A jornalista Eleni Gritzapis e o convidado Carlos Nobre (parte 2) gravando para o greenTalks – Imagem: Divulgação/Canta
Por – Eleni Gritzapis, especial para Neo Mondo
Nesta segunda parte da entrevista, Carlos Nobre alerta que corremos o risco de perder a Amazônia, grande parte do Cerrado virar Caatinga e uma parte significativa da Caatinga vai virar semideserto se a temperatura média da Terra seguir aumentando
Dando continuidade ao primeiro bloco da conversa com o cientista Carlos Nobre, referência mundial em estudos sobre mudanças climáticas, o greenTalks traz agora a segunda parte da entrevista, onde ele compartilha um panorama inovador sobre o papel da tecnologia e das políticas públicas para mitigar os impactos da emergência climática no Brasil.
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Com uma visão crítica e ao mesmo tempo otimista, o professor explora áreas promissoras como energias renováveis, hidrogênio verde e as cidades-esponja, além de falar sobre a importância de um consumo mais consciente e o papel das novas gerações. Acompanhe esse diálogo inspirador que desafia todos nós a agirmos juntos pela sustentabilidade do planeta.
O greenTaks é uma iniciativa pioneira entre a green4T e NEO MONDO para discutir o papel fundamental da tecnologia na promoção de um futuro mais sustentável.
Professor, vamos falar agora de tecnologia para combater a emergência climática. Quais áreas de pesquisa tecnológica o senhor considera mais promissoras para reduzir os impactos das mudanças climáticas no Brasil e em biomas específicos como a Amazônia?
(Carlos Nobre) – Mais de 70% das emissões de CO2 é a queima de combustíveis fósseis. Por isso, precisamos dar uma super acelerada na transição para energias renováveis. Quando pensamos que o custo da energia de um painel solar há 20 anos atrás era cinco vezes maior do que hoje, vemos a maravilha que a evolução tecnológica nos traz. Isso é só para dar um exemplo.
A energia eólica também é muito barata, temos vários potenciais de energia dos oceanos, há lugares que já estão pegando energia das marés… Existe também um enorme potencial de uma nova forma de energia, inclusive já existe uma usina no Havaí, outra sendo feita no Haiti e uma perto do Japão. Ela funciona assim: quando você está em um oceano tropical, da superfície do oceano até mil metros de profundidade, registra-se de 22º C a 24º C de diferença de temperatura. Então, podemos colocar no fundo do oceano um super tubo que sobe até a superfície, inserir um líquido como amônia nele, ele fica gelado, sobe, é aquecido neste trajeto, vira gás e esse gás roda o gerador de energia elétrica. Depois, ele é jogado de volta para baixo, esfria e retoma o processo, num circuito muito eficiente.
Esta energia não é intermitente como a solar e tem um enorme potencial, principalmente no oceano tropical, inclusive ajuda a melhorar a qualidade da água. A Universidade Federal do Rio de Janeiro, inclusive, já conduziu um modelo matemático mostrando o potencial desse modelo, mas ainda não construímos a primeira usina.
Outro exemplo: nos rios da Amazônia também há um potencial de energia hidrocinética. Veja bem, não é hidrelétrica, que afeta demais a biodiversidade, mas sim pequenos geradores que podem ser colocados nas comunidades ribeirinhas e que geram 24 horas por dia de energia elétrica. A Alemanha até financiou umas duas dessas usininhas para teste, mas precisamos investir para escalar esta tecnologia e dar acessibilidade.
Outro grande potencial é o hidrogênio verde. Hoje, ele custa mais caro que o hidrogênio cinza, que é feito de combustível fóssil. Felizmente, estamos construindo a primeira fábrica de hidrogênio verde pertinho de Fortaleza (CE), com um forte investimento estrangeiro. E na hora em que dermos escala para o hidrogênio verde, logicamente ele vai cair de preço. Ele é uma maravilha, porque é eletrólise da água, 100% energia renovável, com potencial para uso em transportes, indústria de cimento, de alumínio, de aço etc.
Na sua coluna no UOL, recentemente você abordou o conceito de cidades-esponja, que tem ganhado força como uma forma de aumentar a resiliência climática em áreas urbanas. Como essa tecnologia pode ser aplicada para proteger tanto os ecossistemas urbanos quanto rurais?
(Carlos Nobre) – Várias cidades do mundo estão avançando muito com esta tecnologia. Um dos meus primeiros alunos de doutorado, o professor Humberto Rocha, da Universidade de São Paulo, fez belíssimas pesquisas para mostrar como funcionam as ilhas urbanas de calor.
Um parêntese: não gosto de falar mudança climática e sim mudanças climáticas, porque além dos impactos dos gases de efeito de estufa, temos os da urbanização.
Voltando ao estudo: o Humberto posicionou uma estação meteorológica no parque zoológico de São Paulo (SP), região com muito verde, e outra a apenas 2,5 km de distância, em uma área super urbanizada. Sabe qual a diferença máxima de temperatura que registrou entre ambas? 10,5º C, numa distância de 2,5 km e com a mesma altitude!
