-primas até o descarte final, permitindo uma visão holística do impacto ambiental de cada produto. “O ciclo de vida é uma das metodologias mais completas para mensurar o impacto ambiental de um produto”, afirmou Costa.
Ele ressaltou que o papel do consumidor é crucial nesse processo, já que as informações sobre o impacto são traduzidas em uma pontuação numérica. Essa métrica, além de tecnicamente robusta, é desenvolvida para ser clara e acessível ao público, possibilitando que os consumidores façam escolhas mais informadas e sustentáveis. A transparência, segundo Costa, é essencial para alinhar a indústria e o consumidor em direção a práticas de consumo mais responsáveis e ambientalmente conscientes.
dos métodos mais completos para avaliar o seu impacto” – Foto: Freepik
A mensagem final do 34º Congresso IFSCC 2024 foi clara: o futuro da beleza não pode ser dissociado do futuro do planeta. Os avanços científicos e tecnológicos apresentados, particularmente no campo da biotecnologia, mostram que é possível criar produtos eficazes, seguros e sustentáveis. A indústria cosmética está ciente de que, para prosperar, deve respeitar os limites do planeta e adotar práticas que protejam tanto a biodiversidade quanto o bem-estar das gerações futuras.
*Oscar Lopes, publisher de NEO MONDO, viajou para Foz do Iguaçu a convite do Grupo L’Oréal no Brasil.