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POR – FRINEIA REZENDE
Sim, já ouvimos que o nível do mar está subindo! Mas… em 2024, o nível do mar subiu de maneira surpreendente – e é a própria NASA quem está afirmando isso (para quem só acredita em mudanças climáticas quando são gringos afirmando isso).
Dia 13 de março, a NASA publicou um artigo evidenciando que o aumento do nível do Oceano* subiu, em 2024, acredite, 0,59 cm, sendo que a previsão era de um aumento de 0,43 cm.
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– Ah, mas isso não é nada…. só 0,59 cm?
Veja, isso significa que houve um aumento de cerca de 37%! E em números absolutos, considerando que o Oceano cobre uma superfície de cerca de 361 milhões de quilômetros quadrados, equivalente a 51,57 trilhões de campos de futebol (!), o volume de água (desses 0,59 cm) equivale a 850 milhões de piscinas olímpicas cheinhas!
Nos últimos anos, o aumento do nível do mar sempre ficou muito próximo das previsões de cientistas. Segundo os pesquisadores, “desde que o registro de satélite da altura do oceano começou em 1993, a taxa de aumento anual do nível do mar mais que dobrou”, mas, para além da preocupação em relação ao aumento em si, o porquê do aumento é tão preocupante quanto.
Nos anos anteriores, o aumento no nível do mar se deu pela adição de água de derretimento de gelo, como das geleiras, pela subsidência do solo e por um fenômeno físico conhecido por expansão térmica – e como estamos falando de água, que é um líquido, esse fenômeno é conhecido como dilatação volumétrica. E no ano de 2024, que foi o ano mais quente já registrado, as altas temperaturas geraram, proporcionalmente, além do calor em si, um aumento da própria dilatação.
– Eita, tô entendendo nada não dessa tal dilatação.
Vamos tomar um cafezinho, então, e eu te explico. Coloque a água aí para esquentar. Aprendemos na escola que quando a água aquece a 100o evapora, correto? Mas, antes de evaporar, a água fica agitadinha – e parece que forma um monte de bolhinhas, é a água “se mexendo” por conta do aquecimento. E inclusive é possível ver a marca da água quente na chaleira ou na caneca. É isso. Essa agitação se dá pelo aumento da temperatura, fazendo a água se expandir, e isso é conhecido por dilatação volumétrica.
Voltando ao Oceano… essa agitação da água pode parecer inofensiva, mas não.
Pense agora que você está numa praia. E você sente que a água da superfície é mais quentinha e mais fria na camada inferior. A físico-química explica: a água fria é mais densa que a água quente, por isso a superfície da água na praia é mais quente – além do efeito da superfície de contato (mas, não mergulharemos tanto assim em física).
No entanto, essa dilatação da água acaba se dando não só na superfície do Oceano, não. Isso se deve aos movimentos verticais na coluna d’água, por conta de áreas onde os ventos são mais fortes e agitam a água. Fenômenos como El niño também provocam movimentos massivos de água. Dessa forma, todo o Oceano, seja na superfície seja em camadas mais profundas acaba sendo impactado pela dilatação volumétrica (ou expansão) da água.
A Nasa tem monitorado a elevação do nível do mar desde 1993, e nesse período, o nível do Oceano subiu 10 centímetros.
– Ah… continuo achando que não impacta nada, 10 cm é menor que o comprimento do meu controle remoto.
Hum… ok. Segundo o IPCC*** , até 2030, o Oceano pode subir até 30 cm. Caso isso de fato ocorra, todas as cidades litorâneas e ilhas oceânicas serão impactadas, tendo várias áreas – que hoje são “terra firme” – engolidas pelo mar.
Ali na famosa Barra da Tijuca (Barra para os íntimos), que é plana, se o Oceano subir 20 cm, a água do mar pode avançar até 100 m – e adeus Av. Lucio Costa… e o RJ já poderá criar a Linha Azul (para combinar com o mar ou com a bandeira do Estado). Em Veneza, Itália, que já enfrenta inundações regulares – conhecidas por acqua alta, ninguém mais passeará de gôndola ouvindo Fiiigaaaro, caso contrário baterá a cabeça nas pontes baixinhas. E em Bangcoc, na Tailândia, esses 20 cm de aumento no nível do mar pode invadir até 2 km – e adeus bangalôs pé na areia.
Tuvalo, um arquipélago Estado, lá na Polinésia, já está se preparando para evacuar, já que o mar está prestes a engolir todo o seu território. O próprio Primeiro-Ministro do país sugeriu inclusive a criação da Tuvalu no metaverso. E para onde vão os tuvaluanos? Existe um acordo de Tuvalu com a Australia, garantindo que os tuvaluanos sejam acolhidos num futuro que parece cada vez mais próximo.
Até 2030 ainda não precisaremos correr para as montanhas. Mas as construções beira-mar terão de ir um pouco mais em direção ao continente – ou reconstruir sobre palafitas.
Com o cenário ambiental atual, e considerando a conjuntura geopolítica onde governantes ainda negam mudanças climáticas , ou os governos (principalmente os municipais) iniciam seus planos de adaptação climática, ou os eventos climáticos extremos terão efeito bola de fogo – já que bola de neve está rara (desde 2000 perdemos praticamente 20% da neve que cobria cordilheiras, alpes e montanhas).
* Uso o termo Oceano pois me refiro a grande massa de água salgada que cobre 70% da superfície do planeta.
** Se quiser pesquisar informações sobre o nível do mar, aqui estão duas ferramentas interessantes:
- NOAA Sea Level Rise Viewer (EUA): Permite visualizar o impacto do aumento do nível do mar em diferentes cenários.
- Climate Central’s Coastal Risk Screening Tool: Oferece projeções globais, incluindo o avanço da água do mar em áreas costeiras.
*** Intergovernamental Panel on Climate Change, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas em português.
Bióloga, mestre em ecologia e recursos naturais, é especialista reconhecida em conservação da natureza e desenvolvimento sustentável, com vasta experiência na promoção de práticas de proteção aos ecossistemas marinhos e florestais. Com uma sólida carreira internacional, Frineia tem liderado programas estratégicos que integram comunidades locais e governamentais, bem como organizações privadas e não-governamentais, para a proteção e manejo de recursos naturais. Seu trabalho se destaca pelo compromisso com a proteção da biodiversidade e combate às mudanças climáticas e seus impactos sobre pessoas e ecossistemas, além da habilidade em promover parcerias colaborativas em prol de, não só um futuro, mas essencialmente, um presente sustentável. Frineia, além de executiva da área da conservação, é Advisor da Bio Bureau Biotecoologia.