A cidade-esponja entra como uma solução para isso. Ela combate as ondas de calor, umas das maiores causas de morte no mundo, 50 vezes mais que qualquer outro evento climático. Com ela, conseguimos reduzir as temperaturas de 4º C a 5º C, ela cria um microclima de sombra que é muito melhor para saúde, tem evaporação de água, tornando o ar mais úmido. Além disso, as árvores removem de 20% a 30% dos poluentes e o solo absorve muita água, impedindo alagamentos. Temos exemplos de sucesso em Singapura e em diversas cidades da China.
(Carlos Nobre) – Falando um pouco agora de governo. Como o senhor vê o papel da política pública brasileira no cumprimento dessas metas climáticas?
O que mais falta em todas as políticas é a implementação, ou seja, tornar todas as nossas populações muito mais resilientes aos eventos extremos. Por exemplo: tanto no Brasil quanto em inúmeros outros países, a maior causa da morte são as ondas de calor. Só 25% das residências brasileiras tem ar-condicionado. A eletricidade ainda é muito cara, e a própria infraestrutura da habitação retém o calor.
Então, mega investimentos têm que ser feitos em infraestrutura verde, desde soluções simples como a pintura de branco ou plantio de vegetação nos telhados das casas e cidades-esponja até revisão de projetos de grandes obras.
O Cemaden já mostrou que milhões e milhões de brasileiros vivem em áreas de altíssimo risco para eventos climáticos, isso não pode continuar! Na região serrana do Rio, mais de 35 mil pessoas moram em áreas com declividade de 35 graus ou mais. Temos que tirar esses milhões de brasileiros desta situação de risco, e a maioria é pobre. Temos que ter um olhar governamental para isso.
Temos que investir em agricultura e a pecuária regenerativas, que são muito mais resilientes às secas. As políticas de implementação estão muito atrasadas no Brasil.
Mas ainda tem como reverter? Há uma vontade política para fazer esse investimento na sua visão, professor?
(Carlos Nobre) – No discurso político sim, mas somente na época de eleição. Efetivamente, não estamos vendo a implementação. Quando vimos o que aconteceu com as enchentes no Rio Grande do Sul em maio, é triste lembrar que o governo estadual e várias cidades do Rio Grande do Sul, nos últimos quatro anos, aprovaram uma série de políticas que diminuíam ainda mais a área da Mata Atlântica no estado. Eles foram numa direção que aumentou muito a vulnerabilidade, flexibilizando a regulamentação ambiental, entre outras medidas.
É importantíssimo manter a floresta amazônica em pé. Como falei, ela está à beira do ponto de não retorno. E tem lá no Congresso, tenho certeza que não vai ser aprovado, um projeto para reduzir de 80% para 50% a área de proteção permanente de todas as propriedades privadas na Amazônia. Nós estamos ainda correndo muitos riscos, temos que inverter isso tudo!
Que mensagem o senhor deixaria para jovens cientistas e empreendedores que estão começando a trabalhar com inovação e sustentabilidade em um momento tão crítico para o planeta?
(Carlos Nobre) – A primeira é que a ciência e a tecnologia já avançaram tanto que é totalmente possível reduzir as emissões de CO2, especialmente no nosso consumo pessoal. Quando voltei do meu doutorado, em janeiro de 1983, comprei de um tio um veículo Brasília que, naquela época, era movido a bioetanol. Desde então, nunca na minha vida coloquei um litro de gasolina como combustível em qualquer dos automóveis que tive. Hoje, já começamos a ter carros elétricos, com preços mais acessíveis.
Os jovens cientistas têm que olhar para o consumo responsável e como promover tecnologias para torná-lo mais acessível.
Outro dado para a nossa responsabilidade pessoal no combate à emergência climática: o Brasil é o terceiro maior consumidor de carne bovina per capita do mundo. Por que não comprarmos carne de frigoríficos que vendem a chamada carne verde, aquela que vem da pecuária regenerativa, com muito menos emissões? O preço é o mesmo, não é mais caro. Sem contar que a pecuária regenerativa vem totalmente de fazendas muito antigas, que não tem nenhum novo desmatamento.
Então, nós podemos individualmente reduzir muitas emissões. Acredito muito no consumo sustentável, porque o consumidor tem um papel mais importante até do que o produtor. O produtor tem que ser convencido e muitos não estão. Agora, quando ele vê a demanda, ele é obrigado a oferecer e mudar.
São Paulo está comprando quase 13 mil ônibus elétricos, por meio de um financiamento do BNDES. O professor Paulo Saldiva, da USP, um gigantesco cientista de saúde, já mostrou que os paulistanos têm dois anos de expectativa de vida menos do que eu, que moro no interior. A causa? A poluição. Por isso, temos que eleger políticos que vão realmente ver a prioridade que é combater essa maior emergência que a humanidade já enfrentou.
Podemos ser otimistas?
(Carlos Nobre) – Fui o primeiro cientista a falar do risco da Amazônia, do ponto de não retorno, era enormemente pessimista – e criticado porque só via piorar as coisas. Aí depois que eu passei de 65 anos, virei otimista. Nós temos que buscar soluções. É possível impedir essa emergência climática e o desaparecimento do planeta?
Sim, é possível, existem tecnologias para isso. Nós precisamos incentivar uma rápida transição. Vamos trabalhar para sermos o primeiro país do mundo a zerar as emissões de CO2. Não dá mais para zerar a emissão em 2050, vamos zerá-las em 2040. Desafio lançado a todos, vamos juntos em frente!
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